segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Bicicletarias trocam a relação sem precisar

A corrente de um amigo engastalhou para valer entre as coroas do pedivela. Recomendei uma bicicletaria tradicional que conheço o dono de longa data, próxima a casa dele. Eu não podia socorrê-lo naquele momento. E lá foi ele, entregou a bicicleta, no dia seguinte me ligou dizendo que iam trocar o pedivela, a corrente, que disseram estar torta, e a relação que já estava gasta. Pensei lá com meus botões, "Uau! (Meu amigo) meteu força para valer (no pedal)". Não é um simples engastalhar que entorta corrente, muito menos coroa. Aliás, só vi relação torta quando a bicicleta é muito mequetrefe, que não é o caso aqui. Vai lá saber. Relação gasta? Pode ser, mas achei estranho que estivesse gasta porque sei mais ou menos a quilometragem rodada. Que seja. 


Ontem ele me deu de presente um saco plástico com o que foi trocado. E casa, sem fazer alarde, sem ele por perto, abri o saco, coloquei a corrente no chão, inspecionei com cuidado e não está torta. Upa! Prendi na morsa, estiquei, peguei o medidor de corrente e ainda dava para rodar uns muito bons km. Inspecionei a relação e não me parece que esteja no ponto de ser trocada, nem vou fazer mais um cheque para saber como está, o estado da corrente diz tudo: daria para rodar muito, algumas tantas correntes novas até ter que ser trocada.

Eu sei que as bicicletarias estão trabalhando assim. Troca tudo. Acho triste, a bem da verdade acho deprimente. A posição da bicicletaria até entendo, é negócio, eles precisam ganhar dinheiro, não sofrer processos, mais "o cliente tem razão", "o cliente sabe quanto pode gastar". Acho triste, mas... Agora a falta de um mínimo conhecimento técnico do ciclista da sua própria bicicleta, a busca por informação boa, as barbeiragens no pedalar... E o pior, o bolso, está todo mundo cheio da grana, não faz diferença, paga. Aí para mim complica. 

Tenho dito, uma bicicleta normal, bem regulada e ajustada, roda uns bons anos antes de ter que trocar toda a relação. Mesmo a maioria das correntes, quando dizem que devem ser trocadas normalmente ainda tem vida para rodar. O conceito de se fazer revisões, muitas revisões, está incrustado como dogma na cabeça de muito ciclista. Para mim é gastar dinheiro a toa e gerar lixo aos montes. 

Antes do passeio reuni o meu pessoal e falei, mais uma vez, para irem com calma, que a loucura de revisão frequente e troca de peça é coisa de ciclista profissional que tem mecânicos profissionais xde primeira e patrocínio, e que mesmo estes não ficam trocando peças sem necessidade. Pedi para dois ciclistas que não estavam no grupo ouvirem a orientação, ou conselho. Depois que terminei minha fala, um deles virou para mim e disse que uma vez por ano mandava a bicicleta para fazer uma geral e que trocava todo sistema de transmissão. Triste. 

Já ouvi de Teresa mil vezes que eu devo parar de dar orientações, dicas e ajudar os outros. Não consigo, não aguento. Eu tenho um sonho: que um dia nos tenhamos bom senso. Ajudei, ajudo e ajudarei, agora com um pouco mais de cuidado comigo mesmo. 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

As MTB do início dos 90, quando tudo mudou

Só quem pedalou as bicicletas que tínhamos antes dos meados da década de 80 sabe o enorme salto de qualidade e a grandeza consequente que a revolução provocada pelas recém chegadas mountain bikes, as importadas, fizeram. Não estou falando do Brasil, mas de um fenômeno mundial, que começou nos Estados Unidos, como todos sabem, e se espalhou pelo mundo. As bicicletas básicas fabricadas na década de 70 e 80, principalmente aqui no Brasil, eram uma bosta, e não há outra palavra para defini-las.

Voltando ao Brasil, a primeira MTB de verdade, Schuwinn, americana, chegou aqui em São Paulo 1984. Por volta de 1987, no Rio de Janeiro, apareceram outras. Em São Paulo, como eu estava no meio do que se dizia mountain bike, mas era só intensão, digo que o número de MTBs, as de verdade, americanas, sonho de todos, começaram a aparecer em número sensível a partir de 1989. O que tínhamos aqui ficava na mais pura vontade de pedalar e falta de noção do perigo que corríamos em cima daquilo. A falta qualidade, de precisão, de resistência das bicicletas brasileiras, tinha nicas a ver com uma montain bike de verdade, mesmo as mais básicas, as vendidas em supermercado americano. Aliás, quando olho para trás e penso na maluquice que fazíamos, no perigo que passamos pedalando as 'lixocletas', como dizia Renata Falzoni, me dá arrepios.

