sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Bicicletaria X conhecimento do ciclistas

Uma das meninas que pedalam no Sai na Noite teve seu pneu traseiro deformado no meio de um passeio. Conseguiu terminar o passeio, pediu dicas sobre onde levar a bicicleta para trocar os pneus já bem usados, e fazer uma revisão. Recomendei uma tradicional bicicletaria bem próxima da casa dela, gente que está no mercado faz uns 40 anos ou mais, gente séria, respeitada, que conheço bem. 
Ela levou a bicicleta, pediu um orçamento para revisão completa, recebeu a resposta no dia seguinte: R$ 2.600,00. Ligou para mim, contou, eu quase caí de costas. R$ 2.600,00? Ela contou o que estava descrito no orçamento. A bicicleta, uma 29 meio básica, deveria ser trocada?, perguntou ela. Pelo que me lembrava, não. 

Revisão completa:
desmontar
limpar
lubrificar
trocar todos os componentes, esferas de rolamentos, cabos, conduites
remontar
ajustar
(talvez algo mais que não me lembro)
+
troca de pneus: R$ 360,00
troca de guidão  R$ 900,00

Troca de pneus: R$ 360,00? Troca de guidão  R$ 900,00? Uau? 

Enlouqueceram! Um pouco depois pensei com calma. Primeiro, conheço eles desde o começo, nunca ouvi um senão a respeito da seriedade deles. Então, "vamos com calma, deixa eu pensar o que pode ter acontecido".

Pneus por R$ 360,00. Deve estar incluído aí o alinhamento básico das rodas, e conhecendo o estoque deles digo que o pneu deve ser de qualidade melhor que os mais básicos. Os R$ 360,00 fazem sentido.
Guidão por R$ 900,00, de novo, deve ser um guidão de alta qualidade, caro e provavelmente incluiram aí um bike fit.
Mesmo assim... uau!

Esta bicicletaria tem seu foco em bicicletas de ponta, público seleto (?). Aceitam bicicletas mais simples, até porque não dá para não aceitar, e no passado, lá atrás, começaram como uma bicicletaria normal, não dá para descartar velhos clientes.

A outra questão é o público que eles tem, gente que no geral tem dinheiro e ou não está preocupada com quanto, ou gasta para não ficar mal da fita dos amigos, o que é muito mais comum que se possa imaginar, não preciso dizer. 
De qualquer forma, o orçamento foi um tanto salgado, um tanto pouco realista. 

Vou para o outro lado da questão, os proprietários de bicicleta, ditos ciclistas. 
Conheço um monte de gente que faz questão de levar a bicicleta para fazer revisões periódicas em bicicletarias "de confiança". A maioria é de fato de confiança, boas bicicletarias, sérias, respeitáveis, mas estão lá para trabalhar e ganhar o seu. Se o cliente quer..., fazer o que?
Já passei por situações que amigos próximos, que dizem ter plena confiança em mim, trouxeram suas bicicletas para eu dar uma olhada. Estavam perfeitas, não precisavam de absolutamente nada, avisei com todas letras, mesmo assim acabaram as levando (sem eu saber) a bicicletarias 'chiques', por assim dizer. Não há como, ninguém consigue controlar as neuroses e inseguranças de ciclistas. A bem da verdade estamos numa fase que a falta de controle, a falta de sensatez, virou meio que regra. "Eu sei" está em alta. "Não faça" está em baixa.

O final da história da bicicleta que cito aqui: a dona comprou dois pneus pela internet e quando recebeu eu troquei um, aproveitando para ensiná-la como fazer, que trocou o outro. O guidão vamos resolver depois. 
Bike fit? Desculpem, mas um macaco velho como eu, se não ajusta a posição com a perfeição de um bom profissional de bike fit, chega perto, bem perto. Ademais, algumas vezes tive que refazer o trabalho de profissionais respeitadíssimos porque estes fizeram o bike fit sem levar em consideração a idade do ciclista, uso que faz da bicicleta, e pricipalmente os problemas ósseos / musculares que a vida traz.

