quarta-feira, 22 de julho de 2026

Não ser vítima de um pequeno acidente de trânsito

Tereza, que já é uma senhora, parou seu carro atrás de um Civic. Semáforo fechado, rua com uma suave inclinação, neto no carro, ela se destraiu, o carro correu lentamente para a frente e bateu na traseira do Civic. Desceu o dono do carro, olhou, olhou, apontou para uma pequena deformação numa das protuberâncias do para-choque, virou-se para Tereza e disse que teria que trocar o para-choque inteiro. Trocaram cartões, Tereza deixou o neto em casa, telefonou para a seguradora, recebeu orientações. Eu soube da história enquanto ela falava com a seguradora. Ela desligou, pedi detalhes da história e fiquei a pensar (como dizem os portugueses).

No dia seguinte Tereza telefonou para o corretor de seguros, o mesmo que sempre faz tudo para ela há décadas. Ele pediu as fotos, ela mandou, ele deu uma olhada nas imagens e pediu que deixasse tudo com ele, que resolveria. De cara ele, que está no negócio faz muito, viu um pequeno amassado na tampa do porta-malas, o que segundo ele o carro de Tereza não poderia ter causado. Eu lembrei que a frente é baixa, o para-choque é arredondado, portanto nem o pequeno amassado na tampa do porta-malas, nem a pequena deformação na ponta do para-choque do Civic seriam possíveis.

Indo um pouco mais a fundo. Os automóveis atuais têm para-choques de material plástico para diminuir as lesões em pedestres atropelados. A resistência e a plasticidade de qualquer para-choque é estabelecida por normas claríssimas que são seguidas a risca pelos fabricantes. Se procurar vai encontrar tabela com a curva de deformação e plasticidade. Mais, estes para-choques novos são presos à carroceria do automóvel por antes e peças de metal e plástico que são projetadas para quebrar ou deformar de forma a deixar marcas que identifiquem a intensidade do impacto. Ou seja, é possível saber com boa precisão o que aconteceu de fato, uma espécie de caixa preta do automóvel. 

Neste caso em particular, o local onde ocorreu o incidente tem câmeras que provam o que aconteceu de fato, incluindo a velocidade do impacto. Não vai ser necessário. O corretor de seguros colocou o motorista no seu lugar. Provavelmente ele sofreu uma outra colisão na traseira, bem mais forte, não recebeu o que direito, então tentou dar um aplique na desavisada. Clássico.

O que quero dizer aqui é que só aceita a versão de um dos envolvidos numa ocorrência quem quer. Ela pode até estar correta, mas se tiver alguma dúvida, algum detalhe, há caminhos para esclarecer os fatos, e não será difícil descobrir que nem tudo estava esclarecido. Tem muita gente que conta a versão que lhe interessa, o que pode ser bom para os interesses particulares dele, mas é péssimo para a construção da segurança no trânsito, que é o que mais interessa a todos. 

Em qualquer acidente há uma verdade. Conto aqui esta história porque o que mais ouço é versão criada, óbvio que atendendo aos interesses próprios ou do grupo. Sim, falo de ciclistas, como poderia estar falando de motociclistas. O Brasil é uma carnificina exatamente por isto, a versão curta e grossa, e com interesses outros. Repito mais uma vez: aviação é o meio de transporte mais seguro por que trabalha com fatos, não com versões ou culpados. Tem que entender os fatos para chegar à realidade para que ela não se repita.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sua bicicleta: cuidar, usar, e de preferência não abusar

Depois de um ano como responsável técnico nos seus primeiros anos da Specialized no Brasil, me deram como prêmio a escolha de uma mountain bike. Escolhi uma Rock Hopper Sport vermelha com todas as peças pretas, uma das bicicletas mais lindas que já vi. Montei e ajustei a bicicleta e a deixei parada no escritório para ficar babando na sua beleza. Depois de dois dias Beto, um dos irmãos responsáveis pela Specialized aqui, entrou na sala e teve um ataque: "Você ganhou a bicicleta para usar e não para ficar olhando para ela. Ou devolve ou vai pedalar ela já." Fazer o que, saí para pedalar. 

Esta história conta muito, não só de minhas neuroses, mas de muitos ciclistas, e não só ciclistas, que não aproveitam o que tem. Cuidar é uma coisa, cuidados neuróticos é outra, completamente diferente. 

Aliás, não saber aproveitar o que tem é muito mais comum e frequente do que se possa imaginar, coisa de nossos tempos de 'compra tudo'. Estamos um tanto bipolares entre o "eu tenho" e o "é meu"; e pode-se incluir o "eu tenho, eu comprei, você não tem, morra de inveja", para mim o pior de tudo.

O outro lado desta história, do neurótico com os cuidados, vem de uma geração que não tem nenhum vínculo emocional com o objeto em si, só com seu uso. Aí se encaixam todos que nasceram a partir das facilidades quase infinitas para comprar, usar e descartar tudo sem se preocupar com nada. O que tem por ai de ciclista que judia para valer de sua bicicleta é uma tristeza. Pedalam sem a mais remota piedade com as coitadas. Não está funcionando direito, quebrou, troca, simples assim. "Foda-se!" Triste.

Por experiência própria, não faça nem uma nem outra coisa. Aproveite o que tem com respeito, primeiro ao seu dinheiro, depois ao que o que você tem pode oferecer, e por último, em respeito a sua prórpia dignidade. Opa! Este último ponto tenho que explicar.

Na minha época, e a bem da verdade até pouco, se quebrasse era uma dificuldade para consertar. Se quebrasse de vez era uma dificuldade maior ainda para repor, comprar uma nova. Dificuldade pelo custo, para encontrar, e talvez o pior, pelo social que tinha você ter estragado o que estava funcionando. A cobrança na família e amigos era grande: "preserve o que tem".

Preservar o que tem não é simplesmente não usar, não aproveitar, não buscar limites. Se tiver conhecimento do que está fazendo, dá para esticar a corda sem arrebentá-la. Conhecer a técnica e respeitá-la. Quanto mais técnica, mas se estica a corda sem grandes riscos. Claro que de repente a corda estoura, mas com técnica você terá consciência do que deu errado e não repetirá a besteira. 

Triste mesmo são aqueles não estão nem aí para nada. Foda-se geral! Papai paga, o outro paga, alguém paga, e se não pagar acabou a brincadeira, que se foda! Triste, triste mesmo. Antes de mais nada é uma falta de auto-respeito sem tamanho. "Eu faço o que quero" é sinônimo de um desprezo profundo por tudo, incluindo o bem comum, a segurança de todos. 

Aproveitem o que tem. Curtam a bicicleta, o pedalar, o ser livre. Lembrem se sempre: "A liberdade só se constrói e existe com disciplina". É uma destas verdades incontestáveis. Liberdade não tem nada a ver com libertinagem. Libertinagem destrói. Liberdade constrói.

Este texto saiu da leitura deste ótimo texto do Karnal.



domingo, 12 de julho de 2026

Comentário feminino sobre ciclistas: "Homem é chato"

É voz comum entre as mulheres que homens são difíceis companheiros no pedalar. Tenho anos pedalando com todo público, principalmente mulheres, e assino em baixo a reclamação - pertinente - delas. Como Teresa D'Aprile disse na entrevista que ela e mais quatro meninas (senhoras - fala baixo se não me matam) deram para o canal Central do Pedal, homem é mandão, "...acelera, freia, vai!, faz a curva...". Eu próprio cansei de ver e ouvir os caras enchendo o saco de suas mulheres, namoradas ou amigas no pedal. Eu entendo, eu sei. O que Teresa sempre diz, nesta e em todas as entrevistas, está absolutamente certo, os caras são são chatos, um saco! Começando por mim - com a própria Teresa.

