quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Indústria de ponta? Por que uma bicicleta pode custar tanto?

O que é uma indústria de ponta? Ou para que serve? "É o setor responsável pelo desenvolvimento de produtos e serviços de alta tecnologia", diz uma pesquiza. E eu coloquei a pergunta 'para o que serve?' porque tem quem só consiga vê-la como criadora de produtos sofisticados para a classe A. Sim, quem olha por este lado tem lá sua razão porque um produto de ponta, para valer, custa caro, muito caro, por diversas razões, mas principalmente porque só pode ser produzido envolvendo inteligencia e mão de obra muito especializada.

Por que uma bicicleta pode custar tanto? Não só escala de produção baixa, mas materiais usados raros e caros, transformação destes materiais complexa, mão de obra diferenciada, e, porque não dizer, clientela também diferenciada, que pode pagar ou paga sem pensar. Indústria de ponta, para valer, tem em seus custos detalhes que vão muito além dos custos de produção. Pesquisa, por exemplo.

A equipe olímpica de ciclismo de velódromo da Inglaterra usou em 1992 a Lotus Sport Pursuit Bicycle, ou Lotus Type 108, um modelo em monocoque de fibra de carbono, aerodinâmico, desenvolvido com auxílio inclusive da equipe Lotus de F1. Foi publicado que as primeiras 16 fabricadas custaram U$ 1 milhão - da época e na época um valor completamente absurdamente alto. Anos mais tarde o modelo foi colocado em produção, o que para a história da bicicleta interessa menos que as mudanças introduzidas: uso de fibra de carbono e necessidade de estudos aerodinâmicos. Monocoque para bicicleta acabou abandonado.


Time Bicycles é, faz muito, uma marca topo de linha no mundo das bicicletas. São maravilhosas. O vídeo sobre a linha de produção deles é um dos disponiveis sobre a fabricação de bicicletas de ponta. 
O vídeo sobre a produção da Bastion Cycles, um dos brinquedinhos mais sofisticados e caros do mercado, é impressionante. Eu nunca tinha visto e não fazia ideia de como funcionava uma máquina de corte das laminas de titânio para construção 3D de peças, no caso os cachimbos.

O mundo da alta tecnologia é facinante, não só para quem gosta, mas para leigos. Teresa, do Saia na Noite, ficou maravilhada com o vídeo sobre a fabricação dos Bentley, automóvel de altíssimo luxo onde, junto com alta tecnologia, entra na produção artesões que tem uma qualidade de trabalho de uma precisão para mim inexplicável. 

A fabricação das bicicletas de ponta está baseada na precisão em todas as etapas do processo, funcionários com alta qualidade de resultados, e um sistema de controle final apuradíssimo. Outro dia vi um documentário sobre uma tradicional e respeitadíssima fábrica de pedais japonesa, que trabalha ainda com metodos tradicionais de produção, mas com precisão de 0,01 mm. A diferença para uma fábrica como a da Time é muito grande, mas o resultado pode ser resumido na disciplina de seus funcionários. Os eixos de pedal são ajustados um a um por dois funcionários, o primeiro faz um ajuste que até pelo vídeo é possível ver ser mais preciso que o usual do mercado, e um segundo funcionário faz um micro ajuste para que o pedal gire completamente livre. Numa fabrica moderna quem dá este ajuste é uma máquina. Os funcionários ajustadores são mágicos artesões, que só vendo pessoalmente para entender.

Se um dia tiver a oportunidade, entre numa bicicletaria de ponta e peça dois cubos de roda, um normale outro de alta tecnologia. Sim, cubo de roda, não me pergunte porque chamamos de cubo o conjunto eixo, rolamentos, bacia e cônico, montados num cilindro com pontos para fixação dos raios. Simplesmente não é um cubo, mas se diz cubo de roda. Vai entender.
Voltando, peça para comparar dois cubos de roda, um normal com um ponta de linha. Gire o eixo na mão. Vai descobrir o que é precisão, tecnologia de ponta, fabricação de qualidade ou alta tecnologia. Se for de alta tecnologia para valer haverá uma enorme diferença no peso.