Mais uma vez escrevo: a bicicleta tem que funcionar perfeitamente, o que é diferente, muito diferente de ser neurótico. Repito pela enésima vez: Mike Sinyard, criador e dono da Specialized, disse (e provavelmente continua dizendo): "Eu fabrico bicicletas para serem usadas". 

Outro dia soltei numa bicicletaria a deliciosa frase de um cartaz na Holanda: "Nós (holandeses) pedalamos. Americanos usam capacete". O dono não entendeu nada. Então... Bicicleta foi feita para ser usada. O setor de bicicletas brasileiro tem por base o setor de bicicletas americano, ou seja, sobre tudo, negócio. Europeu, no geral, usa a bicicleta até onde for relamente necessário 'dar um tapa nela'. Aqui é relativamente fácil encontrar uma bicicletaria, não tanto quanto farmácias, mas estão por aí. Lá, bicicletarias não são tão faceis de encontrar. Quantas farmácias 24 horas tem Paris? Quando estive lá, faz um pouco mais de 10 anos, uma, sim uma, ponto final. Ou seja, o pensar é diferente. Só lembrando: Holanda fica na Europa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Não entrar em pânico

Todo mundo do jornalismo neste verão está dando matérias sobre afogamentos, que vem acontecendo sem parar. Sei como é. 

Meu irmão, 10 anos mais velho e com um fôlego impressionante, brincava comigo de 'tubarão'. Como ele conseguia com certa facilidade cruzar por baixo d'água uma piscina de 50 metros, a brincadeira era me pegar pela perna no meio da piscina e levar até o fundo. Depois de engolir muita água, aprendi a me controlar e ser afogado sem maiores consequências.
Talvez ele quisesse de fato me matar, coisa de irmão, posso dizer, um irmão que não trocaria por nenhum outro. Gente finíssima. Querendo ou não matar o pentelho caçula, Murillo me ensinou a manter a calma, essencial em qualquer situação de emergência. 

Quem estuda ou trabalha com segurança no trânsito, ou seja, sabe o que está falando, não tem a mais remota dúvida que perdeu a calma piorou a situação. Para ciclistas esta verdade ganha outra escala. A base do equilíbrio sobre uma bicicleta está intimamente relacionada com o grau de relaxamento do ciclista. Portanto é princípio fundamental para a segurança do ciclista.

O 'tubarão' de meu irmão me deu um legado para o pedal: aprendi a sempre buscar por onde posso fugir de um possível acidente, ou qual a rota de escape para não se machucar. 
Da mesma forma que quando Murillo me segurava a perna aprendi que tinha uma fração de segundo para pegar ar e preparar para submergir, eu pedalo olhando para onde posso ir e quanto tempo vou ter para reagir. Funciona. É uma fração de segundo, mas me treinei, então é uma longa fração de segundo. 

Infelizmente brasileiro não é obrigado a fazer treinamentos continuos de segurança, aliás, não está nem aí para segurança. Vivemos na irresponsável ilusão do "comigo não vai acontecer nada". 

No Youtube tem um exemplo interessante. Mostra duas evacuações de emergência em aviões, uma com passageiros norte ocidentais, americanos ou europeus, não me lembro. O outro com passageiros japoneses. Nos dois é feito o aviso de evacuação pelos tobogans. No grupo de ocidentais, depois do aviso todos se levantam e se preparam para deixar o avião o mais rápido possível. No japonês, a aeromoça pede que todos permaneçam sentados e só saiam depois que forem chamados para sair, e eles atendem ao pedido.
Qual evacuação foi mais rápida?

Pela manhã fui visitar uma prima. Não pude subir porque o elevador parou de funcionar com uma babá e um bebê dentro. Foi duro controlar a babá, que não demorou muito foi retirada, aliás, por mim. Sentada, começou a ladainha de discurso que era um perigo, podia ter morrido, que elevador cai... 
Eu e o zelador, com quase 30 anos de casa, tentamos convencê-la que elevador é seguro, mas... Ela só acalmou quando perguntei quantos anos ela tem (já é uma mulher feita, uma senhora) e quantas vezes ela soube de histórias de elevadores caindo. Acalmou de vez, um pouco acabrunhado, quando eu disse que o elevador não iria muito longe: estava no térreo, ou fim de linha.