Se viram a divertida entrevista para a Central do Pedal das meninas (senhoras) do Saia na Noite, ouviram de Teresa sobre sua participação, aos 50 anos, na prova de Nove de Julho, uma merecida cortesia da organização. Teresa largou no fundão, queria só dar uma volta no circuito, em volta do Campo de Marte, Santana, pedalando atrás do pelotão feminino. Largaram as meninas, vi Teresa sair atrás, mas junto. O pelotão fez a avenida do Anhambi e dobrou para a av Braz Leme, com Teresa atrás, junto com as últimas. E, senta, que lá vem história. Neste acesso para a Braz Leme Teresa pegou uma tacha de sinalização (confessou que coçavao nariz) e foi pro chão. Logo chegou a ambulância. "A senhora está bem". "Estou. Tira mão de mim", se levantou, pegou a bicicleta, saiu atrás do pelotão e alcansou o fundão. Detalhe, todas as meninas de bicicleta de estrada e Teresa com uma Specialized Rock Hopper Comp com pneus 1.5, todo resto original. E uma diferença de idade de uns 20 anos ou mais velha. Só quem pedala para valer sabe o absurdo que Teresa fez. Para mim foi só mais uma das histórias - reais - que dona Teresa D'Aprile fez pedalando. Eu estava esperando ela chegar um pouco mais atrás das meninas do fundão, que para minha surpreza chegaram quase juntas com as do pelotão da frente e as vencedoras, e Teresa na cola, jána frente de algumas. Sorrindo, sangrando, arranhada, olhou para mim e bufando disse "Foi um tesão".

Sim, fui um chato, um saco para Teresa. Santo de casa não faz milagres. Pelo menos ensinei a mudar as marchas com precisão e manter a cadência correta para cada situação, aí ela beira a perfeição, mais, com uma força e capacidade física fora do normal. Pena que começou muito tarde, aos 42 anos. E pena que não se aprofundou. A culpa não é só minha.

De minha parte fico triste porque fui um saco. Ela nega, mas eu reconheço, sei meus erros e minhas irritações improdutivas com ela, a ineficiência das minhas dicas mal faladas, mal dadas, mal ensinadas. Funcionou com muitos, mas santo de casa... Teresa foi uma égua puro sangue que não aceitou derrota - ao seu jeito. Os inúmeros homens que ela fritou pedalando - literalmente - que o digam. 

Solto este texto como um educador, e como educador coloco com todas letras: não é o outro que não aprende e faz certo; é você que não sabe ensinar. Isto vale não só para mulheres, mas todo e qualquer companheiro de pedal iniciante ou não. Mulheres, por diversas razões, costumam sofrer mais. 

Tenha paciência. Saiba olhar, ver, entender, e estabelecer um passo a passo. Aliás, para começar se pergunte: onde é o que faço errado? Todos nós fazemos, todos erramos, e a maioria não reconhece seus próprios erros. Por que o outro não pode errar, ter seus limites?

domingo, 28 de junho de 2026

Flying Pigeon, ou, a velha holandesa da China

Mao Tse impôs a bicicleta na China. Sim, a bicicleta foi imposta aos chineses. Livros de história deixam claro que com o surgimento e a febre mundial do biciclo, aquela bicicleta de roda grande na frente e pequenina atrás, o único país que não aderiu foi a China. Um pouco depois de ter assumido o poder, Mao percebeu que precisava fazer a população se transportar com mais rapidez e com baixo custo, é a bicicleta foi imposta pela revolução cultural comunista. E aí entra a história da bicicleta que pedalou a China, ou o contrário, não faz diferença. 

Até hoje se pode comprar exatamente a mesma bicicleta que transformou a cultura chinesa. É cópia de uma Raleigh, o que confesso eu não sabia. É exatamente uma "old dutch", uma 'velha holandesa', um clássico mundial da bicicleta feminina de transporte.

O que me parece uma loucura é que obrigaram os chineses pedalar bicicletas próprias para o tamanho e altura de um europeu, pelo menos mais de 10 cm mais alto. Mas este absurdo foi comum em todo planeta, incluindo Brasil, e só mudou depois da chegada das mountain bikes.

No final do vídeo o narrador sai para dar uma volta com a Flying Pigeon pela cidade, e fica surpreso com a qualidade do rodar. Mas erra na forma de pedalar. Numa bicicleta destas, sem marcha e todas grandes, a saída do zero, do parado, deve ser feita muito aos poucos, quase não pondo força no pedal. É uma técnica de pedalar diferente da que estamos acostumados com estas bicicletas atuais, cheias de marchas e com rodas bem mais leves. Aprender a pedalar correto uma bicicleta destas é uma aula de preservação de energia. Sei porque já pedalei várias 'velhas holandesas' idênticas a estas e vou dizer com todas letras: é um tesão, puro orgasmo.

Abrindo as configurações do vídeo é possível ter a versão em português.

O detalhe do título está corretíssimo: "Comprei o veículo mais vendido da história". Não tenham a mais remota dúvida que é.


domingo, 14 de junho de 2026

Pedalar como uma lesma. QUE DELICIA!

Hoje saí com minha dobrável, que creio que seja a única sem marchas e contra-pedal que conheço por aqui, a única que vi. E saí pedalando feito uma lesma. Que delícia, cara, que delícia! Fazia muito tempo que não saia pedalando com calma, no ritmo que você vê a cidade, sente as ruas, cruza com calma, sente as pessoas, a vida, não se preocupa com nada, sabe que vai chegar a hora que chegar. Isto é pedalar, este é o real espírito da bicicleta, a calma, a velocidade na escala da vida sadia.

Infelizmente, infelizmente mesmo, vivo numa cidade muito agitada e por osmose acabei virando um agitado, um cidadão comum à loucura do trânsito, neurótico urbano, mesmo pedalando, mesmo que imaginado ou querendo estar pedalando com calma. Óbvio que estar pedalando é infinitamente mais tranquilo que dentro de uma lata de sardinhas, leia-se automóvel, mas não é passe automático para as melhores qualidades que uma bicicleta oferece.

Hoje de fato pedalei com calma. Pedalei no que de melhor a bicicleta me oferece, com calma, me sentindo bem, muito bem. Que delícia!

Nós nos acostumamos com o ruim; pura verdade. 

O que senti hoje é quase indescritível. Indescritível, parece um exagero, mas não é, não é mesmo. Perdemos a noção do que é naturalmente bom.

Homenagem de Renata Falzoni aos grupos de ciclistas


Ontem, sábado, 13 de junho de 2026, a ativista urbana, ciclista e vereadora Renata Falzoni fez uma bela homenagem para os mais de 100 grupos oficializados de ciclistas que saem para passear pelas ruas desta metrópole todas semanas, todos dias e noites, de segunda a segunda. A última lista que vi na Internet contava um pouco mais de 110 grupos oficiais e ativos. Na Câmara dos Vereadores foram homenageados 97 grupos, com mais de 600 pessoas presentes. Bela festa. 

O primeiro grupo oficial e organizado, o Night Bikers, criado pela própria Renata Falzoni, saiu da Praça Charles Miller, Estádio do Pacaembu, numa noite fresca de maio de 1988. Uns 30 foram pedalando para o Centro da cidade, muitos deles simplesmente desconheciam aquele pedaço da cidade. Ficaram maravilhados. O Centro acabou virando um dos passeios preferidos daquele início. Os passeios viraram moda tanto pela descoberta das mountain bikes, que eram uma deliciosa novidade, como pelo fascínio da descoberta da própria cidade, uma completa novidade para a maioria.

Engana-se quem acredita que demorou para que os passeios organizados saíssem do dito Centro Expandido e começassem a ser organizados em bairros ditos distantes. Não demorou muito e Luizinho da Trilha, da Zona Norte, já no início de 1989, tivesse o maior grupo da cidade, com mais de mil ciclistas parando o trânsito noturno impressionando e assustando motoristas e pedestres. Vi eles uma única vez, na Ponte das Bandeiras, e simplesmente não pude acreditar no que via. Não acabava de passar ciclistas, incrível.

No mesmo evento da Câmara foi lançado um folder e um mapa interativo. Também foi apresentado o Projeto de Lei para incluir no calendário oficial da cidade o "Dia Municipal dos Grupos de Pedal".

