domingo, 14 de junho de 2026

Pedalar como uma lesma. QUE DELICIA!

Hoje saí com minha dobrável, que creio que seja a única sem marchas e contra-pedal que conheço por aqui, a única que vi. E saí pedalando feito uma lesma. Que delícia, cara, que delícia! Fazia muito tempo que não saia pedalando com calma, no ritmo que você vê a cidade, sente as ruas, cruza com calma, sente as pessoas, a vida, não se preocupa com nada, sabe que vai chegar a hora que chegar. Isto é pedalar, este é o real espírito da bicicleta, a calma, a velocidade na escala da vida sadia.

Infelizmente, infelizmente mesmo, vivo numa cidade muito agitada e por osmose acabei virando um agitado, um cidadão comum à loucura do trânsito, neurótico urbano, mesmo pedalando, mesmo que imaginado ou querendo estar pedalando com calma. Óbvio que estar pedalando é infinitamente mais tranquilo que dentro de uma lata de sardinhas, leia-se automóvel, mas não é passe automático para as melhores qualidades que uma bicicleta oferece.

Hoje de fato pedalei com calma. Pedalei no que de melhor a bicicleta me oferece, com calma, me sentindo bem, muito bem. Que delícia!

Nós nos acostumamos com o ruim; pura verdade. 

O que senti hoje é quase indescritível. Indescritível, parece um exagero, mas não é, não é mesmo. Perdemos a noção do que é naturalmente bom.

Homenagem de Renata Falzoni aos grupos de ciclistas


Ontem, sábado, 13 de junho de 2026, a ativista urbana, ciclista e vereadora Renata Falzoni fez uma bela homenagem para os mais de 100 grupos oficializados de ciclistas que saem para passear pelas ruas desta metrópole todas semanas, todos dias e noites, de segunda a segunda. A última lista que vi na Internet contava um pouco mais de 110 grupos oficiais e ativos. Na Câmara dos Vereadores foram homenageados 97 grupos, com mais de 600 pessoas presentes. Bela festa. 

O primeiro grupo oficial e organizado, o Night Bikers, criado pela própria Renata Falzoni, saiu da Praça Charles Miller, Estádio do Pacaembu, numa noite fresca de maio de 1988. Uns 30 foram pedalando para o Centro da cidade, muitos deles simplesmente desconheciam aquele pedaço da cidade. Ficaram maravilhados. O Centro acabou virando um dos passeios preferidos daquele início. Os passeios viraram moda tanto pela descoberta das mountain bikes, que eram uma deliciosa novidade, como pelo fascínio da descoberta da própria cidade, uma completa novidade para a maioria.

Engana-se quem acredita que demorou para que os passeios organizados saíssem do dito Centro Expandido e começassem a ser organizados em bairros ditos distantes. Não demorou muito e Luizinho da Trilha, da Zona Norte, já no início de 1989, tivesse o maior grupo da cidade, com mais de mil ciclistas parando o trânsito noturno impressionando e assustando motoristas e pedestres. Vi eles uma única vez, na Ponte das Bandeiras, e simplesmente não pude acreditar no que via. Não acabava de passar ciclistas, incrível.

No mesmo evento da Câmara foi lançado um folder e um mapa interativo. Também foi apresentado o Projeto de Lei para incluir no calendário oficial da cidade o "Dia Municipal dos Grupos de Pedal".

A bem da verdade Renata fez uma homenagem aos grupos e foi homenageada com uma demorada salva de palmas, assobios e gritos "Renata, Renata, Renata..." Mais que merecido. Renata de fato fez muita diferença, teve e segue tendo uma importância crucial para a bicicleta e os ciclistas, dentre outras.

Teresa D'Aprile, fundadora em 1992 do Saia na Noite, o primeiro grupo oficial de mulheres ciclistas urbanas de São Paulo e Brasil,



sexta-feira, 12 de junho de 2026

Mais uma vez, de bunda de fora

Selim de bicicleta é selim de bicicleta. Por melhor que seja nunca será uma poltrona fofinha frente a TV. Os selins de hoje são deliciosos em comparação aos de antes de 1988. Mudaram muito com a chegada do MTB. Quem pedalou qualquer bicicleta das décadas de 80 para trás sabem bem, mesmo os com mola. Não faço ideia de como aguentei viajar pedalando sentado no selim de minhas Caloi 10, um plástico duro com uns 3mm de espuma, e o da Cruizer, um muito pouquinho mais confortável (confortável?). Não faço ideia de como conseguia sentar para dar aula depois de ter pedalado de minha casa até a escola com um Barra Forte feminina. 