O tempo de evacuação dos japoneses foi muito mais rápido que dos 'bem educados' ocidentais. As duas situações são reais.

Aviso, mesmo os treinados tem medo. A diferença é que o treinamento leva ao controle do pânico, este sim muito perigoso.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Trocar uma velha 26 por uma 29? Faz sentido?

Ontem, no final do passeio, água de coco, dei com uma menina parada ao lado com uma Kona 26 ano 2009. Eu babei na bicicleta. Quase topo de linha, inteirinha, muito bem conservada, fucionando perfeitamente, pneus um pouco gastos, prova que já foi bem rodada. 
- Estou pensando em trocar ela por uma 29, disse ela. Afirmação clássica. 
- Não faça isto. É uma Kona, você não vai conseguir uma bicicleta com a mesma qualidade.
- Mas eu preciso trocar os pneus (?). Então é melhor trocar por uma 29. (Upa!) Pensei em comprar uma Specialized, terminou ela.

Eu parto desta conversa.
Kona é uma marca canadense de bicicletas, de excelência, tenho a dizer. Babo nas Kona, e só não tenho uma porque... boa questão, por que? Ok, são um tanto rígidas para mim. Tenho desde a adolescência tenho problemas de coluna e preciso de quadros que tenham resiliência que suavize minhas dores. Konas são rígidas, muito precisas, com uma resposta incrível, e com fama de indestrutíveis. A menina deixou que eu desse uma voltinha com a Kona dela e fiquei mais ainda alucinado com a bicicleta. 
Eu trocaria aquela Kona por uma bicicleta atual, qualquer que seja no mesmo nível? Nunca! "Mas é 26" dirão. Melhor ainda, além de rodar maravilhosamente bem, interessa menos aos ladrões e assaltantes. Mais, aquela Kona é 2009, ainda de uma época que as bicicletas eram feitas para durar, durar, durar... Trocar por uma atual que é feita para vender? Nunca!

Já contei aqui que Luiz Dranger perguntou ao Mike Sinyard, o criador e então dono da Specialized, se deveria trocar a bicicleta por uma nova. Sinyard foi muito claro: não troque, porque bicicletas com a qualidade da sua nunca mais serão fabricadas. 
Posto isto, reconheço que este texto é a repetição de outros que postei. Não importa, vale sempre lembrar. Então vou aos detalhes.

A menina, linda por sinal, é alta. A Kona é correta para ela, o que não é comum para mulheres altas porque elas costumam ter um cavalo, ou tamanho das pernas, muito alto. A Kona, maravilhosa, é perfeita para meus 1.83 m., o que ficou claro quando fui dar uma voltinha. Está equipada com Shimano Deore de ponta a ponta, funciona com uma precisão deliciosa. Pneus? Eu nunca trocaria aqueles pneus "gastos" ou "carecas", não me lembro como ela se referiu a eles. Vão rodar ainda muitos anos, e rodam maravilhosamente bem, melhor que os atuais.

Uma das meninas com quem estava pedalando tem uma Trek um pouco mais antiga que a Kona em questão, também 26. Deve ser 2003, ou por ai. Está com os pneus originais, Bontrager, e só agora, naquele passeio, o pneu traseiro tem que ser trocado porque deformou um pouco, provavelmente por excesso de pressão.  Não fosse isto ainda durariam anos. Pneus mais velhinhos tem que ser calibrados com uma pressão um pouco mais baixa por precaução. O limite é 65, como neste caso, coloca 45 que está ótimo, ou 40, melhor ainda. Ou seja, duraram mais de 20 anos, e com cuidado durariam mais 5 ou 10 anos, e vou dizer, muito bem rodados. Pneus que se vendem hoje vão durar isto? Definitivamente não creio. 

A calhordice que a menina não entedeu, mas disse nas meias palavras, é que algum malaco de loja quis fazer uma venda, empurrar uma Specialized. Espero que ela tenha ouvido minhas palavras e visto minha baba caindo da boca quando olhava para a maravilhosa Kona. Infelizmente não sei quem é a menina, mas se ela tiver ideia de girico e decidir vender a Kona, eu quero! Espero que não venda.

