quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Na baderna do mercado o que importa a qualidade?

No meio da restauração da bicicleta decidi trocar toda roda traseira, tanto para reduzir peso quanto para deixar as duas rodas com o mesmo aro e cubo. Menos de um ano depois os raios começaram a pipocar. Confesso que a princípio não me lembrei que tinha montado esta roda com raios novos que agora estouram um atrás do outro. Me lembrei do que Djalma me falou sobre a qualidade do que tem sido entregue pelos distribuidores. Para entender, uma boa roda vai rodar muito, mas muito mesmo, antes de estourar um raio. Mesmo quando eu usava raios brasileiros bem básicos era difícil estourar um raio. 
Raios tem em suas cabeças a marca, o logo, do fabricante. Nestes raios que estão quebrando não há qualquer marca, são completamente lisos. 
Não precisa nem deve trocar a raiação por uma dupla, o que vai aumentar o peso da roda deixando o pedalar mais pesado também. Raios de boa qualidade, DT como bom exemplo, não quebram, simples assim.

Estes raios frágeis são fato isolado? Não.
Peguei um aro para desentortar de marca nacional muito respeitada pelo mercado. O ciclista beliscou a lateral num buraco de calçada escondido por matinho alto. Fiquei impressionado com a moleza do material usado. Fosse um aro importado de qualidade jamais teria voltado para o lugar com um martelo de nylon leve. A moleza do material explica porque este aro perdia o centro com tanta facilidade. Aliás, explica porque tem ilhós. E custa caro!

No meio da procura por um quadro novo para substituir o que foi quebrado pelo bike courrier (já contei a história) um funcionário me entregou um quadro 26 tamanho 21. Quando o dono da bicicletaria soube que eu tinha pego aquele quadro me pediu para devolver porque a qualidade é muito baixa. "Tenho que ter (na bicicletaria para vender) porque tem cliente que quer porque quer" contou ele.

Há um alumínio específico para cada peça, projeto, e uso que se fará. É tema bem complicado, coisa para engenheiro especializado. 
Faz muito tempo um amigo quase arrebentou se quando o guidão de alumínio entortou ao descer um meio fio. Acabamos descobrindo que o fabricante estava usando alumínio específico para suporte de cortina de chuveiro. 
Dando aula, faz mais de 15 anos, a bicicleta montada em uma bicicletaria muito respeitada simplesmente partiu em dois, separando a caixa de direção do resto. Felizmente o aluno estava devagar e não se machucou. São inúmeras as histórias daquela época. 
Hoje o mercado é outro, mas ainda temos muitos problemas com qualidade principalmente do que é fabricado em alumínio. Sei de fabricante que pediu uma especificação de alumínio e recebeu outra por engano do fornecedor. Teve que recolher todo lote de produção, que não foi pouca coisa.   

Não é porque é de alumínio que é leve. Não é porque é grosso que é resistente. Não é porque brilha que vale a pena. 

Enfim; o mercado brasileiro, não só o de bicicletas, está cheio de distorções que permitem problemas sérios de qualidade. E o brasileiro não pesquisa a fundo, não reclama, aceita. E agora, no meio desta baderna que a pandemia nos colocou, ajudada pelo Governo Federal, a baixa qualidade rola solta. Abra o olho.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Consertar, recuperar, reaproveitar... prova de conhecimento e honestidade


Na série "Retomada Verde" o jornal Estadão publicou " 'DIREITO DE CONSERTAR' GANHA ESPAÇO; Iniciativas para alongar a vida útil dos produtos levam cidadão a adotar consumo consciente" de João Prata, em 13 de novembro de 2020. Ótimo. Fala sobre regulamentação, dispositivos legais, sobre o direito do consumidor de ter acesso a informações sobre a vida útil dos produtos e ao reparo, o que no caso das bicicletas simplesmente não existe.
Para entender; a indústria automobilística é obrigada por lei a ter peças de seus produtos por um bom tempo, se não me falha a memória por 10 anos. Dentro deste prazo se o proprietário não encontrar tem possibilidade de acionar a Justiça e o fabricante vai perder. Mesmo depois é possível encontrar no mercado peças de carros fora de produção com certa facilidade. 
Nunca ouvi falar que o setor das bicicletas tenha qualquer regulamento ou dispositivo legal neste sentido. Bicicleta, mesmo sendo extremamente importante para a política de transportes (mobilidades) e urbana é tratada como um produto industrial qualquer. 