Hoje tem selim para cada bunda, para cada tipo de bicicleta, para cada percurso,  para cada esporte ou lazer. De vez em quando aparece algumas 'invencionisses' que juram ser a solução para todos males do selim. A última é a reinvensão de um selim que os dois apoios, direito e esquerdo da bunda, se movem e acompanham o movimento do corpo. Bom, não é exatamente uma novidade porque a primeira patente creio que tenha sido feita antes dos 1900 nos Estados Unidos. Se fosse tão 'bão' assim todo mundo estaria usando.

Meu pai me deu, todo orgulhoso, um selim 'bundão', aquele com molas e da largura de uma poltrona. É gosado ir daqui para ali perto pedalando num deles, mas se for um pouco mais longe doi tudo. Enfim, não é o tamanho, a largura ou as molas, mas um que se adapte ao formado da bunda do usuário e que atenda o que ele vai fazer com a bicicleta. 

O oposto do selim bundão são os usados por profissionais de ciclismo de estrada que são finininhos, duros feito pau, sem acolchoado, levíssimos. Custam uma fortuna. Não faço ideia de como eles, os pró, aguentam pedalar horas a fio. A bermuda acolchoada? Até conhecer e acompanhar o ciclismo profissional CDF eram só os bons alunos. 

Bom, eu sou um simples mortal com bunda calejada, mas dentro de meus limites, ou dos limites de minha bunda. Que seja. Meu problema é outro. Pedalo com roupas normais, ou, não pedalo com roupa de franga, bermuda acolchoada e etc... Me atrapalho com a bermuda de ciclista. Eu sei, sei, mas que seja, esta não é a questão.

Ontem tirei a calça jeans e vi a luz cruzando os fundilhos... mais uma vez. Uau! puiu? Não, felizmente só descosturou. Eu ia ficar bem chateado se tivesse puido porque é um jeans preto, lindo, dos bons. Este ano já tive que descartar duas bermudas que puiram no rabo. Antigamente eu seguia pedalando até ficar de bunda de fora, mas criei vergonha, sempre faço uma inspeção para ver como está o tecido, e bem antes de rasgue lavo e dou para os carroceiros, que vão usá-la ainda por muito tempo. Perdi a conta de quantas calças e bermudas já doei. 

Uma vez cheguei na piscina que nadava com frequência e meus amigos passaram a manhã gozando da minha sunga. Só fui entender quando tirei a sunga para voltar para casa. Passei a manhã toda na piscina de bunda de fora e os malditos não me avisaram. Depois rimos muito da história. Simples, sempre ia pedalando vestido com a sunga, que por sua vez já estava bem usada. A Flora, que nadava junto, viu minha bunda ao vento, juntou o pessoal e a gozação não teve fim. Felizmente não fui pego pelo salva-vidas, também meu amigo, que tiraria um sarro sem tamanho e me expulsaria da piscina.

Mas não foi a pior. Indo para um jantar um pouco mais formal, não só a calça rasgou, como quando eu parei no sinal o selim entrou dentro do rasgo e fez o resto do serviço. No jantar me perguntaram porque eu não tirava o casado amarrado na cintura. Tanto encheram que mostrei. A gargalhada foi geral. Óbvio que foi a conversa central do jantar. Na despedida ouvi "Não vai pegar um resfriado na bunda e espirrar pelo ..."

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Cruzamento de pedestres na saída do Ibirapuera

"Vai, ô trouxa!” cara, eu tenho certeza que tem muita gente, inclusive quem deveria ser responsável pelos pedestres, que pensa assim. Se pensam diferente, se "precisamos pensar na segurança do pedestre" (afirmação que me dá arrepios até hoje) de verdade, e eles de fato estão minimamente preocupados com a segurança dos pedestres então ou são cegos ou são ineptos, para dizer o mínimo. Os números não mentem.

O número de situações técnicas, por parte da engenharia de trânsito, que colocam em risco os pedestres - e ciclistas - é muito maior do que deveria ser aceitável. "Nós colocamos faixas de pedestres...", sim, é verdade, mas faixa de pedestre não é sinônimo inequívoco de segurança, como está mais que provado. "O pedestre não cruza a rua na faixa e com o semáforo aberto para ele..", concordo, mas por que não o faz, por que se arrisca?

Segurança, qualquer que seja, é efetiva quando se segue uma serie de regras e princípios. Segurança é um fator humano, e se não se entender como 'humano' não se chega a lugar nenhum. Em outras palavras: se a ideia não for bem vendida ela não funciona, ponto final. E só vende uma ideia que é confiável, o que as autoridades não conseguem ser, ou ter, ou as duas juntas.