A primeira vez que pedalei uma mountain bike de verdade simplesmente não acreditei. Funcionava, que maravilha, funcionava! Funcionava tudo. Freava, mudava as marchas com precisão, não furava o pneu toda hora e se furasse era facílimo trocar a câmera. Rodava suave, tinha marchas que faziam as subidas fáceis. Tinha aderência, fazia curvas incríveis. Não quebrava, cara, não quebrava, nem mesmo depois de um violento capote. Batia a poeira e voltava a pedalar como se nada tivesse acontecido. OK, para quem não viveu aqueles momentos essas minhas afirmações parecem coisa de maluco, mas não é. Nas nacionais, era obrigatório rezar nas descidas um pouco mais irregulares para o garfo não partir em dois. Exagero? Não,  mas não mesmo!

O surgimento do Mountain Bike beira um santo milagre, e também não é exagero. Repito, quem pedalou as bicicletas existentes até então sabe o que digo não tem qualquer exagero.

Das bicicletas que estão neste YouTube eu pedalei naqueles anos, 1988, 1989, 1990, 1991 e 1992 com as Specialized Stumpjumper e a incrível M2, as GT, Trek, Klein, e algumas outras não citadas. Lembro a emoção quando estive lado a lado com uma Yeti. Por incrível que pareça a primeira full suspention que vi foi projeto e execução do Nelson Motta, o 'N' da JNA, nacional.

O mercado mundial de bicicletas passou por sua pior fase na década de 70. Aqui pior ainda porque tivemos um oligopólio com Monark e Caloi dominando 95% do mercado. Eles faziam o que bem entendiam. Qualidade? Vários setores do Brasil daquele tempo tinham problemas de qualidade, mas posso afirmar sem erro, que o setor da bicicleta era pior. Uma bicicleta americana ou europeia dos anos 70 e inicio dos 80 tinha lá seus problemas, mas funcionava direito, era segura, rspeitavam controle de qualidade que aqui... Ora, aqui...

'A' bicicleta mais vendida, 'a' preferida do povão naquela época, era a Monark Barra Circular, um fenômeno industrial e social. O povão dizia que aguentava qualquer coisa, que não quebrava... Olhavam para as MTB com desconfiança e demoraram a entender a brutal diferença. E um dia caiu a ficha. E todo o oligopólio Monark Caloi acabou rapidinho, sumiu, faliu, foi-se, Graças a Deus!

Num encontro de Luiz Dränger com Micke Sinyard, criador e dono da Specialized, Micke foi muito claro para Luiz: "Nunca se desfaça destas bicicletas (mountain bikes do fim da década de 80 e início dos 90). Nunca mais se vai fabricar (com qualidade) igual". Pedale com uma que esteja inteira e entenderá rapidinho. Mesmo hoje, são incríveis. Mais, duram, duram, duram, duram...


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ouvir a saúda da bicicleta com estetoscópio

Bicicletas com quadro de alumínio costumam enganar até bons mecânicos. Tem um barulhinho chato, parece que é num ponto e é noutro. Já apanhei muito e já vi mecânico dos bons também apanhar até descobrir onde está o problema.

Eu já estou bem rodado, entrei numa fase da vida que quero simplesmente pedalar, não quero ficar ajustando, fazendo mecânica, sujando as mãos. Mas tudo tem limites, e o barulho misterioso me tirou do sério. É no canote de selim... Não é. É no selim... Não é. É no movimento central... Em cada ponto um ajuste e uma saída para pedalar. Sem dúvida, o barulho vem do tubo de selim. Não é... Coisa de quadro de alumínio. Que inferno! E aí me lembrei de minha época de pseudo mecânico de automóveis, quando eu xeretava para identificar o que estava acontecendo para ou consertar ou ir para a oficina.

E aí fiz o que deveria ter feito de cara: usar uma chave de fenda longa como estetoscópio para identificar de onde vinha o maldito problema. Bingo! Catraca, ou talvez eixo traseiro, com certeza. Amanhã pego de novo a investigação e descubro definitivamente. Retiro a catraca e com ela separada do eixo vou saber exatamente o que está ruim.

Se ouvir ou sentir alguma coisa anormal pedalando na sua bicicleta, pegue uma chave de fenda, fina e longa se possível, ou uma haste de ferro, use da mesma forma que um médico usando um estetoscópio, cabo encostado na orelha, a ponta encostada no quadro ou peças. Gire as rodas, o movimento central, pedais, etc..., até achar o ponto exato de emissão do barulho. Fácil e rápido, e preciso.

Com um estetoscópio é possível até identificar futuros problemas muito antes que você possa ouvi-los ou senti-los pedalando. Eu deveria ter começado por aí. Besteira de quem perdeu a prática, não está no dia a dia da oficina.

Estetoscópio é um santo instrumento para a tua saúde e de tua bicicleta. Faça como qualquer bom médico, comece por ele. Facilita muito. Mostra o caminho a seguir.