Quanto pesa uma Time? Ou uma bicicleta profissional? Não vi, mas provavelmente deve estar por volta do limite de peso dado pelas regras de competição oficiais da UCI, 6.8 kg.
Peso faz diferença? Sim, bastante, mas não é só o peso, o atrito faz muita diferença. Reduzir peso e atrito nas e das rodas dá muito mais resultado do que reduzir o peso geral da bicicleta trocando peças não móveis. 




Diminuição de peso só é possível com tecnologia pura, ou a redução do peso acaba comprometendo a resistência. Já vi teste de bicicleta de 3.4 kg, que não demorou muito para ter uma peça quebrada. 

  


https://youtu.be/iAYM9AkqbAE?si=9vwOM-y9HmE1N-sF

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sobre a "Carta Aberta à Comunidade Ciclista - Princialmente a quem usa a Ciclovia Rio Pinheiros

"Sobre a "Carta Aberta a Comunidade Ciclista - Principalmente a quem usa a Ciclovia Rio Pinheiros
Com muita tristeza começamos a semana trazendo um posicionamento necessário"





Não copiei o que publiquei neste Instagran. Quando fui copiar, não dava mais. Vou comentar na mesma linha de pensamento.

O problema que se tem na Ciclovia do Rio Pinheiros, e diga-se de passagem não só lá, vem de longo tempo. Primeiro foi o Pelotão da Morte nas marginais, depois o mesmo dentro da USP Butantã, e agora esta nova geração de (ditos) ciclistas muito agressivos. A bem dizer, antes do Pelotão da Morte já aconteciam situações com ciclistas normais, de rua, que de certa ocorreram de forma semelhante aos que quem se reclama hoje. Ou seja, o problema vem de muito longe.
De certa forma estes ciclistas, ou melhor, esta forma de ciclismo, de uso da bicicleta, ganhou força e se estabeleceu muito em razão do apoio que tiveram no passado do movimento da bicicleta, quando os que reclamavam do comportamento deles nas marginais eram pesadamente criticados, quando bateram de frente contra o fechamento da USP, e outras tantas situações mais nas quais o lutar pela causa da bicicleta não se importando com "detalhes" foi muito mais importante que o que estava envolvido ou ouvir o outro lado. Ou seja, este tipo de mau comportamento de hoje tem um aval dado no passado. Para piorar, agora vem de uma geração muito mais numerosa, de um setor de bicicletas muito mais forte, articulado e estabelecido, e principalmente de um nível social, educacional e financeiro, com muito mais poder de posicionamento. 
Se está colhendo o que foi plantado.

Como reverter esta situação? O primeiro passo é deixar de falar em nichos fechados de comunicação. Quer se comunicar com o outro, então procure falar com o outro de forma e maneira que ele entenda e reaja da maneira desejada. 

Não publiquei no Instagran, mas entrar em contato com as bicicletarias e fazer uma campanha conjunta com elas, que são quem tem diálogo com estes ciclistas de comportamento inapropriado, eu diria completamente inapropriado. Contornar o discurso pronto das bicicletarias que "nós somos contra, nós buscamos orientar...", que guardo o direito de pouco crer, pelo menos da forma e com a incisão necessária para a situação, porque perder cliente não deve estar no projeto final de seus negócios.

Frear esta baderna que vivemos é muito mais difícil do que se possa imaginar. Infelizmente os caminhos escolhidos pelo movimento da bicicleta desde seus primórdios tem muito a ver com o que está acontecendo, repito, não só na Ciclovia Rio Pinheiros. 
Do fundo do coração, espero que se faça alguma coisa e que, mais importante, se obtenha algum resultado. Moro ao lado de um dos acessos da ciclovia Rio Pinheiros, uso muito para me transportar, evito entrar em horário de pico, sei muito bem como é. 
Para terminar, e falando como leigo, ou chutando, Brasil não tem um ciclista nas grandes provas, Giro d'Italia, Tour de France, Vuelta de Espanha, dentre outras, muito por conta da mentalidade que se estabeleceu no meio ciclístico daqui, para minha tristeza, não só no ciclismo esportivo.
Os grandes nomes do ciclismo, que temos, são completamente desconhecidos, portanto não são tomados como exemplo, que os foram e os são.  