No meio de uma longa entrevista publicada no jornal Estadão, um estudioso falando sobre a competição China - Estados Unidos afirma que a grande diferença é que na China, no processo produtivo, todos são ouvidos com respeito e seriedade, pião, engenheiro, diretor presidente, todos tem algo a acrescentar. Aqui, o sabichão que está por cima quer a todo custo fazer o seu subordinado entender o que ele está mandando e "fazer o que tem que ser feito", ponto final. Só pode ser piada de mal gosto.

Pedestres não respeitam o que lhe é indicado porque sua vontade natural, sua razão, sua forma de fazer, de agir, de sua tradição, sua cultura, enfim, tudo o que eles são não interessa para os que "sabem". Começou mal, vai terminar mal.

Segue-se um ótimo exemplo, dos infinitos que temos por aí.

O pedestre que entra e sai do Parque Ibirapuera pelo acesso para a rua Abílio Soares tem que ter paciência, muita paciência, para cruzar a av. Pedro Álvares de Cabral. Exatamente de frente a este portão do parque está o ponto de ônibus - do outro lado da avenida. Hoje, para cruzar a avenida o pedestre tem que caminhar uns 50 metros ou mais, cruzar a avenida em duas etapas, uns 2 minutos ou mais total, e voltar outros 50 metros até o ponto. UAI? Por que será que o pessoal cruza no meio dos carros?

Situação como esta é comum para pedestres e também ciclistas. UAI? Por que o pessoal faz diferente do que as 'otoridades manda'?

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Erro grosseiro na educação para a segurança no trânsito

 

O discurso publicado aqui está correto, não tenham dúvidas. Mas faz décadas que é repetido e os resultados são pifios, a prova disto está no número absurdo de acidentes e fatalidades que temos no Brasil. Então, o que não está funcionando? Simples, óbvio: esqueceram ou nunca se deram conta do público para quem falam. Há uma falha de comunicação, eu direi inaceitável. Se faz aquele decrépito erro de colocar uma sumidade na lousa de uma classe de adolescentes. A aula será brilhante, mas absolutamente inócua para os estudantes. Isto se não resultar em aviãozinhos e bolas de papel voando em meio a risinhos e comentários jocosos. Quem já deu aula, quem já trabalhou com pessoas com alguma deficiência, e incluo aqui os superdotados com sua dificuldade de comunicação, quem já ensinou traumatizados, sabe que a pedagogia é outra, é muito específica. Mingau quente se come pelas bordas. Qual é o ponto crítico? Como abordá-lo? Qual o próximo passo? Quando se deve ir para perenizar o próximo ensinamento? Quando e por que é recomendável dar um passo atrás? Falar em equipamentos de segurança para uma população que sequer tem dinheiro para manter os freios e as luzes funcionando corretamente é dar um tiro no pé. Que tal descobrir qual a principal razão de acidentes e trabalhar só nela? Que tal ganhar confiança deste grande público de motociclistas (e incluo ciclistas)? A melhor regra de comunicação é aquela onde você sabe para quem vai falar em primeiro lugar, para só então falar o que o outro consegue entender. O contrário é um desastre. Nossos P.A.s, Pronto Atendimentos, que o digam.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Giro d'Italia, sul-americanos vencem. Nenhum brasileiro na nesta e noutras provas clássicas


Argentinos, uruguaios, equatorianos, colombianos e venezuelanos, ciclistas de ponta vindos de países com uma população muito menor que a brasileira; todos pedalando na ponta de provas de ponta no mundo ciclistico. No Giro D'Italia, uma das três provas ciclisticas mais difíceis e prestigiadas do mundo, sul-americanos destes países não só participaram, como já venceram inúmeras vezes. Este ano já vencenram um uruguaio e um venezuelano. 

População dos países, dados ~2024: Argentina - 46 milhões; Uruguai - 3.4 milhões; Equador - 19 milhões; Colombia - 53 milhões; Venezuela - algo em torno de 30 milhões. Número aproximado de usuários diários mais esporádicos da bicicleta no Brasil: ~40 milhões. Se todos estes países sul-americanos, que têm uma população em idade de uso da bicicleta bem menor que a de usuários no Brasil, conseguem ter ciclistas de ponta em equipes de ponta na Europa, por que nós não conseguimos? 

