sábado, 17 de outubro de 2026

Patinetes elétricos; mobilidade a que custo?

Contei esta história faz muito e a repito agora.

Em 2012 fiz um curso de um mês e quinze dias em Paris. Fiquei hospedado num bairro de classe média fora da área turística, perto de uma escola onde uma parte siginificativa dos alunos ia com patinetes. De manhã cedo era patinete para tudo quanto lado, e não só com os alunos da escola, mas pais, trabalhadores, e até mesmo avós patinetando por todos lados. 
Não demorou muito entrei numa Decathlon para comprar o meu. Peguei um com rodas um pouco maiores que as normais, lindo, muito bem construído, e dentro da loja fiz um teste. Apavorante! Parei, me acalmei, pensei comigo mesmo "se tantos usam, não pode ser tão perigoso como estou sentindo". E saí novamente para rodar dentro da loja e de novo fiquei assustado com o grau de insegurança desta coisa. Lembrando a todos, naquele momento eu estava completando 30 anos de estudos e trabalhos relativos a segurança no trânsito para ciclistas. Mesmo com toda a informação que tinha na cabeça não consegui me desvensilhar do pânico que senti naquele patinete. Detalhe: ainda não existiam os motorizados, era na sola do sapato mesmo. Os números da Organização Mundial da Saúde provam que é perigoso.

Não vi um acidente sequer em Paris, mas li que as autoridades já estavam pensando em como reduzir os problemas causados por patinetes - não motorizados. Mas, a eficiência do patinete como modal de transporte é inegável. Era mágico ver crianças pequeninas, 5, 6, 7 anos, indo para escola em patinete acompanhadas por seus pais também em patinetes. Delícia ver velhinas indo às compras em patinetes. O problema? Adolescentes a milhão nas calçadas, ai o problema não era exatamente o patinete, mas a adolecência. Paris naqueles anos de patinetes não motorizados era muito segura para pedalar, fora adolecentes em patinetes ou em scooters, na calçada ou nas ruas. Já fui adolescente, acompanhei a adolescência de muitos, e não tenho dúvida, adolescente é adolescente. 

E vieram os patinetes motorizados... E o problema a ser estudado e resolvido de Paris e do mundo virou urgência. Acidente atrás de acidente, muitos graves, custos previdenciários assustando as autoridades e a população. E agora um basta geral. Virou uma baderna perigosa.  
O tamanho do problema? Simples, em Paris foi realizado um plebiscito e 90% dos votantes pediram o banimento dos patinetes. E não é só lá que a população está se levantando contra os patinetes... motorizados, mesmo que estes estejam ajudando e muito na redução dos crônicos problemas de mobilidade que estamos tendo. 

"Todo veículo mal conduzido é um perigo" - Luiz Dränger. "Transito é o melhor espelho de uma sociedade" - Roberto DaMatta. "Não é fazer muito, é introduzir qualidade" - eu. 

Primeiro se deixou o automóvel leve, livre e solto. Consequência: a coisa foi dando problema, dando problema, dando problema, até o ponto que não se aguentava mais, daí saiu todo mundo deseperado para encontrar uma solução. E vieram as soluções mágicas que resolveriam tudo. Não resolveram. Não só não resolveram, como criaram novos problemas. Problemas melhores? Não! Problemas

Em tudo o que estamos passando há um fator que é predominante: o ser humano. A diferença entre uma solução mágica e uma solução efetiva está em não acreditar que se a ideia é boa ela irá por si só se realizar, dar certo. Lâmpada de Aladin? Existe? Mesmo que houvesse uma lâmpada mágica que realizasse desejos, a possibilidade de dar errado é enorme porque os pedidos que seriam feitos por humanos com todas suas ilusões, melhor, alucinações.
Não será mais lógico criar as saídas necessárias e urgentes pensando em primeiro lugar no público usuário? Quanto do que fizemos de boas coisas, com boas intensões, deram com os burros n'água porque não se partiu do princípio que quem vai usar ou fazer funcionar são pessoas? Sem entender o por que o zoológico virou uma loucura não se vai chegar a lugar nenhum. 

Mas, fato: patinetes são perigosos. Os dados não mentem. Fato: o povão está fazendo e andando para tudo, eles só querem resolver seus problemas imediatos. Fato, deprimente: "Comigo não vai acontecer".

Como equacionar tudo isto? Certeza, com a lâmpada de Aladin não será. Mas como tem gente que acredita nisto.

sábado, 10 de outubro de 2026

Dicas para um ciclista novato: ouvir de quem merece falar

O garoto tentava acompanhar o ritmo de seu amigo na ciclovia, ele com uma gravel, o outro com uma speed, mas foi morrendo, morrendo, até perde-lo de vista. Pegava o que restava de suas forças, acelerava, morria um pouco adiante, retomava as forças, acelerava de novo, menos, morria mais adiante, e a cada tentativa diminuía sua velocidade e média. Do amigo já não se via mais. 

- Um ciclista velho pode te dar umas dicas? E ouvi um "pode" vindo do fundo d0o que restava de seus pulmões. Sim, estamos num tempo que tentar ajudar ou mesmo dar dicas, muitas vezes é tomado como uma ofensa a magnífica sabedoria individual formada nas redes sociais, em vídeos rápidos, na orientação de amigos ou conhecidos que tudo sabem, e não raro dentro de bicicletarias 'in'. Mas, para meu espanto, o rapaz não só aceitou, como ouviu.

- Não acelera e desacelera. É um crime contra tua energia. Eu sei que você está muito cansado, mas estabelece um ritmo que você ainda aguenta e se mantém nele. Você vai gastar muito menos energia. 