O sonho de consumo continua sendo uma "Specialized". Não meu. Explico. Specialized é uma marca maravilhosa, talvez com a história mais brilhante destas últimas décadas. Fabricou bicicletas e peças incríveis em todos níveis, das básicas às top, mas faz certo tempo que teve que rever princípios em relação as bicicletas básicas e médias, e já não há mais a diferença gritante que havia no passado. As top de linha é uma outra história, são top. O resto entrou na concorrência, quando não pior que a concorrência. Specialized, as normais, vendem porque tem o nome gravado na cabeça do povo. É uma opção? Sim, mas agora nada mais que uma opção, a não ser que se vá para as caras, daí é uma boa ou ótima opção.
O que quero dizer com isto, repetindo mais uma vez, é que não se iluda com nomes ou diz-que-disse. Vale para tudo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Queda de qualidade e medo de um novo 1972

Quebrou o eixo traseiro de minha bicicleta. Como assim 'quebrou o eixo traseiro'? Daqui dois anos vou completar 50 anos pedalando sem parar, e tenho orgulho de ainda conseguir contar nos dedos das mãos o número de peças quebradas que tive neste meio século. Sei que foram pouquíssimas por imperícia ao pedalar. Sou tanto neurótico quanto a meus erros, me cobro muito. Lembro como fiquei deprimido por ter entortado um aro traseiro por barbeiragem minha num subir uma guia. Enfim, sou cuidadoso, de uma geração que se a bicicleta quebrasse era grande a possibilidade de acabar a brincadeira, e entendam o 'acabar a brincadeira' literalmente, ou seja, fim de pedal por um bom tempo, quando não definitivamente.
Neste auto elogio, ou neurose completa, como queiram, não conta o anterior às bicicletas mountain bike. Pedalei em muita "lixocleta", apelido dado às bicicletas de merda que ainda eram fabricadas sob o manto do que se considera considerava qualidade nos anos 70. Explico.

O pior momento da história da bicicleta mundial foi na década de 70. Com as vendas em baixa, a qualidade despencou. Pedalava que realmente gostava. Na década de 80 eu não saia de casa sem uma meia caixa de ferramentas, mais um monte de remendos. Tudo funcionava precariamente, tudo entortava, quebrava, pneu furava direto coisa de loucos. 

Agora, em 2025 quebrar um eixo traseiro? Ok. Pode acontecer, um buraco pego de mal jeito, ou sei lá o que. Creio que é o segundo ou talvez o terceiro eixo traseiro que quebra comigo nestes 50 anos. Só me lembro com certeza de um antes deste, mas na época que eu fazia mountain bike para valer. 

Minha fúria completou ao ter saído para comprar um eixo traseiro novo e ter sido avisado por quatro donos de bicicletarias tradicionais e respeitadas que partir em dois é comum. "Não fica assim. A qualidade está muito ruim, então vai quebrar de novo e a culpa não é sua", me disse um deles, velho amigo. Upa! Upa! Como assim? 
Mais, todos eles deixaram claro que o problema de qualidade é geral, não acontece só com eixos. Upa! A bem da verdade, eu sei. Cabo de câmbio de primeira linha esgarçar em meses? Como assim? Corrente que dura muito menos que durava. Pneus que chegam na lona muito antes do esperava? Camara de ar que se auto fura?

Obsolência programada? Concorrência desleal? Falta de controle por parte das autoridades? Forma de sobrevivência nesta grave crise que as bicicletas a pedal humano está passando? O que seja, não importa, é um tiro no pé. Mais, como consumidor eu quero qualidade, não quero descarte que polua, é meu direito.

Lembro a todos que a ressurreição da bicicleta nos anos 80 se deu a partir do momento que começaram a vender qualidade, portanto segurança e tranquilidade aos ciclistas.

Eu passei toda minha vida lutando contra baixa qualidade, inclusive por meios legais, o Código do Consumidor. Estou com 70 anos. Espero que acreditem que brigar por qualidade vale a pena e sigam a luta. 