A bem da verdade Renata fez uma homenagem aos grupos e foi homenageada com uma demorada salva de palmas, assobios e gritos "Renata, Renata, Renata..." Mais que merecido. Renata de fato fez muita diferença, teve e segue tendo uma importância crucial para a bicicleta e os ciclistas, dentre outras.

Teresa D'Aprile, fundadora em 1992 do Saia na Noite, o primeiro grupo oficial de mulheres ciclistas urbanas de São Paulo e Brasil,



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Mais uma vez, de bunda de fora

Selim de bicicleta é selim de bicicleta. Por melhor que seja nunca será uma poltrona fofinha frente a TV. Os selins de hoje são deliciosos em comparação aos de antes de 1988. Mudaram muito com a chegada do MTB. Quem pedalou qualquer bicicleta das décadas de 80 para trás sabem bem, mesmo os com mola. Não faço ideia de como aguentei viajar pedalando sentado no selim de minhas Caloi 10, um plástico duro com uns 3mm de espuma, e o da Cruizer, um muito pouquinho mais confortável (confortável?). Não faço ideia de como conseguia sentar para dar aula depois de ter pedalado de minha casa até a escola com um Barra Forte feminina. 

Hoje tem selim para cada bunda, para cada tipo de bicicleta, para cada percurso,  para cada esporte ou lazer. De vez em quando aparece algumas 'invencionisses' que juram ser a solução para todos males do selim. A última é a reinvensão de um selim que os dois apoios, direito e esquerdo da bunda, se movem e acompanham o movimento do corpo. Bom, não é exatamente uma novidade porque a primeira patente creio que tenha sido feita antes dos 1900 nos Estados Unidos. Se fosse tão 'bão' assim todo mundo estaria usando.

Meu pai me deu, todo orgulhoso, um selim 'bundão', aquele com molas e da largura de uma poltrona. É gosado ir daqui para ali perto pedalando num deles, mas se for um pouco mais longe doi tudo. Enfim, não é o tamanho, a largura ou as molas, mas um que se adapte ao formado da bunda do usuário e que atenda o que ele vai fazer com a bicicleta. 

O oposto do selim bundão são os usados por profissionais de ciclismo de estrada que são finininhos, duros feito pau, sem acolchoado, levíssimos. Custam uma fortuna. Não faço ideia de como eles, os pró, aguentam pedalar horas a fio. A bermuda acolchoada? Até conhecer e acompanhar o ciclismo profissional CDF eram só os bons alunos. 

Bom, eu sou um simples mortal com bunda calejada, mas dentro de meus limites, ou dos limites de minha bunda. Que seja. Meu problema é outro. Pedalo com roupas normais, ou, não pedalo com roupa de franga, bermuda acolchoada e etc... Me atrapalho com a bermuda de ciclista. Eu sei, sei, mas que seja, esta não é a questão.

Ontem tirei a calça jeans e vi a luz cruzando os fundilhos... mais uma vez. Uau! puiu? Não, felizmente só descosturou. Eu ia ficar bem chateado se tivesse puido porque é um jeans preto, lindo, dos bons. Este ano já tive que descartar duas bermudas que puiram no rabo. Antigamente eu seguia pedalando até ficar de bunda de fora, mas criei vergonha, sempre faço uma inspeção para ver como está o tecido, e bem antes de rasgue lavo e dou para os carroceiros, que vão usá-la ainda por muito tempo. Perdi a conta de quantas calças e bermudas já doei. 

Uma vez cheguei na piscina que nadava com frequência e meus amigos passaram a manhã gozando da minha sunga. Só fui entender quando tirei a sunga para voltar para casa. Passei a manhã toda na piscina de bunda de fora e os malditos não me avisaram. Depois rimos muito da história. Simples, sempre ia pedalando vestido com a sunga, que por sua vez já estava bem usada. A Flora, que nadava junto, viu minha bunda ao vento, juntou o pessoal e a gozação não teve fim. Felizmente não fui pego pelo salva-vidas, também meu amigo, que tiraria um sarro sem tamanho e me expulsaria da piscina.

Mas não foi a pior. Indo para um jantar um pouco mais formal, não só a calça rasgou, como quando eu parei no sinal o selim entrou dentro do rasgo e fez o resto do serviço. No jantar me perguntaram porque eu não tirava o casado amarrado na cintura. Tanto encheram que mostrei. A gargalhada foi geral. Óbvio que foi a conversa central do jantar. Na despedida ouvi "Não vai pegar um resfriado na bunda e espirrar pelo ..."

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Cruzamento de pedestres na saída do Ibirapuera

"Vai, ô trouxa!” cara, eu tenho certeza que tem muita gente, inclusive quem deveria ser responsável pelos pedestres, que pensa assim. Se pensam diferente, se "precisamos pensar na segurança do pedestre" (afirmação que me dá arrepios até hoje) de verdade, e eles de fato estão minimamente preocupados com a segurança dos pedestres então ou são cegos ou são ineptos, para dizer o mínimo. Os números não mentem.

O número de situações técnicas, por parte da engenharia de trânsito, que colocam em risco os pedestres - e ciclistas - é muito maior do que deveria ser aceitável. "Nós colocamos faixas de pedestres...", sim, é verdade, mas faixa de pedestre não é sinônimo inequívoco de segurança, como está mais que provado. "O pedestre não cruza a rua na faixa e com o semáforo aberto para ele..", concordo, mas por que não o faz, por que se arrisca?

Segurança, qualquer que seja, é efetiva quando se segue uma serie de regras e princípios. Segurança é um fator humano, e se não se entender como 'humano' não se chega a lugar nenhum. Em outras palavras: se a ideia não for bem vendida ela não funciona, ponto final. E só vende uma ideia que é confiável, o que as autoridades não conseguem ser, ou ter, ou as duas juntas.

No meio de uma longa entrevista publicada no jornal Estadão, um estudioso falando sobre a competição China - Estados Unidos afirma que a grande diferença é que na China, no processo produtivo, todos são ouvidos com respeito e seriedade, pião, engenheiro, diretor presidente, todos tem algo a acrescentar. Aqui, o sabichão que está por cima quer a todo custo fazer o seu subordinado entender o que ele está mandando e "fazer o que tem que ser feito", ponto final. Só pode ser piada de mal gosto.

Pedestres não respeitam o que lhe é indicado porque sua vontade natural, sua razão, sua forma de fazer, de agir, de sua tradição, sua cultura, enfim, tudo o que eles são não interessa para os que "sabem". Começou mal, vai terminar mal.

Segue-se um ótimo exemplo, dos infinitos que temos por aí.

O pedestre que entra e sai do Parque Ibirapuera pelo acesso para a rua Abílio Soares tem que ter paciência, muita paciência, para cruzar a av. Pedro Álvares de Cabral. Exatamente de frente a este portão do parque está o ponto de ônibus - do outro lado da avenida. Hoje, para cruzar a avenida o pedestre tem que caminhar uns 50 metros ou mais, cruzar a avenida em duas etapas, uns 2 minutos ou mais total, e voltar outros 50 metros até o ponto. UAI? Por que será que o pessoal cruza no meio dos carros?

Situação como esta é comum para pedestres e também ciclistas. UAI? Por que o pessoal faz diferente do que as 'otoridades manda'?