Meio desajeitado, ainda variando a cadência e o ritmo, ele foi indo, mais lento, mas bem mais constante. Pelas costas pude ver que sua respiração se acalmou.

- Se tiver que acelerar para chegar nele (o amigo) vai acelerando aos poucos. Não faz o que estava fazendo, de dar um pique, chegar junto e morrer. Não perde energia na aceleração.

Quando se está morto para valer é crucial encontrar a cadência e o ritmo possível e tentar ficar neles. O tentar pode ser doloroso, mas estabelecerá a sua verdade daquele momento, e com isto um ritmo constante. Sei, não é fácil, mas aí entra um segredo, desviar o pensamento, não importa pra onde ou o que. Se ficar pensando no cansaço a coisa piora e muito.

Tem uma técnica interessante, usar o peso das pernas para continuar girando os pedais. Aumenta o giro até o ponto que começa a sentir que o pedal está descendo por conta do peso da perna. É uma técnica de ciclista profissional que ciclista comum pode e deve aprender. O gasto de energia é muito menor, principalmente no plano. A vantagem para os amadores é que isto também descansa as pernas e aumenta o folego. Acelara aos poucos a cadência que uma hora você vai sentir o que estou recomendando.

Quando ele conseguiu estabilizar o pedal, e com isto contornar um pouco sua exaustão, eu acelerei e fui embora. Bem mais a frente encontrei o amigo parado, esperando. Ele me contou que o exausto é novato de tudo, que estava experimentando uma bicicleta que não era dele. Não demorou muito o rapaz apareceu e agradeceu as dicas. Esperei ele acalmar a respiração e dei a última dica:  

- Nunca conheci um ciclista de ponta, dos campeões de verdade, com títulos, que fosse mal humorado ou não estivesse disposto a ajudar com alguma dica. Eu aprendi muito com os campeões, digo campeões, os de verdade. É inacreditável a arrogância de boa parte destes novos ciclistas e suas bicicletas caríssimas. Eles acham que sabem. Tem muito ciclista com bicicleta e equipamentos caríssimos pedalando por ai que cometem erros básicos, e se falar ficam furiosos. 


Quem fui eu quando comecei e mesmo quando já tinha uma boa quilometragem nas pernas? Um ciclista parecido com tantos que estão por aí fazendo mil besteiras. A diferença é que nunca tive dindim. O que me salvou foi ter tido contato direto com automobilismo de competição profissional, de onde emprestei muitas técnicas para o pedal. Mas, como é comum acontecer ainda hoje, o "eu sei o que estou fazendo" de nós, brasileiros, insiste em vir em primeiro lugar.

Quer ser um ciclista para valer? Quer tirar o melhor de si? Então põe na cabeça uma coisa: "eu não sei nada". E quando você achar que sabe alguma coisa, põe na cabeça que não sabe nada. E se um dia você começar a apresentar resultados, põe na cabeça "e daí? o que mais?", ou "eu não sei nada".

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Mais uma romaria, mais um drama para partir

Meteorologia diz que vai cair o mundo. Eu estou destreinado. Minha cabeça não está boa. Um milhão de problemas. A bicicleta que escolhi não sobe direito, apesar de ter uma ótima redução... Geometria do quadro. Abro a gaveta e estou só com duas cuecas... Tomo um brodo antes de dormir que não desceu direito...

Acordo bem cedo. Não tenho vontade de tomar café da manhã, mas vamos lá. Checo pela última vez a mochila, tudo ok. Saio de casa às 5h20. Um pouco mais tarde do que queria. Vou pedalando pensando que a outra bicicleta, a que não sobe bem, talvez fosse melhor. Mas esta tem paralamas. Penso até em dar meia volta e trocar de bicicleta. Sigo em frente. 

Um chato de galochas me para na esquina da Paulista para falar sobre uma passagem de Cristo. Não é possível! Isto aqui (a viagem) não vai dar certo. Escapo dele e desço para o Centro a mil. Paro em frente ao Teatro Municipal sem saber para onde ir. Não importa, vou. Até a Ponte das Bandeiras fico pesando razões se devo pegar um ônibus ou seguir no pedal. Quanto mais vou mais as baboseiras da cabeça vão sumindo. 

Entro na Dutra. Consigo cruzar sem drama o acesso para a Fernão Dias, uma das minhas preocupações naquela noite antes de partir, razão para a busca de caminhos alternativos e preocupações. Consigo superar o trecho antes do acesso para o Aeroporto de Guarulhos sem dramas. Sigo devagar, mas firme e sempre. A cada metro percorrido, mesmo no meio daquele trânsito todo matinal, me sinto mais livre. E olha que só fui perceber que praticamente não tinha tirado os olhos da massa de romeiros que insistem em invadir a pista depois de quase 30 km, ou atropelo um. Nunca vi tanto romeiro junto. 

Vou muitíssimo melhor do que esperava. Para que fazer tanto drama como fiz?

Estou vendo algumas entrevistas do Amyr Klink. Ele é uma aula, alguém que realmentevale a pena seguir. Daqui de uns dias vai entrar em cartaz nos cinemas o filme sobre sua travessia no Atlântico sul saindo da África e chegando no Brasil, "100 dias entre céu e mar", o primeiroa conseguir o feito. Pequeno detalhe, a remo. Que inveja! Se eu tivesse tentado provavelmente teria morrido. Todas suas viagens foram resultado de muito estudo, de aprofundar se na ciência, no conhecer, do preparo. Zero porra louquice. 

Eu? Me voy a la loca. Só uma coisa eu e Amyr temos em comum, um emoção semelhante na hora de sair. E os dois dizem mais ou menos o mesmo: Vai!