Bicicleta é um veículo, e como tal não pode apresentar defeitos. É a lei. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Medo de tombo, se machucar ou se quebrar

Eu fui um anjinho, vocês não fazem ideia de quão anjinho fui, minha mãe e tias sabem bem. Como um bom anjinho, que se machucava e quebrava com uma frequência, como posso dizer, estúpida, idiota... Escolham o adjetivo que quiserem. Foi com certeza um saco, a beira do insuportável para quem me socorreu com uma frequência irritante, para dizer o mínimo. Enfim, falou em tombo, falou em se machucar, bem... eu sei o que falo. Vamos lá.

Tudo na vida é aprendizado, e às custas de uma paciência infinita de quem teve que me levar 'n' vezes para pronto socorro, aprendi o que é dor, o que significa cada uma das dores que sentimos. Sim, dor não dor, mas uma boa variedade de dores diferentes entre si, cada uma com seu significado. 
Mais importante: aprendi a não ter medo de dor. Como todo ser normal não gosto de sentir dor, não sou sado, simplesmente aprendi a conviver corretamente com ela quando acontece. Não, não estou recomendando que saiam por ai se arrebentando para aprender o que é dor, só estou pedindo que ouçam alguém com experiência (larga experiência) no assunto.
Evitar a qualquer custo qualquer possibilidade de sentir dor leva a não fazer muitas coisas boas e divertidas que numa infeliz eventualidade podem machucar. Mas, como se diz, "no pain, no gain", ou "não há ganho sem dor". Ok, esta é outra dor, mas...

- Quem só pensa em perigo não tem tempo para ser seguro -
Já repeti um milhão de vezes isto. Acho que só ontem caiu minha ficha qual é o buraco de comunicação que tem aí: medo de ficar desabilitado, impossibilitado de fazer o que precisa no dia a dia. Posso afirmar que tem muito de pensamento ou as ditas verdades deste mundo bipolar. Fez, se arrebentou? Desculpe, não funciona assim. Fez errado pode se machucar. Fez certo dificilmente vai ter problema. A questão é que historicamente somos treinados para o "não", portanto pensamos "não vai dar certo". Tem até aquela gozação: "Se pode dar errado, porque vai dar certo?", a famosa lei de Murphy.   

Pode dar certo.

Passei sete anos ensinando pessoas que nunca conseguiram pedalar pelas mais diversas razões, a maioria mulheres apavoradas com tombos. Fiz todas pedalarem usando as técnicas mais estranhas, sempre focando no tirar a atenção da bicicleta. Esqueciam que estavam pedalando e pedalavam tranquilas, sem tombos, sem dor. 

"A bicicleta não existe...", ou, o perigo não existe, pelo menos pode ser controlado. E controlar o perigo começa por parar de só pensar nele. Funcionou, funciona! Óbvio que o perigo sempre está rondando, faz parte da vida, e este é o ponto. Você já deve ter tomado banho em chuveiro elétrico, e só ficou debaixo daquela divina aguinha quente porque não ficou pensando que pode morrer eletrocutado. Eu já fui, trocando resistência. Por sorte não grudei e fui arremeçado uns dois metros de distância, mesmo assim uso diariamente meu chuveiro elétrico. Ou tomo banho gelado. Para que eu tenho que ficar lembrando que Tina entendeu meu pedido errado e ligou a chave geral quando eu ainda estava trocando a resistência? E se eu ficar lembrando do chuveiro que explodiu (literalmente) no meio do meu banho? Acabei no meio da sala nú com todas minhas primas rindo. A tampa do chuveiro grudou no teto do box. O pior foi ter que tirar o sabão com água gelada. 

E se a cada pedalada eu ficar focado no que pode acontecer errado um pouco mais a frente? Óbvio que já tive pensamentos negativos, muito mais de uma vez. Óbvio que já olhei para onde não devia e me dei mal. Um dia, no meio de uma descida, caiu a ficha que eu estava a mais de 30 km/h sobre uma máquina magrinha, magrinha, de equilíbrio precário. Foi apavorante descobrir que eu estava brincando de superman sem saber voar. Naquele exato momento entendi o que sentem os iniciantes. "Que porra estou fazendo aqui?" Simples, respirei, me controlei para não me estabacar e me quebrar todo. Confesso, foi apavorante.