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Erro grosseiro na educação para a segurança no trânsito

 

O discurso publicado aqui está correto, não tenham dúvidas. Mas faz décadas que é repetido e os resultados são pifios, a prova disto está no número absurdo de acidentes e fatalidades que temos no Brasil. Então, o que não está funcionando? Simples, óbvio: esqueceram ou nunca se deram conta do público para quem falam. Há uma falha de comunicação, eu direi inaceitável. Se faz aquele decrépito erro de colocar uma sumidade na lousa de uma classe de adolescentes. A aula será brilhante, mas absolutamente inócua para os estudantes. Isto se não resultar em aviãozinhos e bolas de papel voando em meio a risinhos e comentários jocosos. Quem já deu aula, quem já trabalhou com pessoas com alguma deficiência, e incluo aqui os superdotados com sua dificuldade de comunicação, quem já ensinou traumatizados, sabe que a pedagogia é outra, é muito específica. Mingau quente se come pelas bordas. Qual é o ponto crítico? Como abordá-lo? Qual o próximo passo? Quando se deve ir para perenizar o próximo ensinamento? Quando e por que é recomendável dar um passo atrás? Falar em equipamentos de segurança para uma população que sequer tem dinheiro para manter os freios e as luzes funcionando corretamente é dar um tiro no pé. Que tal descobrir qual a principal razão de acidentes e trabalhar só nela? Que tal ganhar confiança deste grande público de motociclistas (e incluo ciclistas)? A melhor regra de comunicação é aquela onde você sabe para quem vai falar em primeiro lugar, para só então falar o que o outro consegue entender. O contrário é um desastre. Nossos P.A.s, Pronto Atendimentos, que o digam.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Giro d'Italia, sul-americanos vencem. Nenhum brasileiro na nesta e noutras provas clássicas


Argentinos, uruguaios, equatorianos, colombianos e venezuelanos, ciclistas de ponta vindos de países com uma população muito menor que a brasileira; todos pedalando na ponta de provas de ponta no mundo ciclistico. No Giro D'Italia, uma das três provas ciclisticas mais difíceis e prestigiadas do mundo, sul-americanos destes países não só participaram, como já venceram inúmeras vezes. Este ano já vencenram um uruguaio e um venezuelano. 

População dos países, dados ~2024: Argentina - 46 milhões; Uruguai - 3.4 milhões; Equador - 19 milhões; Colombia - 53 milhões; Venezuela - algo em torno de 30 milhões. Número aproximado de usuários diários mais esporádicos da bicicleta no Brasil: ~40 milhões. Se todos estes países sul-americanos, que têm uma população em idade de uso da bicicleta bem menor que a de usuários no Brasil, conseguem ter ciclistas de ponta em equipes de ponta na Europa, por que nós não conseguimos? 

Brasileiros nestas provas? Difícil de lembrar. Na história destas três provas tradicionais, Tour, Giro e Vuelta, até onde sei, uma única vitória foi com Mauro Ribeiro, faz muito muito tempo. De lá para cá quantos brasileiros foram convidados por equipes para participar nestas provas?

Por que? Como tive e continuo tendo, agora menos, contato com o pessoal que foi, é, esteve e está no meio do ciclismo profissional, infelizmente tenho a dizer que sobrou boa vontade por parte de alguns para fazer o ciclismo esportivo ficar vivo. Sim, ficar vivo, continuar existindo. Lembrando que de boa vontade o inferno está cheio, mas complementando que boa parte dos que lutam pela bicicleta não merecem o inferno, talvez uma bronca pelo amor incondicional pela bicicleta. Rapidamente: negócio é negócio, amor é amor; se quiser ir a falência misture as coisas. Fato é que o ciclismo no Brasil tem um problema crônico de administração e de falta de pragmatismo. 

Tenho a dizer que a bagunça comecou bem lá atrás,  quando num passado distante a bicicleta e o ciclismo no Brasil tiveram um sutil toque mafioso misturado a um oligopólio pragmático voltado para o "meu", e creio que me entendem. Esta forma de levar um esporte não foi nem é uma exclusividade do ciclismo, mas um mal arrasador comum a boa parte dos esportes olímpicos e profissionais deste país. O país do futebol que o diga, pode apostar nisto.

Outro fator, que já citei várias vezes, é a falta de interesse do cidadão brasileiro pelas conquistas, muitas heroícas, de alguns esportes e esportistas. Mais, caem no esquecimento com uma rapidez brasileira.

Triste.



Meus parabéns aos sul-americanos que continuam a vencer e chegar na frente no Giro. De novo vence o equatoriano, com o uruguaio chegando entre os 5 primeiros. Parabéns! Alegria por um lado e uma tristeza que só aumenta quando penso nos brasileiros que não estão, mas poderiam, melhor, deveriam estar lá.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Roubo de bicicletas no parque, Ibirapuera


Comentários 

Roubo de bicicletas é problema sério em todas grandes cidades do mundo, e não é diferente aqui. O número de roubos de bicicletas na cidade de São Paulo já é uma questão que deveria ter estar sendo tratada com atenção faz um bom tempo, e vem aumentando. Dois pontos, o primeiro é a má vontade das autoridades em registrar roubos de bicicletas, que ao que parece ainda é considerado um crime menor ou algo assim. O segundo é para mim tão ou mais grave, é o não relatar o crime porque demora, há má vontade dos policiais, não dá em nada... Não comunicar um roubo ou assalto pelos devidos meios legais é assinar em baixo que a "violência faz parte".

Roubo de bicicletas é um dos sustentáculos de uma rede de crimes muito mais sérios. Os Países Baixos, ou a popular Holanda, trata o problema como uma das principais políticas de Estado. NYC, L.A., Paris, Londres, e inúmeras capitais do mundo têm políticas específicas contra o roubo de bicicletas, e o fazem porque aprenderam que não é só uma bicicleta, mas envolve outras questões macro econômicas que fazem muita diferença para a administração geral da cidade.

Cadeados ou travas têm graus diferentes de resistência ao roubo, que hoje vai de 1 a 12. A trava da foto do Estadão é nível 4, se não me falha a memória. Lá fora e entre os da área da bicicleta os mais frágeis são conhecidos como "chama ladrão". Creio que seja de conhecimento geral que os parques de São Paulo são os locais preferidos dos ladrões. Nem que me paguem deixo minha bicicleta de poste parada e travada no Ibirapuera. Bicicleta de poste: uma bicicleta feia para estacionar em qualquer lugar, que não interessa a ladrões, a mais comum em Amsterdam, por exemplo.

Na Internet tem vários filmes mostrando o tempo de roubo em NYC de uma bicicleta que usam diferentes tipos de travas. Vale a pena ver. O da foto está por volta de 10 segundos para o ladrão sair pedalando.

Ou nós, brasileiros, passamos a relatar roubos e assaltos, fazer B.O., ou vai ficar muito pior do que está. Em termos práticos, afirmo que nossos dados provam que já vivemos uma guerra civil, e do jeito que vai pode piorar e muito.

Às autoridades, bicicleta parece, mas não é um brinquedo barato que não faz diferença. Espero que entendam isto antes que a brincadeira vire uma enxaqueca infernal na cabeça de vocês. Ela está aí. Não importa se custa meros R$ 500,00 ou R$ 200 mil. O que está por trás é muito sério.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Esse sou eu. Ou quase

 


Se alguém tem a curiosidade de saber quem está escrevendo neste blog, acho que encontrei uma definição minha que se não se encaixa por completo, pelo menos em boa parte.

Meu pai tinha uma habilidade para consertar, resolver e criar soluções que nunca tive, mas dentro de meus limites me esforcei, bastante. Tive mais vitórias que derrotas. O sabor de ver algo funcionando bem é incrível, mais ainda quando volta a funcionar.

Sim, trocar uma peça para ter o problema resolvido rapidinho tem lá suas vantagens, mas batalhar para entender o que acontece enriquece não só o lado consertador, mas a forma de ver e pensar tudo na vida.

Há uma batalha contínua com o pragmatismo. Sim, quando parar, quando entender que não vale a pena, que perdeu. Perdeu? 

Meu caro, uma das frases mais importantes que ouvi veio na entrevista do principal CEO daquele momento, faz anos:

Quem não sabe perder jamais saberá ganhar.

Vale a pena consertar? Sim, com certeza, por diversas razões. Conserte! Entenda. Informe-se. Mas controle-se, seja prático, busque um caminho sensato junto ao seu pragmatismo.

Fica aqui minha inveja e minha homenagem a três amigos: o gênio Nelson JNA, Thiago Maga, e Luiz Scoo, três que se encaixam bem no que o vídeo descreve. Quero citar um mais, lembro perfeitamente a figura, não o nome, um dos mestres da gambiarra... Regis, lembrei. 