Não posso deixar de repetir: Não é mais, é melhor, bem feito, com mais qualidade. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Gravel ou uma MTB das antigas?

 


Mesmo que você não entenda inglês, vale a pena ver este Youtube da GCN. O resumo: os três 'guris' (para minha geração de pedal) foram até uma loja de bicicletas usadas e pegaram três MTB 26 das antigas, duas GT e uma Gary Fisher, cromo-molibidênio, V-brakes, etc... Trocaram os pneus por uns estilo 'gravel' (?) e sairam para rodar, para ver como elas se comportam em relação às suas gravel modernas - carbono, freio a disco, levinhas, muitas marchas, aquela belezura de engenharia atual. 

Ainda no começo, mesmo antes de sairem para as trillhas, ou estradinhas de terra, um deles teve a roda dianteira destruída por uma senhora que manobrou o carro em cima da coitada da bicicleta mal estacionada. Que seja. Ele desentortou a roda do jeito que deu, fez uma parte do teste com o V-brake dianteiro solto, e depois trocou de roda. Ai, meu Deus, entortaram um aro dos antigos, folha simples, leves, resistentes, maravilhosos. Quase chorei. 

Não precisa entender o que eles estão falando. Está na cara que durante o teste eles estão gostanto e muito das bicicletas. Em certo momento dizem que funcionam supreendentemente bem. Esperavam o que?

Eu ri muito com os comentários dos três. Como disse no começo deste texto, os 'guris' são de outra geração, não fazem ideia, ou esqueceram, o quão maravilhosas são as velhinhas, principalmente as MTB dos primeiros tempos. 

Nunca pedalei numa destas novas gravel, que devem ser divinas. Mas nunca canso de pedalar as velhinhas, que sempre são surpreendentes. Saudosismo? Não, mas não mesmo. Contei num texto recente que dei uma rápida pedalada numa Konna 26, das ultimas ainda 26, toda Deore, de babar. Tenho uma KHS de..., de..., de... creio que 2005, 27 marchas, cromo, clássica. Mágica, uma poesia, só no pedal para entender. 

Enfim, não vou ficar babando aqui minhas paixões. Só deixo o recado: se você é da nova geração, os guris ou mais novos, e só pedalou uma maravilha qualquer da tecnologia moderna, quando tiver a oportunidade de pedalar uma MTB original dos anos 90, aproveite. Se for do começo dos anos 90, melhor ainda. Vai se surpreender. Os garotos do GCN se surpreenderam, adoraram. 

Aumentar do condutor, como? Qual o valor do equipamento?

 


Tem um documentário sobre segurança para motoristas que no seu finalzinho faz a seguinte pergunta para o maior especialista da época: Qual seria o automóvel mais seguro para os motoristas? Num típico humor britânico, ele solta: O que tivesse uma faca no meio do volante apontada para o peito do motorista. Ele seria mais cuidadoso.

Um amigo, que trabalhou com sistemas de segurança para ciclistas e era motociclista, dizia com toda razão que "O sujeito pode estar dentro de um tanque de guerra. Se ele conduzir errado vai se machucar".