Inconscientemente relegamos perigos a toda hora, dependendo da situação a todo minuto ou segundo. Ou você pensa que está seguro num automóvel? Muito menos seguro que num avião, que é infinitamente mais seguro que o automóvel, mesmo assim tem monte de gente tem medo de morrer voando. No meio do trânsito não passa pela cabeça esta possibilidade porque nos acostumamos e esquecemos o perigo. "Quem só pensa em perigo não tem tempo para ser seguro".

E vem uma amiga, para quem já dei aula e fiz pedalar, e pedalava bem, mas parou, e diz que gostaria de voltar a pedalar, mas tem medo de se quebrar e ficar inútil. Aí caiu a minha ficha do problema. 

Se fossemos um pouco mais racionais, ensinaria a cair, técnica de rolagem que aprendi no judô. Nem pensar, ensinar a cair não vai ser entendido como prevenção, mas como certeza que o tombo vai ser fato consumado.

Como convencer uma pessoa que alguns riscos valem a pena e que muito do que ela considera risco só o é se ela não souber controlar e se auto controlar. A próxima vez que for acender o fogão pense nisto. Muito do auto controle vem do desviar o pensamento, se possível para o positivo. Eu sei, não é biscoito.

Muitos dos graves problemas que estamos vivendo hoje são decorrentes de uma doutrinação que a vida só é boa sem percalços. Nada mais mentiroso. Riscos  e percalços estão aí para ser vividos, até como aprendizados. Afinal, quem não arrisca, não petisca.

Viver pela metade é não viver - ditado espanhol

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Bicicletas elétricas são a solução? Para mim... não

Por mais que digam que o bem para a saúde é o mesmo numa bicicleta a arroz com feijão que numa elétrica, eu, ignorante e já com certa raiva delas, ditas bicicletas elétricas,  afirmo: claro que não é. 

COP30: silenciaram sobre mobilidades ativas e as mobilidades elétricas. Uai? Mas por que?

Toda documentação sobre introdução de sistemas cicloviários apontam para que logo após a implantação haverá um aumento das ocorrências, acidentes, e que com o tempo e a prática dos ciclistas, vai acalmando,  as ocorrências vão aos poucos diminuindo. Foi o que aconteceu por aqui. Mas não precisava ser tanto.

Como sempre, a coisa aconteceu bem no nosso estilo: toma o brinquedo e vai brincar. Ou, "toma as ciclovias e ciclofaixas, pega tua bicicleta e vai pedalar". Deu no que deu. Não, eu sei, não há números que endossem o que falo, mas não ter informações corretas sobre o ocorrências é a regra tupi-não-dá e tupi-nim-quem. Nada de novo, só repetiram a besteira que deixaram acontecer com as motos, que eu ironicamente chamei de morto-boys. Ironia com os que deixaram rolar (os motociclistas no asfalto). Felizmente com os ciclistas não foi tão trágico, mas o número de ocorrências foi bem maior que o divulgado, quem está no meio sabe, ou tem boas razões para acreditar. 

E, para não mudar a nossa eterna loucura, agora fomos invadidos pelas bicicletas elétricas, as mais variadas, dos mais diversos tipos, que passam zunindo na orelha de ciclistas e pedestres. E as ocorrências não param. Aqui, ali, lá, acolá e planeta afora. NY Times acaba de soltar uma matéria sobre o crescente problema lá,  na cidae quw não para (NYC). Pelo menos não li mais notícias sobre prédios sendo incendiados por baterias sendo recarregadas, o que ocorreu com certa frequência em NYC até as autoridades darem um basta.

Óbvio que não aprendemos nada com o passado. Ou com a experiência dos outros. Tipicamente brasileiro. 

As elétricas foram e seguem sendo um problema em todas partes. Quem se importa? 

As elétricas são um problema? O automóvel é um problemão? Não. Sem um ........ pilotando ou dirigindo eles não fazem nada, ficam literalmente parados, não saem do lugar. 

Mas eu não posso dizer o que me passa pela cabeça quando sou ultrapassado por um missel caça ciclista. "Ufa! Escapei mais uma vez! Quando vou ser abatido?"

