Depois de um ano como responsável técnico nos seus primeiros anos da Specialized no Brasil, me deram como prêmio a escolha de uma mountain bike. Escolhi uma Rock Hopper Sport vermelha com todas as peças pretas, uma das bicicletas mais lindas que já vi. Montei e ajustei a bicicleta e a deixei parada no escritório para ficar babando na sua beleza. Depois de dois dias Beto, um dos irmãos responsáveis pela Specialized aqui, entrou na sala e teve um ataque: "Você ganhou a bicicleta para usar e não para ficar olhando para ela. Ou devolve ou vai pedalar ela já." Fazer o que, saí para pedalar.
Esta história conta muito, não só de minhas neuroses, mas de muitos ciclistas, e não só ciclistas, que não aproveitam o que tem. Cuidar é uma coisa, cuidados neuróticos é outra, completamente diferente.
Aliás, não saber aproveitar o que tem é muito mais comum e frequente do que se possa imaginar, coisa de nossos tempos de 'compra tudo'. Estamos um tanto bipolares entre o "eu tenho" e o "é meu"; e pode-se incluir o "eu tenho, eu comprei, você não tem, morra de inveja", para mim o pior de tudo.
O outro lado desta história, do neurótico com os cuidados, vem de uma geração que não tem nenhum vínculo emocional com o objeto em si, só com seu uso. Aí se encaixam todos que nasceram a partir das facilidades quase infinitas para comprar, usar e descartar tudo sem se preocupar com nada. O que tem por ai de ciclista que judia para valer de sua bicicleta é uma tristeza. Pedalam sem a mais remota piedade com as coitadas. Não está funcionando direito, quebrou, troca, simples assim. "Foda-se!" Triste.
Por experiência própria, não faça nem uma nem outra coisa. Aproveite o que tem com respeito, primeiro ao seu dinheiro, depois ao que o que você tem pode oferecer, e por último, em respeito a sua prórpia dignidade. Opa! Este último ponto tenho que explicar.
Na minha época, e a bem da verdade até pouco, se quebrasse era uma dificuldade para consertar. Se quebrasse de vez era uma dificuldade maior ainda para repor, comprar uma nova. Dificuldade pelo custo, para encontrar, e talvez o pior, pelo social que tinha você ter estragado o que estava funcionando. A combrança na família e amigos era grande: "preserve o que tem".
Preservar o que tem não é simplesmente não usar, não aproveitar, não buscar limites. Se tiver conhecimento do que está fazendo, dá para esticar a corda sem arrebentá-la. Conhecer a técnica e respeitá-la. Quanto mais técnica, mas se estica a corda sem grandes riscos. Claro que de repente a corda estoura, mas com técnica você terá consciência do que deu errado e não repetirá a besteira.
Triste mesmo são aqueles não estão nem aí para nada. Foda-se geral! Papai paga, o outro paga, alguém paga, e se não pagar acabou a brincadeira, que se foda! Triste, triste mesmo. Antes de mais nada é uma falta de auto-respeito sem tamanho. "Eu faço o que quero" é sinônimo de um desprezo profundo por tudo, incluindo o bem comum, a segurança de todos.
Aproveitem o que tem. Curtam a bicicleta, o pedalar, o ser livre. Lembrem se sempre: "A liberdade só se constrói e existe com disciplina". É uma destas verdades incontestáveis. Liberdade não tem nada a ver com libertinagem. Libertinagem destrói. Liberdade constrói.
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