terça-feira, 11 de abril de 2023

O futuro está nas bicicletas... elétricas

Fiquei no Leblon, Rio de Janeiro, e pasmei com a quantidade de bicicletas elétricas circulando pelas ruas, avenidas ou estacionadas a céu aberto com fortes travas. Como este canto da cidade é plano muitas destas bicicletas elétricas tem um assento sobre a roda traseira ou bagageiro e é comum ver duas pessoas na mesma bicicleta. A posição do ciclista em boa parte das bicicletas cariocas é baixa, bem diferente das usadas em São Paulo que via de regra se parecem mais com bicicletas normais. A razão para estas diferenças é simples: ali é plano e preguiça.   
Olhando todas as elétricas que passavam ou estacionavam na padaria em que eu tomava o café da manhã e vendo que para cada muitas elétricas apareciam uma ou outra bicicleta normal fiquei preocupado. Todos os relatórios e notícias que têm sido divulgados apontam que o futuro é das bicicletas e dos patinetes elétricos. O investimento mundial nas mobilidades elétricas será pesado, já nas do arroz com feijão praticamente zero, diz um estudo longo e bem estruturado do UBS, Union Bancaire Suisse, um dos cinco maiores bancos do planeta. 
 
Tanta bicicleta elétrica será por causa da novidade? Ou bicicletas convencionais passaram a não ser tão interessantes assim? "Precisa pedalar, que saco". A bem da verdade não é novidade que qualquer motorizado leva vantagem sobre os modos movidos a arroz com feijão. Vide o sucesso do automóvel. 
Por outro lado, existe a questão macroeconômica. Bicicletas são um péssimo negócio porque geram pouco capital direto e indireto no negócio 'bicicleta' em si. A fabricação é fácil, o custo para o comprador é baixo, a manutenção é pequena, o número de empregos gerados diretamente é baixo e com pouco valor agregado...

Qualquer negócio "elétrico" é mais rentável, gira mais dinheiro, emprego, alcança setores produtivos que a bicicleta mecânica não entra, dentre outros. Com certeza, muito mais, mas muito mais mesmo, em sua cadeia de produção, distribuição, energia, e a cadeia direta e indireta de manutenção é muitíssimo mais vasta e com valor agregado completamente diferente. Ademais, emprega e mantem os que vierem do setor de bicicletas mecânicas, arroz com feijão. Faz toda diferença, os interesses são outros, muito maiores, pensando bem até um tanto relacionados com os setores automobilístico e motociclístico. Bingo!
 
Bicicleta tradicional é um negócio enxuto, seus benefícios, que são muito maiores que os custos, são difíceis de apresentar ao grande público, muitos deles complicados de calcular porque extrapolam e muito o âmbito direto do uso da bicicleta. Como se diz aqui no Brasil "é como esgoto: político não gosta porque ninguém vê (os inúmeros benefícios indiretos da bicicleta)". Mas os benefícios da bicicleta tradicional, arroz com feijão, são reais? Sim e estão mais que provados, mesmo assim não é de fácil compreensão e aceitação.

Fato é que todo deslumbre, como este que o planeta está tendo com todas as mobilidades elétricas, tem sua hora para acabar e seu preço. Ninguém está falando sobre os custos de produção, o descarte e o impacto ambiental causado pelas baterias elétricas, dentre outros.
Vamos ver onde vai parar esta história. Fato é que por enquanto eu não usaria o tradicional ditado: "Ao socialismo se vai em bicicleta", ou, como eu gosto de refrasear "Aos benefícios sociais se vai em bicicleta (não motorizada)" por uma única razão: elétricas são para quem tem bolso, disto não tenho dúvida, e esta brincadeira, que de brincadeira não tem absolutamente nada, vai abrir mais ainda o abismo social. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Road bike 56? Não deveria ser uma 58?