A questão de boa parte dos itens de segurança obrigatórios para qualquer veículo pode ser rebatido sob vários aspectos, todos com base na ciência, portanto em dados existentes. Também poderiam e deveriam ser debatidos e rebatidos sob vários aspectos econômicos e sociais. 
Um ótimo exemplo vem da segurança do ciclista. Capacete melhora a segurança? Bom, é um debate e tanto, mas todos as pesquisas, dados e provas científicas apontam que... depende de diversos fatores e circunstâncias. Muitíssimo mais importante que o uso do capacete é a forma como o ciclista pedala. Mais, numa bicicleta de transporte urbano, onde o ciclista pedala mais ereto, o capacete é praticamente dispensável, por esta razão não é obrigatório em praticamente todas as partes do planeta. Capacete no ciclismo esportivo, onde o ciclista pedala mais inclinado, é outra coisa. Quanto mais inclinada a posição do ciclista, mais importante o uso do capacete. Óbvio que velocidade faz diferença.  

Segurança, a real, é ciência, não tem nada a ver com achismo, falácia ou propaganda.

Verdades estão sendo bombardeadas e no meio desta confusão generálizada pode-se dizer que quanto mais ilusão, mais chique. Ou, "Dane-se, se eu tiver mais, se parecer melhor, e me sentir mais confortável pagando menos, está bom, tá legal".

Quanto mais assessório, mais legal, melhor. Quanto mais assessório, melhor também para a cadeia produtiva, mais trabalho, mais impostos, mais satisfação de quem compra. 
Uma revista especializada europeia, não me lembro qual, apontou que muito mais da metade de automóvel moderno são inutilidades. No caso de um automóvel de luxo as inutilidades, ou coisas que o proprietário nunca vai usar ou nem saber que existe, pode chegar a mais de 80% dos componentes totais. Portanto custos para o proprietário, com algum impacto futuro, impacto sério, não só para ele, mas para toda sociedade. 
Você sabe tudo que seu automóvel tem? Sabe usar tudo?
Pelo menos parece que estão chegando a conclusão que paineis digitais em vez de aumentar a segurança do ciclista, diminuem, e muito. Especialistas falam que estes 'tabletes' no meio do painel são tão perigosos quanto o uso do celular na direção. 

Dados estatísticos confiáveis, colhidos em várias partes do planeta, provam sem deixar dúvida, que a quase totalidade dos acidentes tem por razão o condutor.  Seguem confirmando velhos dados estatísticos. Óbvio que sobre isto ninguém quer falar, não interessa. O negócio é ter proteção contras as próprias besteiras, os próprios erros, bem barato, de preferência.

A declaração do presidente da Fiat foi infeliz porque algumas coisas não se fala em público, vão ser poucos que vão entender o que se está sendo dito. 

Nesta confusão toda vem um detalhe quase esquecido: a cidade. Em cidades que estão preparadas para a vida, a maioria dos itens de segurança de um automóvel são quase inúteis. Um dos principais fatores para determinar se uma cidade está preparada para a vida é a velocidade máxima de todos veículos, que deve ser baixa, própria para escala humana. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Bicicletaria X conhecimento do ciclistas

Uma das meninas que pedalam no Sai na Noite teve seu pneu traseiro deformado no meio de um passeio. Conseguiu terminar o passeio, pediu dicas sobre onde levar a bicicleta para trocar os pneus já bem usados, e fazer uma revisão. Recomendei uma tradicional bicicletaria bem próxima da casa dela, gente que está no mercado faz uns 40 anos ou mais, gente séria, respeitada, que conheço bem. 
Ela levou a bicicleta, pediu um orçamento para revisão completa, recebeu a resposta no dia seguinte: R$ 2.600,00. Ligou para mim, contou, eu quase caí de costas. R$ 2.600,00? Ela contou o que estava descrito no orçamento. A bicicleta, uma 29 meio básica, deveria ser trocada?, perguntou ela. Pelo que me lembrava, não. 

Revisão completa:
desmontar
limpar
lubrificar
trocar todos os componentes, esferas de rolamentos, cabos, conduites
remontar
ajustar
(talvez algo mais que não me lembro)
+
troca de pneus: R$ 360,00
troca de guidão  R$ 900,00

Troca de pneus: R$ 360,00? Troca de guidão  R$ 900,00? Uau? 

Enlouqueceram! Um pouco depois pensei com calma. Primeiro, conheço eles desde o começo, nunca ouvi um senão a respeito da seriedade deles. Então, "vamos com calma, deixa eu pensar o que pode ter acontecido".