Estou com um quadro Trek MTB dos anos 2000, ótimo, mas que tem a furação para o freio a disco numa medida diferente da que hoje é padrão e simplesmente não encontro o adaptador. O que faço, descarto um quadro que é melhor que a imensa maioria dos que estão sendo vendidos hoje? Situações como esta são comuns. A quantidade de lixo gerada por obsolescência precoce é muito grande, o desastre ambiental maior ainda.

As bicicletas atuais são fabricadas levando em consideração a precariedade de conhecimento técnico e qualidade de trabalho da maioria dos mecânicos de bicicleta. É triste dizer isto, mas é verdade, e usar a palavra verdade requer muito cuidado. Felizmente cada dia cresce o número de cursos sérios sobre mecânica de bicicletas, seja para mecânicos profissionais, seja para ciclistas comuns. Mas precisamos de mais, muito mais.

Se os brasileiros querem fazer da bicicleta coisa séria é necessário organizar as bicicletarias, impondo padrão de qualidade de trabalho e padrões ambientais. Esta ideia vem sedo levada a políticos e governos desde 1986 sem resultado. Pessoalmente não tenho porque acreditar nos padrões de qualidade que foram criados faz alguns anos. A estrutura legal, leia-se justiça brasileira, é pouco prática, para dizer o mínimo e ser polido, e o que está na IMETRO já serviu até para sacanear quem trabalha bem. Ou seja, o que existe para controlar qualidade praticamente não funciona. Lixo gerado pelo setor da bicicleta é o que não falta, uma vergonha.
A única forma de acertar a situação é ter bicicletarias que trabalhem com alta qualidade, mesmo dentro do mercado de baixa renda; aliás, principalmente. Consertar, recuperar, reaproveitar é mais que prova de conhecimento, é sinal claro de honestidade. 

Ao lado do ótimo artigo 'DIREITO DE CONSERTAR' GANHA ESPAÇO’ está uma caixa com título "Venda de usados representa grande ajuda para o planeta" e é, como é. Quem conserta, recupera, reaproveita está ajudando e muito nosso futuro. Ninguém duvida que é inaceitável desperdiçar, descartar, jogar no lixo. Vale para bicicletas.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Técnica para remendar um furo.

