sobre bicicletas, perguntas, respostas da Escola de Bicicleta; e algo mais.
sábado, 17 de outubro de 2026
Patinetes elétricos; mobilidade a que custo?
sábado, 10 de outubro de 2026
Dicas para um ciclista novato: ouvir de quem merece falar
O garoto tentava acompanhar o ritmo de seu amigo na ciclovia, ele com uma gravel, o outro com uma speed, mas foi morrendo, morrendo, até perde-lo de vista. Pegava o que restava de suas forças, acelerava, morria um pouco adiante, retomava as forças, acelerava de novo, menos, morria mais adiante, e a cada tentativa diminuía sua velocidade e média. Do amigo já não se via mais.
- Um ciclista velho pode te dar umas dicas? E ouvi um "pode" vindo do fundo d0o que restava de seus pulmões. Sim, estamos num tempo que tentar ajudar ou mesmo dar dicas, muitas vezes é tomado como uma ofensa a magnífica sabedoria individual formada nas redes sociais, em vídeos rápidos, na orientação de amigos ou conhecidos que tudo sabem, e não raro dentro de bicicletarias 'in'. Mas, para meu espanto, o rapaz não só aceitou, como ouviu.
- Não acelera e desacelera. É um crime contra tua energia. Eu sei que você está muito cansado, mas estabelece um ritmo que você ainda aguenta e se mantém nele. Você vai gastar muito menos energia.
Meio desajeitado, ainda variando a cadência e o ritmo, ele foi indo, mais lento, mas bem mais constante. Pelas costas pude ver que sua respiração se acalmou.
- Se tiver que acelerar para chegar nele (o amigo) vai acelerando aos poucos. Não faz o que estava fazendo, de dar um pique, chegar junto e morrer. Não perde energia na aceleração.
Quando se está morto para valer é crucial encontrar a cadência e o ritmo possível e tentar ficar neles. O tentar pode ser doloroso, mas estabelecerá a sua verdade daquele momento, e com isto um ritmo constante. Sei, não é fácil, mas aí entra um segredo, desviar o pensamento, não importa pra onde ou o que. Se ficar pensando no cansaço a coisa piora e muito.
Tem uma técnica interessante, usar o peso das pernas para continuar girando os pedais. Aumenta o giro até o ponto que começa a sentir que o pedal está descendo por conta do peso da perna. É uma técnica de ciclista profissional que ciclista comum pode e deve aprender. O gasto de energia é muito menor, principalmente no plano. A vantagem para os amadores é que isto também descansa as pernas e aumenta o folego. Acelara aos poucos a cadência que uma hora você vai sentir o que estou recomendando.
Quando ele conseguiu estabilizar o pedal, e com isto contornar um pouco sua exaustão, eu acelerei e fui embora. Bem mais a frente encontrei o amigo parado, esperando. Ele me contou que o exausto é novato de tudo, que estava experimentando uma bicicleta que não era dele. Não demorou muito o rapaz apareceu e agradeceu as dicas. Esperei ele acalmar a respiração e dei a última dica:
- Nunca conheci um ciclista de ponta, dos campeões de verdade, com títulos, que fosse mal humorado ou não estivesse disposto a ajudar com alguma dica. Eu aprendi muito com os campeões, digo campeões, os de verdade. É inacreditável a arrogância de boa parte destes novos ciclistas e suas bicicletas caríssimas. Eles acham que sabem. Tem muito ciclista com bicicleta e equipamentos caríssimos pedalando por ai que cometem erros básicos, e se falar ficam furiosos.
Quem fui eu quando comecei e mesmo quando já tinha uma boa quilometragem nas pernas? Um ciclista parecido com tantos que estão por aí fazendo mil besteiras. A diferença é que nunca tive dindim. O que me salvou foi ter tido contato direto com automobilismo de competição profissional, de onde emprestei muitas técnicas para o pedal. Mas, como é comum acontecer ainda hoje, o "eu sei o que estou fazendo" de nós, brasileiros, insiste em vir em primeiro lugar.
Quer ser um ciclista para valer? Quer tirar o melhor de si? Então põe na cabeça uma coisa: "eu não sei nada". E quando você achar que sabe alguma coisa, põe na cabeça que não sabe nada. E se um dia você começar a apresentar resultados, põe na cabeça "e daí? o que mais?", ou "eu não sei nada".
quinta-feira, 8 de outubro de 2026
Mais uma romaria, mais um drama para partir
Meteorologia diz que vai cair o mundo. Eu estou destreinado. Minha cabeça não está boa. Um milhão de problemas. A bicicleta que escolhi não sobe direito, apesar de ter uma ótima redução... Geometria do quadro. Abro a gaveta e estou só com duas cuecas... Tomo um brodo antes de dormir que não desceu direito...
Acordo bem cedo. Não tenho vontade de tomar café da manhã, mas vamos lá. Checo pela última vez a mochila, tudo ok. Saio de casa às 5h20. Um pouco mais tarde do que queria. Vou pedalando pensando que a outra bicicleta, a que não sobe bem, talvez fosse melhor. Mas esta tem paralamas. Penso até em dar meia volta e trocar de bicicleta. Sigo em frente.
Um chato de galochas me para na esquina da Paulista para falar sobre uma passagem de Cristo. Não é possível! Isto aqui (a viagem) não vai dar certo. Escapo dele e desço para o Centro a mil. Paro em frente ao Teatro Municipal sem saber para onde ir. Não importa, vou. Até a Ponte das Bandeiras fico pesando razões se devo pegar um ônibus ou seguir no pedal. Quanto mais vou mais as baboseiras da cabeça vão sumindo.
Entro na Dutra. Consigo cruzar sem drama o acesso para a Fernão Dias, uma das minhas preocupações naquela noite antes de partir, razão para a busca de caminhos alternativos e preocupações. Consigo superar o trecho antes do acesso para o Aeroporto de Guarulhos sem dramas. Sigo devagar, mas firme e sempre. A cada metro percorrido, mesmo no meio daquele trânsito todo matinal, me sinto mais livre. E olha que só fui perceber que praticamente não tinha tirado os olhos da massa de romeiros que insistem em invadir a pista depois de quase 30 km, ou atropelo um. Nunca vi tanto romeiro junto.
Vou muitíssimo melhor do que esperava. Para que fazer tanto drama como fiz?
Estou vendo algumas entrevistas do Amyr Klink. Ele é uma aula, alguém que realmentevale a pena seguir. Daqui de uns dias vai entrar em cartaz nos cinemas o filme sobre sua travessia no Atlântico sul saindo da África e chegando no Brasil, "100 dias entre céu e mar", o primeiroa conseguir o feito. Pequeno detalhe, a remo. Que inveja! Se eu tivesse tentado provavelmente teria morrido. Todas suas viagens foram resultado de muito estudo, de aprofundar se na ciência, no conhecer, do preparo. Zero porra louquice.
Eu? Me voy a la loca. Só uma coisa eu e Amyr temos em comum, um emoção semelhante na hora de sair. E os dois dizem mais ou menos o mesmo: Vai!