Pneus por R$ 360,00. Deve estar incluído aí o alinhamento básico das rodas, e conhecendo o estoque deles digo que o pneu deve ser de qualidade melhor que os mais básicos. Os R$ 360,00 fazem sentido.
Guidão por R$ 900,00, de novo, deve ser um guidão de alta qualidade, caro e provavelmente incluiram aí um bike fit.
Mesmo assim... uau!

Esta bicicletaria tem seu foco em bicicletas de ponta, público seleto (?). Aceitam bicicletas mais simples, até porque não dá para não aceitar, e no passado, lá atrás, começaram como uma bicicletaria normal, não dá para descartar velhos clientes.

A outra questão é o público que eles tem, gente que no geral tem dinheiro e ou não está preocupada com quanto, ou gasta para não ficar mal da fita dos amigos, o que é muito mais comum que se possa imaginar, não preciso dizer. 
De qualquer forma, o orçamento foi um tanto salgado, um tanto pouco realista. 

Vou para o outro lado da questão, os proprietários de bicicleta, ditos ciclistas. 
Conheço um monte de gente que faz questão de levar a bicicleta para fazer revisões periódicas em bicicletarias "de confiança". A maioria é de fato de confiança, boas bicicletarias, sérias, respeitáveis, mas estão lá para trabalhar e ganhar o seu. Se o cliente quer..., fazer o que?
Já passei por situações que amigos próximos, que dizem ter plena confiança em mim, trouxeram suas bicicletas para eu dar uma olhada. Estavam perfeitas, não precisavam de absolutamente nada, avisei com todas letras, mesmo assim acabaram as levando (sem eu saber) a bicicletarias 'chiques', por assim dizer. Não há como, ninguém consigue controlar as neuroses e inseguranças de ciclistas. A bem da verdade estamos numa fase que a falta de controle, a falta de sensatez, virou meio que regra. "Eu sei" está em alta. "Não faça" está em baixa.

O final da história da bicicleta que cito aqui: a dona comprou dois pneus pela internet e quando recebeu eu troquei um, aproveitando para ensiná-la como fazer, que trocou o outro. O guidão vamos resolver depois. 
Bike fit? Desculpem, mas um macaco velho como eu, se não ajusta a posição com a perfeição de um bom profissional de bike fit, chega perto, bem perto. Ademais, algumas vezes tive que refazer o trabalho de profissionais respeitadíssimos porque estes fizeram o bike fit sem levar em consideração a idade do ciclista, uso que faz da bicicleta, e pricipalmente os problemas ósseos / musculares que a vida traz.

Mais uma vez escrevo: a bicicleta tem que funcionar perfeitamente, o que é diferente, muito diferente de ser neurótico. Repito pela enésima vez: Mike Sinyard, criador e dono da Specialized, disse (e provavelmente continua dizendo): "Eu fabrico bicicletas para serem usadas". 

Outro dia soltei numa bicicletaria a deliciosa frase de um cartaz na Holanda: "Nós (holandeses) pedalamos. Americanos usam capacete". O dono não entendeu nada. Então... Bicicleta foi feita para ser usada. O setor de bicicletas brasileiro tem por base o setor de bicicletas americano, ou seja, sobre tudo, negócio. Europeu, no geral, usa a bicicleta até onde for relamente necessário 'dar um tapa nela'. Aqui é relativamente fácil encontrar uma bicicletaria, não tanto quanto farmácias, mas estão por aí. Lá, bicicletarias não são tão faceis de encontrar. Quantas farmácias 24 horas tem Paris? Quando estive lá, faz um pouco mais de 10 anos, uma, sim uma, ponto final. Ou seja, o pensar é diferente. Só lembrando: Holanda fica na Europa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Não entrar em pânico

Todo mundo do jornalismo neste verão está dando matérias sobre afogamentos, que vem acontecendo sem parar. Sei como é. 