Nelson construiu uma vida profissional onde pode 'brincar' com suas ideias. 

Regis, habilidosíssimo, não teve a mesma sorte. Os imbecis que o contrataram foram incapazes de ver seu potencial, ou o colocaram para escanteio por inveja ou medo. A derrota dos imbecis foi flagorosa. Ele seguiu sua vida. História muito comum num país onde os espertalhões fazem grande sucesso.

A todos os conservadores, a todos os heróis da gambiarra, a todos inventores, tiro meu chapéu curvando a cabeça em profundo respeito.

Tivessem os brasileiros entendido e respeitado estes, teríamos um outro Brasil, como temos onde o país deu certo. Obrigado a todos vocês.


quinta-feira, 16 de abril de 2026

Corrigir os erros de pedal

Uma situação que não tem nada a ver com bicicletas e pedalar me fez cair a ficha do porquê algumas pessoas continuam cometendo o mesmo erro enquanto pedalam. O mais comum é o uso incorreto das marchas, mas a lista de erros é extensa.
Partindo do zero, tenho a dizer que mesmo ciclistas experientes, e até mesmo alguns profissionais, fazem suas barbeiragens, cometem erros técnicos na forma levar a bicicleta. Errar definitivamente não é uma especialidade dos iniciantes.

Stress. A resposta é stress, por isto sua explicação cai no vazio. Você sai para pedalar com alguém que quer relaxar e sai fazendo besteira, tenta ajudar e não consegue. Sobrecarrega. Mudança de marcha, por exemplo, no meio do trânsito você diz, faz isto, faz aquilo, não faz isto, e um pouco mais à frente o ou a 'aluna' já esqueceu. Não esqueceu, a cabeça dele ou dela simplesmente teve que prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo, no trânsito (perigoso) e na sua orientação sobre a mudança de marchas (coisa chata!). Com certeza, para ele o trânsito é mais importante que a marcha correta (Uai? Está errada?).  

A maioria de nós, principalmente os homens, tem um problema de tico e teco com algumas coisas. Ou assobia, ou chupa cana, os dois juntos não vão. Mulheres ainda conseguem fazer mais de uma ao mesmo tempo. Mulheres, ainda por cima, conseguem ao mesmo tempo cuidar dos filhos, servir o almoço e pensar na reunião de trabalho, e, incrível, responder uma pergunta tua sobre o jogo de futebol. Parece que estou tirando sarro, mas não, é a ciência que diz que mulheres tem maior facilidade em administrar com a cabeça várias coisas ao mesmo tempo. Então vem a pergunta, por que elas têm mais dificuldade em aprender a mudar as marchas, dentre outras? Minha experiência diz: simples!, medo, ou senso de prioridade, o que é mais importante naquele exato momento que você está falando um monte de coisas? Se não é consciênte, de alguma forma é.

Ensinei inúmeras mulheres a pedalar e aprendi muito com elas. A maioria já tinha tentado e não conseguia. Comigo conseguiram. O segredo? Tirar o foco de tudo, só então dar uma orientação por vez, com o tempo que ela precisar para absorver com calma. "Vai, muda a marcha! Muda! Muda!" não funciona.

Estou falando mais sobre como corrigir os erros das mulheres porque via de regra elas são mais fáceis. Também por experiência de vida digo sem medo que homens... "Eu sei o que estou fazendo!" Eita orgulho masculino. 

Brincadeiras a parte, quer acertar a técnica de teu companheiro ou companheira de pedal? O primeiro passo é ir para um lugar tranquilo, com o mínimo de interferências externas possível. Segundo passo, preocupar-se com a ansiedade e o cansaço do aprendiz. Mudou a expressão, acelerou a respiração, para imediatamente. E não insista, dê um tempo para a ficha dele cair. 

E o mais importante: antes de dar dicas ou tentar corrigir erros, faz uma pesquisa para se certificar se o que você faz está de fato certo. Pedalar uma bicicleta está mais para ciência do que informação que você aprendeu no grupo de pedal. Checa, não custa nada, e os ganhos sempre são grandes. Lembre-se que entre profissionais a cadência de pedal mudou muito nestes anos - ciência pura. A postura na bicicleta também. Os músculos mais importantes, os treinos... Checa, que vale a pena.

Dois vídeos. O primeiro sobre pedalar, melhor, a ciência das diferentes formas de pedalar. Endossa o que falo sobre antes de dar dicas se atualizar. O segundo, pedindo ajuda para meu caríssimo (gente finérrima) Capivara, que dá uma explicação básica sobre como mudar as marchas. No vídeo ele dá uma dica que confesso não tinha pensando antes. Bravo Capivara.  






domingo, 12 de abril de 2026

Cris King, um rei dos rolamentos soberbos

A primeira vez que vi uma foto de peça de bicicleta feita em CNC, ou torneada por uma máquina digital de alta precisão a partir de um bloco maciço de alumínio de liga especial, fiquei maravilhado. A primeira vez que vi pessoalmente e pude até pegar com as mãos uma destas peças foi uma emoção inesquecível. Nascia ali um desejo que nunca se realizou, mas que confesso que continua desejo, ter uma bicicleta montada com estas obras de arte e tecnologia. Precisão, leveza, beleza, uma escultura funcional, perfeitamente funcional. Bricadeira cara, muito cara, fora de minhas possibilidades. Na época que descobri estas maravilhas, 1989, só o câmbio traseiro custava quase tanto quanto uma mountain bike que eu namorava e não pude ter, US$ 400,00. Convertidos para hoje, uma pequena fortuna. Guardei por muitos anos aquela (revista) Mountain Bike Action que veio com uma boa matéria sobre a Interbike Show, em Anahein, Califórnia, talvez a mais importante feira de bicicleta daquele início de MTB. Eu coloco aqui este link - https://mbaction.com/looking-back-30-years-ago-4/ - da edição de 1990, que tem umas fotos das MTB de então. Pelo que me lembro, no meio da revista também tem fotos do que eu falo.

Hoje é fácil encontrar peça de bicicleta em CNC e ficou muito mais barato. Vai lá saber que alumínio estão usando para baratear. Pedalei no fim de semana com um sujeito que a bicicleta dele tinha cubos que, creio, eram cópias chinesas estampadas e retrabalhadas, muito bem feitas, quase peças CNC puras. Para ver, maravilhosas; já para rodar disse ele que são ótimas. 
Hoje em dia falsificasse tudo, o famoso parece, mas não é.



Virou tudo uma maluquice porque entrou no jogo as impressoras 3D, que ao contrário de uma peça CNC, esculpida a partir de um bloco massiço, o 3D imprime peças camada por camada até chegar a forma da peça, que depois pode ou não ter que ir para uma máquina CNC para o acabamento final. Para ter ideia da maluquise que está virando, na Bienal de Arquitetura apresentaram uma casa impressa em uma máquina gigante CNC. Sim, concreto impresso. Voltando às bicicletas, já contei que vi um vídeo sobre impressão 3D em titâneo. Hospício! CNC está cada dia mais trivial, mas ainda baixa escala.
Para se ter ideia da loucura que está virando tudo, já existem máquinas CNC pequenas, caseiras. Como assim? Sim, para instalar no seu quarto. Upa!


A diferença do que a Cris King fabrica é a qualidade e durabilidade, quase infinita. Com um detalhe para mim delicioso: Para alguns processos a Cris King ainda usa máquinas fabricadas nos anos 30 e 40. Para quem conhece, demonstra um cuidado incrível com manutenção, portanto precisão. Mais, qualidade é qualidade, não é propaganda, muito menos falácia. Por isto tiro meu chapéu para a Cris King.