"Bicicleta é como sapato: o tamanho tem que ser o correto ou vai dar problema". A frase é do Luiz Dranger e acerta na mosca. Eu acrescentaria que além do tamanho tem que ser definida para o uso correto, de novo, exatamente como num sapato ou tênis. 
Em qualquer boa loja de tênis o cliente é enchido com perguntas para definir o que ele vai levar. Óbvio que se for um tênis mais caro melhor para a loja, portanto eles puxam a sardinha para o lado deles, afinal negócio é negócio e ponto final.
Já no caso das bicicletarias, pelo menos em grande parte delas, o negócio é vender o que se tem no estoque, não importando muito se vai ser "um pouco diferente" do que o cliente realmente precisa. É fácil encontrar pelas ruas absurdos rodando com ciclistas felizes. Não comente ou vai ouvir um "...não! Está ótimo. A bicicleta é correta para mim... O dono da bicicletaria disse".

Sempre que vejo estes absurdos lembro de um nissei que pedalava com nosso grupo numa mountain bike tamanho 22. Eu tenho 1,85m e mal consigo subir numa 22. O simpático nissei devia ter algo entre 1,60m ou 1,65m, se tanto. Pedalava na ponta dos pés sambando no selim completamente esticado para frente e que ninguém falasse uma palavra sobre o tamanho da bicicleta que ele perdia seu quase eterno bom humor.
Hoje um absurdo como este é muito mais raro de se ver. Comum é ver mulheres pequenas pedalando em bicicletas que são um pouco grandes para elas e que poderiam ficar muito mais cômodas se a bicicletaria tivesse o cuidado de trocar o avança de guidão por uma mais curto, por exemplo. Mas... como já disse o negócio é vender e ponto final. A bicicleta saiu da bicicletaria não é mais problema deles.
 
Estou falando sobre bicicletas mais baratas, mais comuns, de passeio ou mountain bike urbano. Bicicletas básicas, as populares, costumam só ter um tamanho, 19, daí parte dos problemas. Quando vamos para as bicicletas caras, principalmente as de estrada, o tamanho faz toda diferença. Via de regra as bicicletarias vendem a bicicleta correta até porque a concorrência é muito grande e fazer besteira é dar tiro no pé, mas pilantragens acontecem.

- Tamanho 56? Como assim tamanho 56? Eduardo é um pouco mais alto que eu, portanto no mínimo 58.
- Foi comprada na... (não vou citar o nome da bicicletaria, depois explico). Eles fizeram bike fit. Eles sabem o que fazem.
- OK! Vai nesta.

Prefiro não citar o nome da bicicletaria porque não é caso isolado, muito pelo contrário, mas reflexo de nosso mercado. Como conheço a seriedade dos proprietários acredito que um funcionário pensando em sua comissão vendeu o que não devia. 
Certo é que o povo vai atrás do que dizem os ditos entendidos, então "aquela bicicletaria", qualquer que seja, é "a" bicicletaria, aqueles são "os" caras, e não ouse dizer que não é bem assim. Bicicletaria da moda já teve aos montes, boa parte delas tiveram vida curta. As que são sérias permanecem. Faça sua escolha.

Faz muito tempo, já nem me lembro mais quando, escrevi exatamente sobre esta mesma questão. A diferença é que naquela época tudo era mais ou menos uma novidade. Agora os novatos no ciclismo têm suas vacas sagradas e seus (semi-)deuses, aqueles de quem ninguém pode falar mal ou contradizer. Nada que um pouco de leitura não possa resolver.

Terminando com a mesma ladainha: teste várias bicicletas antes de comprar, se tiver condição tire da cabeça a marca da bicicleta. Tamanho e para que uso corretos. Custo/benefício! Controle-se e tire o status da frente. Entre em várias bicicletarias para sentir. Pergunte a quanto tempo estão no mercado, quem são os proprietários, mecânicos. E acima de tudo não vá na conversa de novatos ou coisas da moda. 
 