Será que 45 anos depois de consertar o primeiro furo de pneu ainda tem algo novo para aprender? Tem. A técnica básica é trivial e simples, qualquer um faz, mas vira e mexe tem uma novidade que pega até o mais experiente. Nas localidades mais pobres deste país e do planeta o pessoal é mestre em fazer toda e qualquer câmara voltar a vida, encher o suficiente para o ciclista seguir pedalando por um bom tempo. Em bairro chique o menor furo faz uma boa câmara acabar no lixo, o que é uma vergonha não só ambiental. 
A verdade é que a maioria dos ciclistas não faz ideia de como consertar um furo, o que é muito triste. Rever a técnica de remendo se faz necessária e aqui vai.
  1. Localizar o furo se possível com o pneu ainda montado no aro. Como? enche o pneu e vai passando a mão devagar até encontrar o local do furo; ou molha o pneu para borbulhar. Se encontrou o local do furo marca na banda de rodagem do pneu. Marque o sentido de rodagem.
  2. tirar a câmara com cuidado para não beliscar a câmara com as espátulas
  3. Se descobriu onde está o furo ainda com o pneu montado faça uma marca na câmara, não esquecendo de também marcar o sentido de rodagem. 
  4. limpar bem o entorno do furo com a mão, marcar com uma caneta esferográfica a posição horizontal e vertical onde está o furo. É importante que estas marcações sejam feitas uns dois dedos de onde está o furo porque no entorno do furo será lixado. Não há problema em lixar com a câmara ainda cheia
  5. esvaziar por completo a câmara, escolher o tamanho e forma apropriada do remendo e lixar o local 
  6. aplicar uma camada fina e bem espalhada de cola, deixar secar um pouco. Caso o remendo esteja velho passar uma fina camada de cola nele também e deixar secar um pouco
  7. usar as marcas horizontal e vertical para centralizar bem o remendo, aplicar o remendo e de preferência friccionar o remendo apoiado em superfície lisa com a parte de trás da bomba de ar.
  8. encher a câmara para ver se não há mais furos e montar no pneu 
  9. antes de montar a câmara no pneu colocar um pouco de pressão para evitar que a câmara fique engruvinhada ou amassada dentro do pneu. 
  10. encaixar a câmara no pneu. Eu costumo colocar o bico da câmara na posição onde está escrito na banda de rodagem a calibragem ideal. Encaixar o bico no furo. De novo, cuidado para não beliscar a câmara com as espátulas.
  11. assentar todo um lado do pneu no aro, começando sempre pelo bico, bico perfeitamente apontado para o centro da roda. Certificar-se que todo o pneu está bem assentado e encaixado no aro, encher um pouco, olhar de novo se está tudo em ordem e só aí dar pressão. Enquanto estiver vazio dar pressão aos poucos é sábio.
  12. furos ou cortes muito próximos da base do bico não tem conserto. Pedalar com pneu muito vazio pode facilmente cortar a base como o bico em si. Por que? Simples: o bico entorta no furo do aro e é cortado pelo aro, situação muito comum. Mantenha a pressão correta no pneu. 
São vários tipos de remendos: opções com cola, sem cola, manta ou cortado em diversas formas e tamanhos, estes últimos meus prediletos. O pessoal conhece. Tem nacionais e importados, sendo meu predileto o Zefal, francês, que sumiu do mercado e não deve aparecer por um bom tempo.
Em casas de material de borracha é possível encontrar os 'estrelinha', remendo que já vem cortado em vários tamanhos e formas, e tubo de cola própria para remendo que vêm lacrados. Recomendo que se faça um furo bem pequeno no lacre que a cola vai durar mais. Depois que engrossa não serve mais, não gruda na câmara nem no remendo. Guardar a cola na geladeira estende sua vida útil. Infelizmente tiraram do mercado uns tubos de cola pequenos, práticos para levar na bicicleta.
O ideal mesmo é sempre levar uma câmara reserva e consertar um possível furo em casa. Sabendo fazer vai ser raro perder uma câmara, nem que sirva só para usar numa emergência e para volta para casa. 


Existe uma infinidade de tipos de espátula. Hoje a maioria é fabricada em plástico, que pode ser boa ou péssima, dependendo do plástico usado. Uma espátula plástica fabricada nos Estados Unidos ou Europa normalmente tem alta qualidade e resistência, não quebra nem quando é usado para desmontar um pneu de alta pressão de bicicleta de estrada, que são os mais duros de sair do aro. Ou seja, há plásticos e plásticos; uns aguentam, outros são bonitos e nada mais.
As espátulas de aço da foto são bem e ótimas, principalmente a feita em perfil redondo que tem a espátula em si mais fina, o que facilita encaixa-la por baixo do pneu. Nunca mais encontrei espátulas como estas. Se encontrar compre.
O ideal é que a distância entre as duas espátulas na hora de puxar o pneu do aro não seja maior que três raios. Encaixa a primeira espátula por baixo do pneu, puxa para fora, trava a espátula no raio, conta três raios, encaixa a segunda espátula por baixo do pneu com cuidado e puxa o pneu para fora. Com pneus comuns e de boa qualidade só com este primeiro movimento o pneu sairá do aro, o que não acontece com pneus de baixa qualidade. Pneus de alta qualidade saem do aro sem necessidade do uso de espátulas.
Na falta de espátula use as blocagens das rodas e selim. Evite usar chave de fenda, mas se for a única alternativa tome cuidado para não cortar a câmara.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Até quando vale a pena investir na sua bicicleta?