Eu poderia ter tido? Provavelmente sim. Mas dificilmente teria estrutura emocional para segurar um roubo ou assalto. Perder uma obra de arte? Não dá, não aceito. 
Minha opção de vida é pedalar livre, sem preocupação. Ter uma bicicleta fora de série, muito, muito especial, só fora daqui em lugar seguro.  Lembrando que qualquer grande cidade do mundo tem alto índice de roubo de bicicletas.
Finalmente: colocar peças altamente sofisticadas num conjunto de quadro e garfo vagabundo beira um crime, com certeza é de uma burrice sem tamanho. 



quarta-feira, 8 de abril de 2026

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Borboleta sai do casulo

É com muito prazer que apresento a borboleta que acaba de sair do casulo que se prendeu à roda de minha bicicleta. Eu travei a roda e deixei a bicicleta parada por três semanas. E hoje vi o milagre da nova vida acontecer. Fiquei tão emocionado que não tirei os olhos do processo de rompimento do casulo e nascimento da borboleta, ou seja, não fotografei nem filmei. Mas aí estão as fotos do antes e depois. A que nasceu é a que está na folha da palmeira. A outra, que nasceu antes e não vi o processo, infelizmente tem as asas deformadas.






A transformação da lagarta em borboleta ocorre dentro da pupa (ou crisálida), um estágio de repouso onde o corpo se reconstrói. Durante dias ou semanas, a larva utiliza suas reservas para criar asas e novas estruturas. O esforço de romper o casulo é vital para expandir as asas e fortalecer o corpo para o voo

Mãe e filho numa elétrica morrem em ocorrência com onibus


Nos comentários:

'Não é natural que pais percam seus filhos', é uma dolorosa verdade. Acompanhei pais que perderam filhos e sei o grau de devastação emocional que causa. Ao pai, sentimentos, e os votos que encontre um caminho de paz interior. E aos mais próximos, ajudem, não se afastem mesmo quando bater a exaustão.

O tamanho do problema que estas elétricas vem causando é desconhecido porque muitas ocorrências não são relatadas, notificadas, oficializadas. Aliás, como é comum com tudo neste país. Quem está no meio da bicicleta e mobilidades vive tendo notícias sobre incidentes, acidentes e ocorrências causadas pelo mal uso das elétricas. A bem da verdade, boa parte dos ciclistas, os do arroz com feijão, estão para lá de irritados com o que vem ocorrendo, mas, como sempre, ninguém faz absolutamente nada para resolver. Só reclama da boca para fora, e do outro. O próprio umbigo? Não existe. Autoridades? Os de boa vontade e os que tentam resolver têm um inimigo monstruoso: tem lei que cola e tem lei que não cola. Fiscalização? O que?

Sobre mortes violentas: quem aqui, Brasil, realmente se interessa? Quem se interessa corre atrás.

Por que será que o Brasil tem um dos índices mais vergonhosos de fatalidades no trânsito e mortes violentas? A culpa é das autoridades, só deles? É mesmo?

Aqui, fora dos comentários da matéria:

Alguém se interessa pela verdade? Alguém se interessa pelo que realmente aconteceu? Não, respondo eu sem preocupação. Chegamos a esta baderna macabra que vivemos porque o outro sempre é o culpado. Vai continuar igual? Tudo indica que vai. De minha parte ainda tenho uma vã esperança que por um milagre caia a ficha que assim não dá.
Leiam com todas as letras: quem perde um ente querido, e aqui falo da dor brutal que nunca termina da perda de um filho ou filha, sofre a tortura duas vezes, na monstruosa perda e depois com o silêncio inepto de nossa sociedade. Os pais que perderam seus filhos tiveram que descobrir na porrada, e põe porrada aí, o que 'de fato' é a vida neste Brasil. Sei o que escrevo e assino em baixo, porque acompanhei três casos.
Alguém se interessa?

Não foi atropelamento. O termo atropelamento se aplica exclusivamente à pedestres. Bicicleta, elétrica ou não, é veículo. Esta diferença de definição parece besteira, mas definitivamente não é. Ou se coloca as coisas no seu devido lugar, ou lá na frente vai dar problema. O uso errado de termos da lei deforma dados estatísticos, que por sua vez influência no resultado final da busca pela segurança.

terça-feira, 17 de março de 2026

Passeios, guias, um grupo de ciclistas rodando, e a lei


O problema de ser guia de passeios é a paciência que você tem que ter. Você pede para fazer tal coisa, como não pedalar fora de um determinado espaço ou na contra-mão, e para alguns entra por um ouvido e sai correndo pelo outro. Você pede para não usar celular no meio do pedal e na primeira oportunidade alguém está de cabeça baixa completamente distraído. Parece que é um saco, um horror, mas não, não é, é divertido, tem um viez de inconsequência, de vamo que vamo, tudo se ajeita, exatamente como um reflexo da baderna deste país.

Num pelotão de ciclismo esportivo, assim como na ciclovia Capivara, a do rio Pinheiros, em horário de treino onde a maioria dos ciclistas são o topo social, portanto decisórios, a coisa é mais pesada. Alí não há inconsequência divertida, mas uma competição "sabe com quem está falando" muito mais generalizada que o desejado ou o que números apontam. As reclamações vem seguidas e de todas os lados, inclusive entre eles próprios. Do "salve-se quem puder" pula-se para o "quem manda aqui sou eu". Não sei porque, mas lembra algo deste Brasil.

No meio de todos estes tem a maioria que só quer pedalar ou usar a bicicleta. Mas dentro de um corporativismo silencioso e perverso geral,  dá diversão ou do mundo decisório, há um silêncio descabido que não permite apontar os pouquíssimos responsáveis pelo mal estar geral. Não lembra um certo país?     

Eu tenho escrito com frequência criticando situações nossas, deste Brasil, onde a maioria, a que está insanduichada entre os exaltados, cala. Minha última publicação, um comentário sobre um texto realisticamente pesado sobre nosso momento e nosso futuro, não foi aceita pelo Estadão, e confesso não saber se fiz um erro no aplicativo ou o IA do Estadão determinou que eu tinha passado dos limites. Passei dos limites mais vezes que deveria nesta vida e me sinto profundamente envergonhado. Fazendo aqui uma ligação entre o micro e macro, que sempre existe, é inexorável, lembro de situações minhas como guia que se encaixam perfeitamente como exemplos do que não fazer no macro. Vale para o que não é recomendável no pedal, na vida coletiva ou para o Brasil.

Meu ponto negativo foi ter tido um chilique e largado todo o grupo no meio do passeio. A organizadora entrou num estado de ansiedade além da conta e eu estourei, fugi em disparada de todos. Não sei se hoje me sentiria tão culpado. Naqueles tempos a sociedade era muito, mas muito mais flexível do que hoje. Ter um chilique tinha outro peso para a sociedade. Hoje chiliques se transformaram em algo mais que trivial, mais que justificável, até desejável, quando não rentável. Vide as redes sociais. E quando encaixa na fúria coletiva, como é rentável! I wana be a millionare!

Durante uns anos de trabalho convivi com uma especialista de área, mas não da minha área, a bicicleta. Convívio civilizado. Eu, um entrão no mundo dos projetos urbanos, ela dona do seu pedaço. Com o tempo fui ganhando respeito e ela, invasora em minha área de ação, perdendo espaço. E fui chamado para uma conversa onde me pediam para não criar problemas para ela. A bem da verdade, os números da área dela eram assustadores, para não dizer pavorosos, mas ela era tida como a banbanbam do pedaço. Qual? Todos. Fiquei na minha, não criei problemas, aceitei o corporatisvo vindo do pedido a mim feito. Acabei eu, que sabia o que estava falando, sendo colocado para fora do jogo, e ela se transformando na sabichona das bicicletas, que aliás mal sabia pedalar. 
Um dia a encontrei no meio da rua. Conversamos com uma sinceridade que no grupo de trabalho passado não era possível, pelo menos para ela. E sem constrangimentos ela confessou "... eu tinha que pagar a educação de meu filho...". Entende-se, mas a questão é que em nome de seu interesse pessoal o coletivo teve um enorme prejuízo, com a assinatura coletiva. Olhando bem, nada fora da regra: você segura meu salário que eu seguro o seu. Lembra algo?

A pergunta é, você acha legal que alguém sacaneie todo um grupo? Você acha bacana que um ou alguns acabem com um grupo sadio que se diverte? 