Bom pedal.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Rebiboca da parafuseta

As trocas de marchas no câmbio traseiro começaram a ficar imprecisas de uma forma que minha experiência sabia que a cabeça do cabo estava esgarçando. Encontrei uma bicicletaria aberta, entrei, pedi para o mecânico trocar o cabo "que está para estourar", o garoto soltou os conduites do quadro, olhou o cabo inteiro e disse que não era o cabo. Pedi para ele abrir a tampa do passador de marchas, ele o fez, e lá estava a cabeça do cabo esgarçada. Ele sorriu um pouco envergonhado.
A troca foi rápida e aí veio o ajuste fino. Como é comum entre os mecânicos de bicicleta, o jovem mecânico passou a girar o pedivela rapidamente trocando as marchas para cima e para baixo, de vez em quando fazendo um ajuste fino no câmbio. Não dava ajuste fino nas marchas mais leves, as coroas grandes. Ele parou, olhou sério para mim e disse que não conseguia ajustar porque "Ou o câmbio está torto ou está desalinhado". Não disse nada, agradeci a troca do cabo, paguei, e sai da bicicletaria do jeito que estava. 
Na esquina parei, engatei a correte na antepenúltima marcha, a terceira maior, me ajoelhei atrás do câmbio, girei o parafuso de ajuste do cabo até a polia superior ficar alinhada com os dentes da marcha, exatamente como manda o manual da Shimano. Problema resolvido. Todas as marchas funcionam.

Segui viagem pensando neste história toda. Conheço aquele mecânico e sei que ele tem prática, trabalha numa bicicletaria que cresceu, ficou bacana, tem uma oficina organizada, boas ferramentas, deve ter bastante cliente. Não faço ideia se o que aconteceu foi por falta de conhecimento do Manual Técnico da Shimano, o que é estranho porque todas peças originais vem acompanhado com um, ou se uma espécie de engana bobo. Um leigo vendo o mecânico girar rápido o pedivela enquanto ele troca marchas talvez fique admirado, o que talvez facilite a venda de um câmbio novo, o que de passagem me foi oferecido. 
Pensando nesta técnica (técnica?) de ajustar o câmbio traseiro me veio à cabeça que nenhum ciclista gira os pedais e troca a marcha tão rápido e com tão pouca pressão sobre o sistema. Quando se troca a marcha de uma bicicleta a corrente está tensa, sofrendo a força do pedalar, por menor que seja. Girando na mão com a roda solta no ar a corrente trabalha sem forças agindo sobre ela. Não faz sentido esta técnica de ajuste fino do câmbio tão comum entre mecânicos.

Para quem faz mecânica quanto mais rápido e correto o serviço maior é o lucro. Olhar por trás da relação de marchas, girar o parafuso de ajuste do cabo e alinhar a corrente com o dente da marcha é muitíssimo mais rápido e eficiente que ficar girando o pedivela feito um louco. Aliás, repito, o certo é seguir o que a Shimano recomenda em seu manual. Ponto final.

Adoro o som da expressão 'rebiboca da parafuseta'. Virou popular depois de uma propaganda na TV. Por outro lado rebiboca da parafuseta é a forma mais simples, comum e eficaz de pegar trouxa. O que já me tentaram empurrar troca de peça é fora de série. Em vez de empurrar eu tinha escrito "dar golpe", como diz um amigo, e de fato não é empurrar, mas dar golpe, enganar, agir de má fé, verdade seja dita. Não dá para colocar nos termos de "ignorância", porque não é, é inaceitável que seja. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Enfim o fim da relação Mega Drive