Meu irmão, 10 anos mais velho e com um fôlego impressionante, brincava comigo de 'tubarão'. Como ele conseguia com certa facilidade cruzar por baixo d'água uma piscina de 50 metros, a brincadeira era me pegar pela perna no meio da piscina e levar até o fundo. Depois de engolir muita água, aprendi a me controlar e ser afogado sem maiores consequências.
Talvez ele quisesse de fato me matar, coisa de irmão, posso dizer, um irmão que não trocaria por nenhum outro. Gente finíssima. Querendo ou não matar o pentelho caçula, Murillo me ensinou a manter a calma, essencial em qualquer situação de emergência. 

Quem estuda ou trabalha com segurança no trânsito, ou seja, sabe o que está falando, não tem a mais remota dúvida que perdeu a calma piorou a situação. Para ciclistas esta verdade ganha outra escala. A base do equilíbrio sobre uma bicicleta está intimamente relacionada com o grau de relaxamento do ciclista. Portanto é princípio fundamental para a segurança do ciclista.

O 'tubarão' de meu irmão me deu um legado para o pedal: aprendi a sempre buscar por onde posso fugir de um possível acidente, ou qual a rota de escape para não se machucar. 
Da mesma forma que quando Murillo me segurava a perna aprendi que tinha uma fração de segundo para pegar ar e preparar para submergir, eu pedalo olhando para onde posso ir e quanto tempo vou ter para reagir. Funciona. É uma fração de segundo, mas me treinei, então é uma longa fração de segundo. 

Infelizmente brasileiro não é obrigado a fazer treinamentos continuos de segurança, aliás, não está nem aí para segurança. Vivemos na irresponsável ilusão do "comigo não vai acontecer nada". 

No Youtube tem um exemplo interessante. Mostra duas evacuações de emergência em aviões, uma com passageiros norte ocidentais, americanos ou europeus, não me lembro. O outro com passageiros japoneses. Nos dois é feito o aviso de evacuação pelos tobogans. No grupo de ocidentais, depois do aviso todos se levantam e se preparam para deixar o avião o mais rápido possível. No japonês, a aeromoça pede que todos permaneçam sentados e só saiam depois que forem chamados para sair, e eles atendem ao pedido.
Qual evacuação foi mais rápida?

Pela manhã fui visitar uma prima. Não pude subir porque o elevador parou de funcionar com uma babá e um bebê dentro. Foi duro controlar a babá, que não demorou muito foi retirada, aliás, por mim. Sentada, começou a ladainha de discurso que era um perigo, podia ter morrido, que elevador cai... 
Eu e o zelador, com quase 30 anos de casa, tentamos convencê-la que elevador é seguro, mas... Ela só acalmou quando perguntei quantos anos ela tem (já é uma mulher feita, uma senhora) e quantas vezes ela soube de histórias de elevadores caindo. Acalmou de vez, um pouco acabrunhado, quando eu disse que o elevador não iria muito longe: estava no térreo, ou fim de linha.

O tempo de evacuação dos japoneses foi muito mais rápido que dos 'bem educados' ocidentais. As duas situações são reais.

Aviso, mesmo os treinados tem medo. A diferença é que o treinamento leva ao controle do pânico, este sim muito perigoso.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Trocar uma velha 26 por uma 29? Faz sentido?

Ontem, no final do passeio, água de coco, dei com uma menina parada ao lado com uma Kona 26 ano 2009. Eu babei na bicicleta. Quase topo de linha, inteirinha, muito bem conservada, fucionando perfeitamente, pneus um pouco gastos, prova que já foi bem rodada. 
- Estou pensando em trocar ela por uma 29, disse ela. Afirmação clássica. 
- Não faça isto. É uma Kona, você não vai conseguir uma bicicleta com a mesma qualidade.
- Mas eu preciso trocar os pneus (?). Então é melhor trocar por uma 29. (Upa!) Pensei em comprar uma Specialized, terminou ela.