Você está feliz com esta baderna no Brasil que vem sendo causada por minorias?

Em times vencedores, do esporte, trabalho ou família, há respeito coletivo? 



quarta-feira, 11 de março de 2026

Numa ciclovia, acidente entre ciclistas, vale o CTB?

Olho para trás, ainda longe vêm a milhão um grandão pedalando forte uma speed com uma menina numa triathlon bem colada na roda. Na minha frente, uns 10 metros, seguem dois ciclistas lado a lado pedalando tranquilos numa velocidade boa, uns 20 km/h ou mais. Na outra mão da ciclovia vem um pelotão medio, uns dez, rápido, com dois em paralelo puxando. Tiro o olho do pelotão que vem, vejo ao meu lado o grandão que estava lá atrás passando por mim a milhão, com a menina cabeça baixa na roda já quase na contramão. Uau! E para ultrapassar os dois que estão na minha frente conversando, o sujeito com a menina colada simplesmente foi para o meio da contramão, de frente para o pelotão que vem. Eu gelei. Não colidiram, mas o ciclista que puxava o pelotão pelo lado de dentro da ciclovia simplesmente não conseguiu acreditar no que tinha acontecido. Eu menos ainda.

Bom, e daí, e se tivesse acontecido a colisão frontal, e numa ciclovia, como seria julgado pela justiça? Um passo atrás, como seria feito o B.O., se é que seria feito? Seria julgado? Duvido chegasse a um julgamento, mesmo que tivesse saído de lá gente bem machucada. E duvido mais ainda que o idiota seria condenado.

Tenho notícias de uma quantidade sensível de ocorrências que simplesmente não dão em nada, a não ser fofoca entre amigos. 

A ciclovia do rio Pinheiros tem um sistema de atendimento e socorro que funciona. Mas e o que mais? Provavelmente eles tem tabulado incidentes, acidentes, e ocorrências, o que concessionárias costumam ter bem feito. Mas e a parte legal? Perante a lei, o CTB, como fica no caso de um acidente? Como fica em qualquer ciclovia?

Ciclistas irresponsáveis, como o que vi e descrevi aqui, deveriam ter um freio na lei, mas não tem têm. 
Ciclistas, os comuns, os cidadãos de boa fé, que dizem se preocupar com sua (própria) segurança, têm que pressionar para que os 'deslizes' dos engraçadinhos tenham um basta. A bem da verdade, não só no pedal.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Garfo rígido de alumínio com selo IMETRO? "É mesmo?"

Na minha 26 eu uso garfo rígido de alumínio, o que tem para vender. Se entrar na internet é possível que encontre mais opções, mas sou macaco velho e quero ver o garfo na mão, e tenho boa razão para isto. Como já tive que trocar alguns garfos e praticamente todos vieram desalinhados... só confio vendo com "estes'z'óios".

Eu entorno garfos? Não. Pode até acontecer, mas não foi o caso.

Tive que trocar garfos de suspensão que estavam com muita folga. Minha opção foi por garfos rígidos, primeiro de aço, que é o que tinha na época, agora de alumínio. Todos vieram de fábrica desalinhados, todos. Aconteceu o mesmo com o que instalei nesta bicicleta que estou pedalando, uma Trek 2008 freio a disco. Desta vez troquei a suspensão por garfo rígido de alumínio "made in Brazil", selo IMETRO. Na realidade três, todos vieram desalinhados, descentralizados, um deles com variação de caster (ângulo longitudinal), outro com apoio de freio a disco soldado desalinhado, mas todos com selo de garantia de qualidade IMETRO. 

Todos foram alinhados por mim, trazendo as duas pernas, ou espigas, para o centro, num processo lento e cuidadoso que só termina quando se larga a mão do guidão e a bicicleta segue sem a tendencia de fugir para um lado. Mais, só está realmente centrado quando você sente a bunda apoiada por igual no selim e no momento que você larga o guidão não há qualquer mudança de posição do guidão, por mais suave que seja. 

O primeiro tive que trocar porque um dia tive que tirar a roda dianteira, apoiei o garfo no chão, provavelmente sem mais cuidados, nada diferente do que teria feito e fiz toda minha vida com garfos de qualidade. Para meu espanto, quando fui colocar a roda a gancheira tinha fechado um pouco e o eixo não entrou. UPa! Upa! Upa!

O segundo consegui quase zerar o alinhamento, mas, neurótico que sou, procurei, procurei, procurei, até que achei um novo que pude medir na bicicletaria e estava muito próximo do zero - centro. 
  
Troca de novo. Este parecia que tinha futuro. Mas com o tempo a bicicleta começou a caranguejar. Uai? Acabei descobrindo que o garfo estava desalinhando sozinho. Caraca! Com selo IMETRO!

Então, vamos lá. Uma maquina pega os tubos e os dá a forma cônica de uma perna, ou espiga, de garfo. No caso destes garfos de alumínio o caster fica por conta do ângulo de soldagem das pernas, ou espigas, no canote de direção. Num garfo de aço se faz uma leve curva na ponta que serão soldadas as gancheiras. 
A soldagem final das pernas ao canote é feita num gabarito, que por lógica está zerado, ou centrado. Solda realizada, o ideal é esperar um pouco para tirar do gabarito assim o alumínio se acomoda. Mesmo assim o recomendado é que o garfo todo soldado e frio passe por um segundo gabarito para possível correção que é feita com martelo de borracha. E só então entregue à venda. 

Os detalhes: o alumínio usado tem que ser o correto para um garfo. O gabarito tem que ser zerado e checado periodicamente. A solta tem que ser realizada sob certos procedimentos e numa determinada órdem para manter o alinhamento e a resistência. Para quem não sabe, a Alfameq original fabricava bicicletas, garfos e peças com o alumínio correto para cada uma das partes, recebendo um tratamento final de envelhecido do alumínio, o que garante rigides e durabilidade. A saber, os garfos de BMX da Alfameq original foram eleitos os melhores do mundo por uma revista especializada dos Estados Unidos.

Voltemos aos que eu comprei agora. Guardo o direito de duvidar que usem o alumínio correto. Garfo zero KM desalinhado? Absurdo! Não, fato, pior comum, muito mais comum que se possa imaginar, inclusive em bicicletas saídas da caixa. Agora, o garfo sair de alinhamento com o uso? É nova para mim. Assustadora!

Eu que sou uma besta e estou estragando os garfos? Sou de uma geração que se a bicicleta quebrasse você ficava sem ela. Comecei o MTB com uma bicicleta que se espirasse ela desmontava, e nunca desmontou. Uma coisa que sou é cuidadoso, muito cuidadoso. Tenho plena consciência que aos 70 anos um tombo vai demorar muito para consertar, a bicicleta e mais ainda eu, isto se consertar. Prefiro continuar pedalando.    

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O ladrão é mais esperto e experiente

Tive um vazamento em casa e chamei o (santo) Antônio, um faz tudo das antigas, aqueles que resolvem de vez, trabalham sem alarde e quando saem deixam tudo em ordem, não dá nem para perceber que passou por aqui. Antônio já veio várias vezes e sabe que quando eu o chamo deixo o portão aberto para ele entrar. Hoje é dia de feira, e como sempre faço quando saio para fazer as compras, deixo o portão destrancado certo que ninguém vai entrar. Pois bem, Antônio chegou de moto, passou por traz de mim sem me ver, estacionou a moto, entrou no corredor, tocou o celular para avisar que estava lá. Ouviu o celular tocar e concluiu que eu estava na feira. Verificou e consertou o vazamento e quando terminou saiu para a feira, que é na porta de casa, me avisar que o problema estava resolvido. Tomei um susto. Não vi nada, nem ele chegando, entrando ou saindo de casa. 