Entrei na Decathlon para ver o que havia de novidade nas bicicletas e dei com as novas relações de câmbio traseiro que foram lançados pela Shimano. Ótima notícia: acabou a maldita catraca Mega Drive de 7 velocidades e sua reduzida de 34 dentes. 
Os 10 dentes de diferença entre a de 24 para a de 34 na Mega Drive faz com que o pedalar tome um tranco ao mudar a marcha. Se na marcha de 24 dentes está muito pesado pedalar, quando se engata a marcha seguinte de 34 dentes fica muito leve. 
As catracas de 7 marchas tradicionais tinham um escalonamento mais suave, agradável, e o pulo era de 4 dentes, de 24 para 28 dentes, menor poder de subida que a de 34, mas muito mais agradável para a musculatura. Nunca gostei de Mega Drive, troquei todas que pude pela catraca normal, estou em festa pelo seu fim.
No Mega Drive é praticamente impossível conseguir uma boa regulagem do câmbio com trocas de marchas precisas e suaves com em qualquer outro SIS da Shimano. Um amigo comprou uma bicicleta nova para mulher e pediu ajuda com a regulagem, fui lá e fiquei com cara de bunda porque simplesmente não consegui fazer a porcaria do Mega Drive funcionar direito. Conversei com um mecânico que dá aulas, ex Shimano, cara respeitadíssimo no mercado, ele riu e disse que não tem jeito, é uma porcaria. Enfim deram fim.
O que tudo indica é que a Shimano está no caminho de aposentar inclusive os câmbios de 7 marchas para ter como o mais básico o de 8 marchas. Se fizerem é medida mais que sábia. O escalonamento final fica com 24, 28 e 34 dentes, ótimo, já existente no mercado, provado e aprovado. 
O interessante é que vi bicicletas com 9 marchas atrás e uma única coroa na frente, talvez onde a Shimano queira chegar. Tom Ritchey estava certo quando ainda na década de 90 disse, para o espanto de todos, que o futuro seria 12 marchas atrás e ponto final. Bom escalonamento das marchas, ou seja, a musculatura trabalhar sempre mais ou menos com a mesma força e o giro da perna não sofrer grandes variações é a melhor forma do ciclista ter bom proveito de sua energia, e uma sequência de marchas contínua, sem trocas no câmbio dianteiro, é o melhor, mas...  
Fato é que a imensa maioria dos ciclistas amadores não sabe usar o câmbio dianteiro. Colocar uma coroa só na frente é a lógica, resta saber se para o mercado ou do mercado. 
Só vejo um problema em toda esta história: como a maioria também não sabe ou não usa sequer o câmbio traseiro e no geral pedala no plano usando uma marcha só bato uma aposta que estas mudanças tem a ver com vida útil da relação traseira, afinal os fabricantes vivem de vendas, e quanto mais dura, menos vende; ou, quanto menos dura maior o lucro.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Garfos desalinhados e o leitão

Conhece-se o restaurante pelos talheres colocados á mesa. Pode até ser de qualidade popular, mas jamais ter garfo despenteado ou torto, aquele que cada ponta aponta para um lado, uma para a garganta, uma para a boca, outra para o nariz e finalmente uma para os olhos.
Nunca confie numa refeição que se aproximando da língua e suas papilas gustativas sem saber se será palatável, mastigável, e principalmente deglutida. Comer além de alimentar, pressuposto básico, e fornecer algum prazer, do contrário a probabilidade de que você termine empoderado num trono será razoável.
O mesmo pode-se dizer de bicicletas nas quais cada roda quer ir para um lado. Via de regra a culpa é do garfo (da bicicleta). O mínimo que se espera desta máquina de transporte maravilhosa, a bicicleta, é que quem esteja no comando seja você e não um garfo torto. É fácil sentir o desajuste, não só porque a bicicleta luta desesperadamente para levar seu senhorio para um dos lados, ou para um poste, meio fio. até mesmo às grades do carro que vem na contramão. Não solte a mão do guidão, não ouse fazê-lo, tombo na certa.
Garfo desalinhado na boca, entre as pernas, ou quer que esteja nunca é bom negócio.

É lógico que há marcas de bicicletas de tão baixo calão nas quais, talvez por uma questão de design pós industrial ligado a cultura do descarte, o quadro visto de cima tem o charme estético de uma meia lua. São bicicletas excelentes para pedalar em rotatórias. Mas, senhoras e senhores adeptos do surrealismo, via de regra o desalinhamento do rodar da bicicleta se deve ao garfo mal mal fabricado.

