segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Não entrar em pânico

Todo mundo do jornalismo neste verão está dando matérias sobre afogamentos, que vem acontecendo sem parar. Sei como é. 

Meu irmão, 10 anos mais velho e com um fôlego impressionante, brincava comigo de 'tubarão'. Como ele conseguia com certa facilidade cruzar por baixo d'água uma piscina de 50 metros, a brincadeira era me pegar pela perna no meio da piscina e levar até o fundo. Depois de engolir muita água, aprendi a me controlar e ser afogado sem maiores consequências.
Talvez ele quisesse de fato me matar, coisa de irmão, posso dizer, um irmão que não trocaria por nenhum outro. Gente finíssima. Querendo ou não matar o pentelho caçula, Murillo me ensinou a manter a calma, essencial em qualquer situação de emergência. 

Quem estuda ou trabalha com segurança no trânsito, ou seja, sabe o que está falando, não tem a mais remota dúvida que perdeu a calma piorou a situação. Para ciclistas esta verdade ganha outra escala. A base do equilíbrio sobre uma bicicleta está intimamente relacionada com o grau de relaxamento do ciclista. Portanto é princípio fundamental para a segurança do ciclista.

O 'tubarão' de meu irmão me deu um legado para o pedal: aprendi a sempre buscar por onde posso fugir de um possível acidente, ou qual a rota de escape para não se machucar. 
Da mesma forma que quando Murillo me segurava a perna aprendi que tinha uma fração de segundo para pegar ar e preparar para submergir, eu pedalo olhando para onde posso ir e quanto tempo vou ter para reagir. Funciona. É uma fração de segundo, mas me treinei, então é uma longa fração de segundo. 

Infelizmente brasileiro não é obrigado a fazer treinamentos continuos de segurança, aliás, não está nem aí para segurança. Vivemos na irresponsável ilusão do "comigo não vai acontecer nada". 

No Youtube tem um exemplo interessante. Mostra duas evacuações de emergência em aviões, uma com passageiros norte ocidentais, americanos ou europeus, não me lembro. O outro com passageiros japoneses. Nos dois é feito o aviso de evacuação pelos tobogans. No grupo de ocidentais, depois do aviso todos se levantam e se preparam para deixar o avião o mais rápido possível. No japonês, a aeromoça pede que todos permaneçam sentados e só saiam depois que forem chamados para sair, e eles atendem ao pedido.
Qual evacuação foi mais rápida?

Pela manhã fui visitar uma prima. Não pude subir porque o elevador parou de funcionar com uma babá e um bebê dentro. Foi duro controlar a babá, que não demorou muito foi retirada, aliás, por mim. Sentada, começou a ladainha de discurso que era um perigo, podia ter morrido, que elevador cai... 
Eu e o zelador, com quase 30 anos de casa, tentamos convencê-la que elevador é seguro, mas... Ela só acalmou quando perguntei quantos anos ela tem (já é uma mulher feita, uma senhora) e quantas vezes ela soube de histórias de elevadores caindo. Acalmou de vez, um pouco acabrunhado, quando eu disse que o elevador não iria muito longe: estava no térreo, ou fim de linha.

O tempo de evacuação dos japoneses foi muito mais rápido que dos 'bem educados' ocidentais. As duas situações são reais.

Aviso, mesmo os treinados tem medo. A diferença é que o treinamento leva ao controle do pânico, este sim muito perigoso.

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