No começo do MTB, lá pelo começo dos anos 90, um de meus amigos foi fazer uma prova no Rio de Janeiro. Na segunda-feira marcou um chope no calçadão de Copacabana com seus amigos cariocas. Passou uma boa trava na bicicleta e num poste que estava a uns 10 metros de onde eles estavam sentados, inclusive uns de frente para a bicicleta. Quando terminaram o chope olharam e a bicicleta não estava mais no poste. Por incrível que possa parecer, o ladrão soltou as placas com nomes de ruas e tirou a bicicleta com trava e tudo por cima do poste. Ninguém viu.

Um dos feirantes contou que tem uma bicicleta boa, mas que não pedala mais porque um amigo pedalando uma bicicleta igual a dele sofreu um assalto, com espancamento, perto da casa dos dois, numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo. O assaltante surgiu do nada. Ouvindo a conversa estava o manobrista do estacionamento, a quem eu ajudo, que tem uma bicicleta muito simples, das imunes a roubo. Sempre repito para ele não trocar a bicicleta porque mais que os assaltos, roubam bicicletas com facilidade. Por isto holandes costuma ter uma tranqueira para o dia a dia.

Sobre assaltos, sempre repito o que aprendi com um investigador que conheci faz muito: "Assaltante e ladrão vão onde tem muita mercadoria disponível. Ele não vai ficar numa rua deserta esperando alguém passar. Ele vai onde tem um monte de ciclista ou bicicletas estacionadas".

Ladrão que é ladrão é invisível. Tua propriedade some, você não sabe como, quando e por que. Some. Para ladrão de verdade, os profissas, o sujeito estar por perto não importa, porque ele sabe quando o cara está em outro planeta. Com a loucura do celular virou brincadeira. 

Há uma regra antiga para dificultar roubos: estacionar a bicicleta em lugar onde o ladrão não consiga identificar o dono ou se alguém está vendo. Num vidro ou espaço aberto de uma loja ou bar, por exemplo, de preferência perto. Ladrão precisa ter alguma certeza que não será visto e identificado. E precisa saber também em quanto tempo ele leva para soltar e desaparecer com a bicicleta. 

A verdade é que a única garantia, se é que é há qualquer garantia, é ter uma bicicleta que não seja interessante para o ladrão, ou assaltante. De resto, tem ladrão e assaltante que é profissa, que dificilmente será pego. No caso dos assaltantes, quanto mais tranquilo for, menor a possibilidade de acabar mal.

Já perdi uma bicicleta na porta de supermercado, mesmo assim vou na boa fé que não vai acontecer novamente. Estupidez pura, tenho que mudar. Aliás, depois do fantasma Antônio...

Outro dia, um panaca todo paramentado e com uma triatlo bem cara, se recusou a encostar a sua nas nossas, que seria seguro, e deixou a dele encostada numa porta de garagem fora do alcance e virada para onde um profissa teria facilidade de sumir. Aliás, sumiria fácil fácil porque a bicicleta estava direcionada para a descida. E o panaca enterrou se no celular. Confesso que tive uma vontade louca de brincar com a burrice dele, mas panaca histérica é que não falta e duvido que encarasse tudo como uma bronca inesquecível.

E aqui entramos num ponto crucial para todos, não só os ciclistas: vivemos um momento no qual todos perdemos a noção de limite, da linha que não se deve ultrapassar. Até na bandidagem havia um "código de honra", ou código de conduta, um limite da asneira que o sujeito podia fazer. Não existe mais. A barbárie corre solta, muito em parte porque a polícia não consegue mais investigar tudo o que ocorre, muito menos chegar nos responsáveis, e menos ainda prende-los.

Nunca mais saio de casa e deixo o portão aberto, mesmo que seja para comprar verduras na barraca que fica na porta de casa. Antônio provou mais uma vez que minha atenção numa coisa transforma o essencial em invisível.  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Troca todo sistema de marchas?

Estou bem espantado com as conversas que tenho ouvido sobre como as bicicletarias estão propondo manutenção para seus clientes. O discurso "a corrente está gasta. Precisa trocar tudo (corrente, toda a relação de marchas, cabos e conduites, quando não os trocadores também)" Esta conversa fiada vem de muito, mas parece que agora emplacou de vez. Pior, o pessoal aceita sem pensar nem piscar.
Mais pasmo ainda com o relato de proprietários de bicicletas sobre a naturalidade com que os proprietários das bicicletas sorrindo gastaram fortunas "para manter a bicicleta em ordem". 
Pior, tenho ouvido relatos de ciclistas que entre amigos ciclistas se gabam de ter gasto fortunas em manutenção "preventiva" e limpeza da bicicleta. Uau! Que chique! Nunca pensei.

Manutenção preventiva? 

É claro que a Shimano, ou outro fabricante qualquer, recomenda a troca completa quando é constatado o desgaste ou defeito de alguma peça ou componente além do que é definido por eles próprios. Sacanagem? Sim e não. Sob os olhos da lei, não, não é sacanagem, mas precaução para evitar processos judiciais. Se aqui no Brasil é difícil dar problema, nos Estados Unidos qualquer coisinha pode resultar numa brincadeira muito muito cara para o fabricante. 

A forma como as bicicletarias estão trabalhando têm a ver, em parte, com medo de processo, e muito em parte com esta nova geração de ciclistas pensarem no pedalar como status social. Um dos proprietários de bicicletaria com quem conversei contou que um ciclista queria porque queria que se trocasse as pastilhas de freio que ainda tinham mais de meia vida, ou, muitos, mas muitos km mesmo de pedal pela frente. Foi duro convencê-lo que não era necessário. "... mas na outra bicicletaria me disseram que precisava..."  

Corrente gasta é o que mais pega. Existem ferramentas para medir corrente, medida de desgate máximo que é definido pelo fabricante da corrente. Concordo, o ideal é trocar quando se passou do limite. Sim, mas trocar a corrente, não todo o sistema como estão empurrando as bicicletarias. Tenho boas razões para acreditar que as peças velhas não acabem no lixo, mas isto é outra história, e afirmo com todas as letras que não há má fé ai. Um bom mecânico vai colocar para rodar por um bom tempo ainda, e aqui estou falando de mim mesmo que tem várias peças de bicicletas recolhidas do lixo, literalmente. 

Um sistema de troca de marchas é composto basicamente por corrente, relação de marchas dianteira e traseira, cabos e conduites, trocadores. A pergunta a ser respondida é "por que não está funcionando bem" - se for o caso. E a resposta virá - se for o caso - da inspeção de cada uma das partes do sistema. O que está acontecendo, e repito, faz muito, é mais ou menos "furou o pneu, Eu recomendo trocar toda a suspensão e freios".

Para finalizar, já li, vi e ouvi de vários especialistas daqui, dos Estados Unidos e Europa, que não é recomendável desmontar e montar a bicicleta para mantê-la em perfeita condição de uso, pela simples razão que aumenta a possibilidade de surgirem problemas que até então eram inexistentes na bicicleta. Ciclistas normais precisam entender que há uma diferença enorme entre as necessídades de um ciclista profissional e um amador, o que se reflete na condição de uso da bicicleta. Lembrei agora de um pequeno detalhe: mesmo em equipes profissionais de ponta, mesmo em condições não ideias, como pegar trechos molhados ou com um pouco de poeira, a bicicleta é limpa, e pronto. Limpeza, a seco, com escovinha e paninho, eventualmente uma lubrificação de corrente, quando realmente necessária. Esta neurose desmedida de "cuidar da bicicleta", "bicicleta perfeita", e outros discursos mais, são ótimos para qualquer coisa, menos para a qualidade do pedalar, para um ciclismo de verdade. 

Eu fui o responsável por receber e cuidar de Stive Tilford e Ted Turner, do Team Specialized MTB que veio para cá em 1992, São Paulo, para participar de provas. Eles tinham a sua disposição uma oficina de ponta, reconhecida aqui e nos EUA, para fazer qualquer manutenção, mesmo que fosse a noite. No sábado eles treinaram debaixo de um temporal horroroso. Levaram suas bicicletas para o hotel, eles próprios limparam, e no dia seguinte foram para competição. O único problema que deu foi o hotel mandar a conta das toalhas utilizada, que ficaram imprestáveis até para pano de chão.