Aquela bicicleta novinha está linda. Já passou por mim várias vezes. Quadro em cor viva, das que me agrada muito, sem uma marca, um grafismo limpo. Garfo preto. Rodas 29, peças pretas, nada de frufrus, só o básico essencial, chique. Mas voltou ao mecânico e perguntei porque. "Porque?!" respondeu na gozação o mecânico, me colocou a bicicleta na mão e subi nela. Bastaram uns poucos metros pedalando, não mais que uns 10, e meu veredito estava formado: garfo torto! Barbada! Na mosca! "Bicicleta caranguejo, sai de mim, vá de retro!"
Mecânico rindo, parei a bicicleta, soltei a blocagem para o prazer dele, mecânico, e tentei alinhar a roda no garfo. Ai é que a roda ficou mais desalinhada ainda.
- Como assim, bicicleta novinha veio com este garfo?
- Está na garantia" responde o mecânico e completa, Não é este garfo, é um monte de garfo que vem assim, uma vergonha. Daí você entrega a bicicleta para o cliente e ele fica bravo, com razão.
- Mas como pode uma coisa destas sair da fábrica, ser vendida pelo distribuidor, pela bicicletaria, e pior, ser aceita por muito proprietário que se diz ciclista?
- Ora, pode, e como pode! Afinal, posso estar louco, mas estamos no Brasil, termina o mecânico.

O jantar era de gala. A fina dama da sociedade serviria um leitão ao forno. Deixou a criadagem trabalhar, mas teve cuidado especial com a nova empregada. "Antes de levar o leitão à mesa coloque uma maçã na boca (do leitão, é lógico). E como pedido pela senhora o fez: entrou carregando a maravilhosa bandeja de prata com o leitão que deliciava a todos com seu aroma e uma maçã na própria boca. (Baseado em fato real)
Eu não estava lá, mas ouvi a história da anfitriã. Os convivas se contiveram. 

Fui convencido a não ficar gastando meu tempo tentando explicar porque tem que ter qualidade ou é fácil sair pedalando numa bicicleta que insiste ir para os lados. Não é só isto, quanto mais alinhada, qualidade básica, melhor a bicicleta roda. Geralmente o desalinhamento vem do garfo, resultado de um erro grosseiro de fabricação. Caso tenha que substituir o garfo é um drama conseguir um novo que esteja alinhado. 
Tem muita gente que acharia interessante, senão normal, a maçã na boca da pessoa que serve o leitão. Vai fazer o que? 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

Câmara com sete remendos e sete vidas

Contei 7 remendos, eram 8, furou mais duas, agora são 10 remendos

Sempres evitei usar uma câmara de pneu com mais de 3 remendos. Quando fura pela terceira vez faço o remendo, testo para ver como está e uso como estepe. Sem saber estava com uma câmara de seis remendos na roda traseira de minha bicicleta. Descobri por que furou de novo, o sétimo furo. Remendei e ela é melhor que as novas.

Quando você entra numa bicicletaria com um pneu furado via de regra o bicicleteiro troca a câmara por uma nova. A razão é simples: praticidade, tempo de serviço, em outras palavras, menor custo para a bicicletaria do que fazer o remendo. As câmaras furadas vão para o reciclável não importa o tamanho do furo. Ninguém reclama, todo mundo acha ótimo sair rodando rapidinho com pneu cheio. Por um lado, o meio ambiente que se dane, por outro a indústria agradece, e sobre esta bagunça ninguém se importa.

Dependendo da qualidade da câmara o pneu vai perder pressão mais ou menos rapidamente, independentemente de ser nova e nunca ter sido remendada. Quanto mais barata a câmara mais rapidamente perde pressão, esta costuma ser a regra. Pneu com pressão abaixo da recomendada pode furar com mais facilidade, deixa a estabilidade comprometida e até mesmo pode causar acidentes. 

O pneu traseiro é mais propenso a perder pressão porque recebe boa parte do peso do ciclista. É irritante ter que calibrar o pneu a cada semana. Com câmara de primeira linha a calibragem se mantém por longo tempo. Já peguei bicicleta que ficou parada por mais de 10 anos que ainda tinha pressão no pneu, coisa de outra época. 