Dinheiro não nasce em árvore. Dinheiro não aceita desaforo. Nunca esqueça destas duas verdades ou vai fazer de sua vida uma confusão sem tamanho.
Mesmo a maior das paixões deve ter limites; vale para apaixonados por bicicletas e ciclismo. Tudo nesta vida deve ter limites racionais. Dito isto conto meu "causo". 

Em 10 de novembro passado contei o caso (Selim muito alto, quadro quebrado) de uma bicicleta minha que quebrou o tubo de selim por mal uso feito pelo bike courrier que a usou antes. Eu adorava a minha "Neguinha 9 marcha", daí quere-la viva, ou revive-la. Demorei um tempão para encontrar um quadro MTB 26 novo e por muita sorte consegui um Diamond Back Response Pro 20 maravilhoso. E agora depois de já ter rodado e me apaixonado de novo por ela, e só agora fiz os cálculos de quanto saiu a brincadeira. Opa!
Porque não percebi antes? O famoso gasto homeopático; vai indo, vai indo, parece que não pesa no bolso. Ledo engano, somando tudo custa igual ou mais caro.
 
Vamos lá ver os gastos.
  • garfo rígido para substituir suspensão original desintegrada: R$ 180,00
  • corrente nova 9 marchas: R$ 180,00
  • selim R$ 110,00
  • pneus e câmaras: R$ 180,00
  • aro traseiro: R$ 90,00
  • cubo traseiro: R$ 90,00 - segunda mão
  • pastilhas de disco: R$ 90,00
Total R$ 840,00, foi o gasto para consertar os estragos causados pelos maus tratos do bike courrier antes do quadro quebrar. Daria para soldar, mas infelizmente a trinca só ficou visível quando o quadro já tinha estourado. Dava para ouvir um tic tic muito baixinho, procuramos a rachadura, raspamos a tinta, e ninguém conseguiu vê-la.
  • quadro: R$ 420,00
  • canote 31.8: R$ 120,00
  • a montagem fiz em casa ou seriam mais uns R$ 200,00
Tudo junto dá R$ 1.380,00 somando de cabeça.
Tem mais: paguei R$ 550,00 pelo que restava da  bicicleta do bike courrier. Mania de querer restaurar tudo. Preciso aprender a deixar ir para o lixo ou reciclagem o que não vale a pena recuperar.
Total: R$ 1.930,00, se não esqueço outro gasto. Sim... esqueci..., mas esquece, é muita loucura.
Valeu a pena? Tenho minhas dúvidas. Quanto sairia uma nova? Menos com certeza por que tudo estaria zero. A vida útil desta bicicleta surrada no passado será mais curta que a de uma nova, não tenha dúvida. 
Se tivesse comprado uma usada em perfeito estado teria pago menos e também sairia mais barato. 

Já escrevi vários textos onde defendo que loucura tem limite. Bicicleta tem vida útil, não entender esta verdade é cair na irracionalidade. Foi um crime o que fizeram com esta bicicleta, mas não posso consertar o mundo. A vida é o que é.
Toda paixão tem limite e dinheiro não nasce em árvore. Respeite seu bolso.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Como é fabricado um pneu

Nunca tinha visto a fabricação de um pneu de bicicleta e me impressionou o uso intensivo de mão de obra no processo. Sempre imaginei que num dos gigantes do setor de pneus, a Kenda, todo o processo fosse automatizado. Vendo este filme consigo entender por que acontecem alguns defeitos e deformações em pneus de baixa qualidade. 
No filme mostram a fabricação de pneus de mountain bike, mas com certeza o processo é igual para a maioria dos pneus de todas categorias e modalidades. Agora tenho interesse em saber como são fabricados pneus de alta performance. As etapas do processo devem ser bem parecidas, mas com sutilezas e um altíssimo grau de precisão. Nestes é usado fibra de carbono na banda de rodagem e na cinta, o que por si só já implica em sensíveis diferenças no manuseio. 







quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Porque os furos acontecem?