Eu parto desta conversa.
Kona é uma marca canadense de bicicletas, de excelência, tenho a dizer. Babo nas Kona, e só não tenho uma porque... boa questão, por que? Ok, são um tanto rígidas para mim. Tenho desde a adolescência tenho problemas de coluna e preciso de quadros que tenham resiliência que suavize minhas dores. Konas são rígidas, muito precisas, com uma resposta incrível, e com fama de indestrutíveis. A menina deixou que eu desse uma voltinha com a Kona dela e fiquei mais ainda alucinado com a bicicleta. 
Eu trocaria aquela Kona por uma bicicleta atual, qualquer que seja no mesmo nível? Nunca! "Mas é 26" dirão. Melhor ainda, além de rodar maravilhosamente bem, interessa menos aos ladrões e assaltantes. Mais, aquela Kona é 2009, ainda de uma época que as bicicletas eram feitas para durar, durar, durar... Trocar por uma atual que é feita para vender? Nunca!

Já contei aqui que Luiz Dranger perguntou ao Mike Sinyard, o criador e então dono da Specialized, se deveria trocar a bicicleta por uma nova. Sinyard foi muito claro: não troque, porque bicicletas com a qualidade da sua nunca mais serão fabricadas. 
Posto isto, reconheço que este texto é a repetição de outros que postei. Não importa, vale sempre lembrar. Então vou aos detalhes.

A menina, linda por sinal, é alta. A Kona é correta para ela, o que não é comum para mulheres altas porque elas costumam ter um cavalo, ou tamanho das pernas, muito alto. A Kona, maravilhosa, é perfeita para meus 1.83 m., o que ficou claro quando fui dar uma voltinha. Está equipada com Shimano Deore de ponta a ponta, funciona com uma precisão deliciosa. Pneus? Eu nunca trocaria aqueles pneus "gastos" ou "carecas", não me lembro como ela se referiu a eles. Vão rodar ainda muitos anos, e rodam maravilhosamente bem, melhor que os atuais.

Uma das meninas com quem estava pedalando tem uma Trek um pouco mais antiga que a Kona em questão, também 26. Deve ser 2003, ou por ai. Está com os pneus originais, Bontrager, e só agora, naquele passeio, o pneu traseiro tem que ser trocado porque deformou um pouco, provavelmente por excesso de pressão.  Não fosse isto ainda durariam anos. Pneus mais velhinhos tem que ser calibrados com uma pressão um pouco mais baixa por precaução. O limite é 65, como neste caso, coloca 45 que está ótimo, ou 40, melhor ainda. Ou seja, duraram mais de 20 anos, e com cuidado durariam mais 5 ou 10 anos, e vou dizer, muito bem rodados. Pneus que se vendem hoje vão durar isto? Definitivamente não creio. 

A calhordice que a menina não entedeu, mas disse nas meias palavras, é que algum malaco de loja quis fazer uma venda, empurrar uma Specialized. Espero que ela tenha ouvido minhas palavras e visto minha baba caindo da boca quando olhava para a maravilhosa Kona. Infelizmente não sei quem é a menina, mas se ela tiver ideia de girico e decidir vender a Kona, eu quero! Espero que não venda.

O sonho de consumo continua sendo uma "Specialized". Não meu. Explico. Specialized é uma marca maravilhosa, talvez com a história mais brilhante destas últimas décadas. Fabricou bicicletas e peças incríveis em todos níveis, das básicas às top, mas faz certo tempo que teve que rever princípios em relação as bicicletas básicas e médias, e já não há mais a diferença gritante que havia no passado. As top de linha é uma outra história, são top. O resto entrou na concorrência, quando não pior que a concorrência. Specialized, as normais, vendem porque tem o nome gravado na cabeça do povo. É uma opção? Sim, mas agora nada mais que uma opção, a não ser que se vá para as caras, daí é uma boa ou ótima opção.
O que quero dizer com isto, repetindo mais uma vez, é que não se iluda com nomes ou diz-que-disse. Vale para tudo.