Tenho por hábito ter câmara nova nas rodas e sempre levar uma câmara reserva comigo. A bicicleta que estou usando é de segunda mão, foi de um amigo. O pneu traseiro dela mantinha a pressão por longo tempo, como deve ser, mas um dia furou, fiz a troca no meio da rua e para meu espanto a câmara tinha seis remendos. Seis remendos? A câmara nova que montei esvaziava mais rápido que a de seis remendos. Agora tem sete, sete vidas, e não perde pressão.

sábado, 13 de agosto de 2022

"Eu só vou dar uma voltinha de vez em quando...." = Lixo-cleta

J é daquelas pessoas que realmente merece o elogio "gente fina". Um dia dei com ele e sua bicicleta saindo para um passeio, e que bicicleta! Nháca! Quadro de alumínio, garfo rígido de aço, aro 26, pneus 1.9 com biscoitos, 21 marchas - opa! não - 18 marchas não indexadas... Nháca! Típica bicicleta do sujeito que entra na loja, olha, olha, pergunta o preço de tudo, acha tudo muito caro (?), olha as baratinhas, as montadas com um mix de peças de segunda linha (?) e compra. "Eu só vou dar uma voltinha de vez em quando...." 
Não sei como esta bicicleta entrou na vida de J, mas algo que me diz que não foi ele que comprou. J é um cara inteligente, culto, isto sei, e não cairia numa destas. Agora, milhões de brasileiros compraram milhões destas bicicletas que estão empoeiradas ou literalmente jogadas no lixo, um crime contra a economia popular que venho denunciando faz décadas. 

Peguei a lixo-cleta e a levei para casa para dar um tapa, e foi mais uma lição nesta longa vida de bicicletas. 
Detalhe: a lixo-cleta foi bem pouco usada
  • roda dianteira - eixo preso, de baixa qualidade, raio estourado, fita de aro fora do lugar, a bem da verdade nada demais e fácil de resolver. Com um pouquinho de sobra no ajuste do cônico vai dar para rodar
  • roda traseira - cubo roletado que já está com defeito, dando uns estalos altos; catraca de seis marchas não indexada e marca desconhecida, aliás, sem marca. Câmbio o mais básico possível Yamada com um posicionamento da polia superior muito distante da relação de marchas o que causa grande imprecisão na troca de marchas. Aro desalinhado, em razão de um acidente com a bicicleta; não consegui alinhar.
  • todos raios e niples oxidados. Oxidação é o que não falta pela bicicleta.
  • pedivela com aparência de coisa boa, mas não indexado, ou seja, da coroa pequena para a média a corrente subia; da média para a grande nem com reza brava. Mesmo com um câmbio dianteiro e corrente Shimano. Por incrível que pareça, o movimento central é selado, e confesso que esta sofisticação no meio de tanta enganação não entendi
  • passadores de marcha da Yamada, que conheço, são muito simples, de aparência igual a dos Shimanos, e funcionam; ou pelo menos deveriam funcionar caso o resto do sistema fosse compatível, mas no meio daquela bagunça servem para enganar os leigos.
  • troquei a catraca / relação de marchas por uma Shimano indexada, mesmo assim...
  • a corrente que veio na bicicleta não era indexada, no clique simplesmente não passa as marchas.  Instalei uma corrente indexada da Shimano já sabendo que o sistema não funcionaria por causa dos câmbio traseiro e pedivela não compatíveis. A culpa não é do passador
  • tive que trocar o avanço que estava lá por um mais curto e ali ficou claro que a bicicleta foi montada sem graxa. Muita oxidação
  • carrinho de selim não aguentou sequer o peso de J que é para lá de peso pena.
  • tenho que reconhecer que a bicicleta tem a qualidade de ser alinhada, o que nestas lixo-cletas definitivamente não é comum. Ótimo, não tive que alinhar o garfo.
O que quero dizer com tudo isto: olhando de longe a bicicleta em alumínio não pintado parece coisa boa. De perto até engana leigos. Mas quando se coloca mão na massa a coisa fica feia. E tem bicicleta sendo vendida que é muito muito pior. Bicicletas "me engana que eu gosto" são ruins de pedalar, desestimulantes, mais ainda, para lá de perigosas. 

Hoje em dia mesmo as bicicletas mais simples, montadas com peças as mais básicas, tem uma qualidade muito melhor que as antigas. O pessoal está pedalando muito mais e com isto procurando informação antes de comprar. Parabéns! Estão fazendo o óbvio.