Furou por que? Porque furou?
Ai, meu saco, furou!

Mais uma vez tive sorte. Uma das preocupações que tinha para o Desafio do Rio do Rastro era furar o pneu. A prova foi suspensa por causa da pandemia, encostei a bicicleta e hoje quando passei por ela estava com o pneu dianteiro furado. "Uai?" Desmonto para ver o que aconteceu e dou com o remendo completamente solto, um destes sem cola. Não me lembro por que usei este tipo de remendo, que não gosto, talvez por ser o único disponível, talvez por experiência. Bom, não é meu tipo de remendo.
O que eu faria? Depende, mas hoje com toda experiência que tenho simplesmente tiro uma câmara estepe que sempre levo junto e troco. Só vou remendar se tiver tempo e saco; caso contrário só vou consertar a furada em casa a hora que der vontade.  
E se seu caso for daqueles que não tem paciência nem quer saber o que fazer para trocar uma câmara? Pelo menos leva sempre uma câmara estepe que sempre vai aparecer um santo para ajudar. "Não tenho bomba". Provavelmente por perto tem um posto de gasolina. Encurtando: com câmara reserva volta para casa pedalando; sem volta a pé ou acaba com a diversão dos outros; a escolha é sua.  

Voltando ao meu furo.
Como preparo para a prova, o Desafio, desmontei os pneus para ver como estavam as câmaras e não vi este remendo, que é muito fino e preto como a câmara, quase imperceptível. Por via das dúvidas treinei desmontar, fazer remendo e montar o pneu traseiro. Tempo: aproximadamente 10:00 minutos e com a bomba de mão cheguei a 40 libras, 20 a menos que na bomba de pé. Conseguiria chegar a 60 libras, mas creio que o tempo a mais e o cansaço do esforço provavelmente não compensaria na prova. A pergunta que me fiz é quanto tempo ganho com 20 libras a mais num pneu? O cálculo é complicado por que o ganho seria proporcional à distância que teria que percorrer com pneu mais vazio.
 
Descolamento de um remendo é bem difícil remendar, pelo menos quando acontece com os remendos que usam cola. Se conseguir remendar de novo não coloque muita pressão, a probabilidade do remendo soltar é grande. Neste remendo sem cola creio que vou conseguir lixar e colar um novo remendo sem que descole, de qualquer forma esta será uma câmara reserva que terá escrito "voltar para casa" bem visível ao lado do bico.

Enquanto estou escrevendo Ana mandou mensagem que o pneu traseiro furou novamente. É a quarta vez em 10 dias. Já consertei duas vezes, troquei câmara, o pneu de trás que estava muito gasto, portanto propenso a furo. Pneu novo que fura duas, três vezes seguidas? Fazer o que? Destino? Não, nossas ruas são sujas, e não se culpe a Prefeitura por isto, nós sujamos. Deve ter entrado um fiapo de arame que não consegui ver no pneu novinho em folha. Irritante! mas acontece. Não é comum, mas acontece do fiapo ficar entre a banda de rodagem e malha interna, invisível até uma hora que sai por um lado ou outro.

O que pode causar um furo: vidro, especialmente os de lâmpada tubo; malha de aço de pneu, pequenos fios de aço duro que algumas vezes parecem grampo; pregos, parafusos e outros. Ou câmara que belisca no aro porque o pneu está com pouca pressão. Pouca pressão também pode fazer o pneu rodar no aro e cortar o bico, problema muito mais comum que se possa imaginar.

Faz uma enorme diferença a qualidade do pneu. Quanto pior, mais fura. Um pneu urbano para mercado europeu dificilmente fura. E não é quanto mais caro menos fura por que pneus de competição são caríssimos e são projetados para competição e não para evitar furos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é... 