Lutar 30 anos por ideal para tudo se transformar nisto....

Os links não fui eu quem apliquei. Entraram automaticamente. 




segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Pico do Jaraguá, de novo (e até quando der)

- Velho não se mete a besta! - frase dita e repetida em minha família.
Opa! Não se aplica a mim, pelo menos enquanto der. Velho sim e metido a besta também também. Besta, mas não estúpido.

- Morro, mas não paro de fumar e beber - repetia meu irmão sobre o pedido do médico, nosso querido amigo, que aliás quando bebe, bebe para valer, dupla perfeita para seu paciente, meu irmão.
Tratando de minha mãe, que então estava internada em ótimo hospital, autorizou um happy hour no quarto. Lógico que na companhia dos familiares e dele. Num destes happy hour, que já estavamos as gargalhadas desenfreadas, entrou a enfermeira chefe e sem meias palavras ameaçou em bom tom expulsar todos do hospital, minha mãe e seu médico inclusive e juntos. Fechou a porta estouramos numa gargalhada geral, mas respeituosa, baixa. 

Carpe dizem - curta o momento.

Velho não se mete a besta - como traduzir para os jovens e adultos, ou qualquer vivo? A tradução vai mais ou menos pelo "não pula cercas que podem lhe fazer mal, ou dar problema que não consiga resolver". 
E - para não me sentir morto-vivo - parafraseando a repetida frase de meu irmão, vou à vida. Não bebo e nunca fumei, sou velho e até onde puder vou me meter ao limite possível, ou a besta.


Hoje subi o Pico do Jaraguá, mais uma vez. Obrigação com minha bicicleta do dia a dia, minha Trek 2008 ou 2009 pintada de laranja que virou minha amada bicicleta de poste. Está tão feiazinha, para os outros, que até ladrão passa batido. Bingo! Pedalo livre e tranquilo. 
Está montada com um câmbio 21 marchas, 7 X 3, sendo que modifiquei a relação dianteira e agora tenho a coroinha com 22 dentes. Ou seja, 22 na frente e 28 atrás, bem mais reduzida que o 28 X 28 original. E lá fui eu. "Será que subo?". 

Toda vez que saio de casa para subir o Pico do Jaraguá tenho lá uns chiliques. Ansiedade pura. Desta vez foi meio diferente. Na manhã do dia anterior tinha fritado as pernas entrando no vácuo de um pequeno pelotão com esta mesma bicicleta, e com mais um pequeno detalhe que só percebi depois: o pneu traseiro estava com 20 libras. Fiquei orgulhoso, conseguir entrar no vácuo de uma bicicleta de estrada com um pneu meio vazio. O velhinho está legal. 

Quase chegando no Pico coloquei na cabeça que deu, deu; não deu, não deu. As pernocas estão de fato cansadas, Velho não se mete a besta, nenhuma vergonha em dar meia volta.

Início da subida, tudo bem. Meio da subida, vamo que vamo. Quilômetros finais, upa! Velho se mete ou não a besta?
Só terminei porque aprendi a não ser besta. Em outras palavras, controlar a respiração e o batimento cardíaco,  tecnica quetodos deveriamsaber de cór e salteado
A bem da verdade só conseguir chegar lá em cima porque boa parte da subida fui conversando com um garoto que subia correndo a pé. Nos km finais, subida íngreme, ele subiu mais rápido e aí tive que me concentrar para controlar meus parâmetros e não parar.

Final de dia. Escrevo este texto. Tenho que dormir para acordar cedo, mas o fogo no rabo não deixa. Fico repassando cada metro da pedalada. Delicia! Quando vou de novo? Qual a próxima besteira (para os outros) vou fazer?

Vivam, é o recado aqui. 
O Pico do Jaraguá está ali. Eu deveria ter aproveitado muito mais.
O Parque do Ibirapuera só fui curtir muito depois do que poderia.
Comecei a correr a pé muito tarde. Poderia ter feito várias São Silvestre. 

Quanto perdi nesta vida por besteira. Deveria ter entendido de outra forma o "Velho não se mete a besta". Não se mete a besta deixando a vida passar.

Vai viver, se meta a besta. Faça, mas faça corretamente.