Brasileiros nestas provas? Difícil de lembrar. Na história destas três provas tradicionais, Tour, Giro e Vuelta, até onde sei, uma única vitória foi com Mauro Ribeiro, faz muito muito tempo. De lá para cá quantos brasileiros foram convidados por equipes para participar nestas provas?

Por que? Como tive e continuo tendo, agora menos, contato com o pessoal que foi, é, esteve e está no meio do ciclismo profissional, infelizmente tenho a dizer que sobrou boa vontade por parte de alguns para fazer o ciclismo esportivo ficar vivo. Sim, ficar vivo, continuar existindo. Lembrando que de boa vontade o inferno está cheio, mas complementando que boa parte dos que lutam pela bicicleta não merecem o inferno, talvez uma bronca pelo amor incondicional pela bicicleta. Rapidamente: negócio é negócio, amor é amor; se quiser ir a falência misture as coisas. Fato é que o ciclismo no Brasil tem um problema crônico de administração e de falta de pragmatismo. 

Tenho a dizer que a bagunça comecou bem lá atrás,  quando num passado distante a bicicleta e o ciclismo no Brasil tiveram um sutil toque mafioso misturado a um oligopólio pragmático voltado para o "meu", e creio que me entendem. Esta forma de levar um esporte não foi nem é uma exclusividade do ciclismo, mas um mal arrasador comum a boa parte dos esportes olímpicos e profissionais deste país. O país do futebol que o diga, pode apostar nisto.

Outro fator, que já citei várias vezes, é a falta de interesse do cidadão brasileiro pelas conquistas, muitas heroícas, de alguns esportes e esportistas. Mais, caem no esquecimento com uma rapidez brasileira.

Triste.



Meus parabéns aos sul-americanos que continuam a vencer e chegar na frente no Giro. De novo vence o equatoriano, com o uruguaio chegando entre os 5 primeiros. Parabéns! Alegria por um lado e uma tristeza que só aumenta quando penso nos brasileiros que não estão, mas poderiam, melhor, deveriam estar lá.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Roubo de bicicletas no parque, Ibirapuera


Comentários 

Roubo de bicicletas é problema sério em todas grandes cidades do mundo, e não é diferente aqui. O número de roubos de bicicletas na cidade de São Paulo já é uma questão que deveria ter estar sendo tratada com atenção faz um bom tempo, e vem aumentando. Dois pontos, o primeiro é a má vontade das autoridades em registrar roubos de bicicletas, que ao que parece ainda é considerado um crime menor ou algo assim. O segundo é para mim tão ou mais grave, é o não relatar o crime porque demora, há má vontade dos policiais, não dá em nada... Não comunicar um roubo ou assalto pelos devidos meios legais é assinar em baixo que a "violência faz parte".

Roubo de bicicletas é um dos sustentáculos de uma rede de crimes muito mais sérios. Os Países Baixos, ou a popular Holanda, trata o problema como uma das principais políticas de Estado. NYC, L.A., Paris, Londres, e inúmeras capitais do mundo têm políticas específicas contra o roubo de bicicletas, e o fazem porque aprenderam que não é só uma bicicleta, mas envolve outras questões macro econômicas que fazem muita diferença para a administração geral da cidade.

Cadeados ou travas têm graus diferentes de resistência ao roubo, que hoje vai de 1 a 12. A trava da foto do Estadão é nível 4, se não me falha a memória. Lá fora e entre os da área da bicicleta os mais frágeis são conhecidos como "chama ladrão". Creio que seja de conhecimento geral que os parques de São Paulo são os locais preferidos dos ladrões. Nem que me paguem deixo minha bicicleta de poste parada e travada no Ibirapuera. Bicicleta de poste: uma bicicleta feia para estacionar em qualquer lugar, que não interessa a ladrões, a mais comum em Amsterdam, por exemplo.

Na Internet tem vários filmes mostrando o tempo de roubo em NYC de uma bicicleta que usam diferentes tipos de travas. Vale a pena ver. O da foto está por volta de 10 segundos para o ladrão sair pedalando.

Ou nós, brasileiros, passamos a relatar roubos e assaltos, fazer B.O., ou vai ficar muito pior do que está. Em termos práticos, afirmo que nossos dados provam que já vivemos uma guerra civil, e do jeito que vai pode piorar e muito.

Às autoridades, bicicleta parece, mas não é um brinquedo barato que não faz diferença. Espero que entendam isto antes que a brincadeira vire uma enxaqueca infernal na cabeça de vocês. Ela está aí. Não importa se custa meros R$ 500,00 ou R$ 200 mil. O que está por trás é muito sério.