Quando estiver pedalando lembre-se que quanto mais próximo do meio fio maior é a quantidade de sujeira, portanto maior a probabilidade de furo. Lembre-se também que depois de chuva a sujeira do asfalto escorre toda para a lateral da rua, por isto é mais comum ter furo com asfalto molhado. Outra dica é tomar cuidado com proximidade de bares e locais de noitada por causa de garrafas quebradas. 

Finalmente, pneu bem calibrado fura menos. 

Mais dicas em:

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Porque a bicicleta freia aos trancos? Fabricação e qualidade dos aros

Quem já não sentiu uns tranquinhos ao frear uma bicicleta básica nova com V brakes? Acontece quando a qualidade de fabricação dos aros deixa a desejar. Quem começou a pedalar na década de 70 sabe bem o que é um aro de baixa qualidade; a frenagem era aos trancos. Uma nhaca! Só quem pedalou uma bicicleta daquela época pode entender a felicidade que tivemos quando chegaram as primeiras mountain bike importadas e seus aros de ótima qualidade. Como é bom e seguro frear suave e sem trancos!

Os dois vídeos abaixo mostram primeiro um fabricante muito básico de aros baratos, num processo arcaico que ainda muito comum. O processo todo é muito impreciso por diversas razões, a começar pela qualidade do material bruto que o fabricante recebe. Numa pequena fábrica com lucratividade incerta o controle de qualidade costuma ser baixo. 
Um bom aro tem que ter raio e largura perfeitos, e ser fabricado com material correto e uniforme. Do contrário vai frear aos trancos.
Infelizmente no Brasil ainda se vende muito lixo por que a população aceita. Acabei de trocar uns aros que não davam para pedalar por causa da variação de largura das paredes, um absurdo. Um fabricante que não consegue nem uniformizar o perfil do aro deveria ser fechado pelas autoridades ou desaparecer pela rejeição do mercado. Aqui estamos longe deste nível de civilização, uma das principais razões de nosso abismo social, mas isto é outra história. Voltando...
O problema mais comum está junção dos aros. A razão para um aro ser entregue ao consumidor com rebarbas ou deformidades que causam os tranquinhos ao frear vem de uma máquina de corte que poucas vezes passa por manutenção, quando passa. Parar a máquina de corte para fazer manutenção custa caro, chamar um ferramenteiro (especialista em manutenção destas máquinas) mais ainda, trocar a serra de disco ou afiar a lâmina de corte só no limite dos limites.
A quase totalidade dos aros básicos, populares, não são redondos e uniformes. Para deixá-los centrados é necessário dar muita tensão em alguns raios, o que diminui a resistência da roda, daí descentralizarem e ou quebrarem raios com certa frequência. Vale aqui um aparte: uma das razões do sucesso do freio a disco é que os aros não precisam ser tão perfeitos assim já que a frenagem não é realizada no aro, mas no disco. Acho que deu para entender. 

As boas marcas de bicicleta normalmente vem com aros perfeitamente redondos e com largura exata. O segundo vídeo mostra a fabricação dos aros pela Campagnolo, papa fina da papa fina, mas o processo é mais ou menos o mesmo para quem quer ter qualidade. 
Então, resumindo: 
  1. material bruto na especificação exata de espessura e dureza
  2. ferramental de alta precisão com manutenção constante
  3. corte no ângulo perfeito 
  4. junção das pontas sem deixar folga e com alinhamento de paredes perfeito
  5. solda ou junção por pinos sem provocar deformações ou paredes do aro desalinhadas
  6. precisão na limpeza das rebarbas do corte, da solda ou da junção por pinos. No Brasil muitos aros básicos e até alguns ditos bons não recebem esta limpeza de rebarbas ou vem com paredes desalinhadas, o que é facilmente perceptível passando o dedo sobre a junção. 
  7. aros de qualidade passam por uma fresa que zera qualquer variação na largura do aro: vídeo Campagnolo
  8. aros de qualidade recebem um tratamento térmico para melhorar a sua dureza