E a minha história aqui merece um final. Sim, a chave de fenda mostrou que minha catraca estava em petição de miséria, mas também não era ela. Sai para pedalar e o barulho continuava. Parei desolado no sol (fazia frio) e fiquei procurando o que poderia ser, inclusive uma rachadura no quadro. Nada. E toquei num raio, que não estava solto, mas menos tensionado do que deveria. O estranho é que raio solto ou com tensão baixa costuma fazer barulho a cada volta da roda, pedalando ou não, o que não era o caso. O barulho só aparecia pedalando. Bom, enfim, voltei para casa e aumentei bem a tensão nos raios... e o barulho parou. 
Mantenho tudo que escrevi acima. Quadro de alumínio faz com que defeitos ali soem aqui. Ouvir a bicicleta limpou alguns problemas que apareceriam com o tempo. Agora, mesmo com mais de 40 anos de mão na graxa nunca tive um problema tão estranho como este. A inadequada tensão dos raios causou durante meses um barulho fora do padrão de baixa tensão de raios. Nunca antes tinha apanhado tanto. Agora a bicicleta está uma delícia, só ouço o leve barulho do pneu rodando no asfalto.   

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vou comprar. É legal! (Besteirada)

Começar por onde? Rindo, eu penso em começar pelos Porsche, símbolo de status, que tristemente acabam estraçalhados pelos seus ricos proprietários. Ou serão os "próprio otários", como dizia a velha gozação? 

Vamos aos próprios otários, que pensando bem somos quase todos. Não? Você não é? Vai me dizer que não arregala os olhos e baba quando vê aquele objeto de desejo a frente? Confesso, eu babo. Foi uma tortura não comprar a última MTB vermelha, entre um alaranjado e um pink, meu tamanho, que estava em liquidação. Confesso que fui umas três vezes até lá me contorcendo de raiva por deixar aquela oportunidade passar. A verdade? Eu não preciso de mais uma bicicleta. 

Uma das meninas que pedala comigo tinha uma bicicleta alemã, uma MTB urbana, que era ótima. Segundo ela, pesada, subia mal. O pessoal que pedalava junto tinha marca de marca, traduzindo, as famosas e chiques. Óbvio que a bicicleta alemã foi trocada por uma marca famosa e a dona chegou toda feliz dizendo que era muito melhor porque pesava 10kg. UAU! 10kg? Me deram um puxão e mandaram eu ficar quieto e parar de rir. "Luiz Vitão?" e tomei uma canelada para calar a boca de vez.

Acho que vou procurar um YouTube onde um especialista compra bolsas de marcas famosas e retalha toda ela para mostrar quanto custam de verdade para produzir, o preço de fábrica. A saber, numa loja destas exclusivas, o que quer que isto signifique, foi vendida uma destas bolsas por R$ 230.000,00, sim, duzentos e trinta mil reais por uma bolsa feminina. E aqui eu paro por uns minutos para ir até a Ciclovia Capivara olhar as bicicleta chique que custa, custa, custa, custa.... Felizmente não vou ter ninguém para me dar beliscões ou caneladas, principalmente quando estiver vendo a técnica de pedalar de seu proprietário. A bem da verdade aí tenho vontade de chorar. É tão parecido com o deprimente fim que os Porsche estão tendo, com mulher que se acha mais mulher por estar usando a bolsa mais cara do Brasil..., e até a desavisada que realmente acredita que sua bicicleta pesa 10kg. 

"Eu acredito em milagres, eu acredito em milagres..." Vai firme. A indústria do consumo agradece. 

Nada contra os Porsche, Ferrari, Lamborghini ou o que seja, mas por favor, aprende a dirigir para não destruir o carro. Não estou falando sobre pilotar, estou falando sobre dirigir. Não faça ridículo.

O mesmo para qualquer bicicleta. Leia, pesquise, aprenda as técnicas de pedal, aprenda o que é uma bicicleta, qual a correta para quem você é. Deixe seu bolso e sua insegurança em segundo, terceiro ou quarto plano. Pedalei correto. Técnica. 

A marca alemã é tão respeitada quanto a marca americana da MTB, só é desconhecida por aqui. As duas pesam praticamente a mesma coisa, em torno de 15kg, a faixa de preço das duas confirma. Algumas questões técnicas ou de ajustes podem justificar uma ou outra ser um pouco mais leve ao pedalar. O que faz uma enorme diferença é o emocional: "Nossa! Esta bicicleta (de marca famosa) é muito muito leve..."

Este vídeo mostra quanto custa na fábrica, quanto o produto realmente vale, e quanto a percepção do ciclista acha que vale. Quanto mais anos eu tenho pedalando, mais eu tenho certeza que a diferença é muito grande. Nada como ser um 'próprio otário'. Aí somos todos, uns mais, outros menos, eu incluído. É o tempo que vivemos.