terça-feira, 8 de setembro de 2026

Sistemas de marchas únicos do fabricante, e o comprador que se dane

7, 8, 9, 10, 12 marchas, quanto você realmente precisa? Creio que a pergunta não deva ser esta, mas quantas marchas você realmente usa? E para que você as usa? Como a maioria nunca se perguntou, os fabricantes tiraram proveito, criaram sistemas que respondem exatamente o que a maioria do mercado quer, mesmo sem saber exatamente porque e para que serve.

E a pergunta mais importante para os fabricantes: quantas marchas a maioria dos usuários de bicicleta imagina que usa? Quantas marchas é melhor para vender o produto? Então mais e mais marchas.

Quantos são os que conseguem usar um câmbio dianteiro? Escrevi 'conseguem usar um câmbio dianteiro', porque muitos, muitos mesmo, não sabem usá-lo, e estou consciente do que estou falando. Sim, câmbio dianteiro para a imensa maioria dos ciclistas, incluindo competidores, mas principalmente os que pedalam bicicletas urbanas e mountain bikes, sempre foi um problema. Se o câmbio dianteiro ou não é usado ou é chato de usar, por que manter o câmbio dianteiro? Um conjunto de peças a menos para os fabricantes, um custo a menos, um ponto de atração para vendas. Todos felizes para sempre. Happy end.

Quando a Shimano criou o SIS, Shifting Integrated Sistem, a SunRace e a Campagnolo mantiveram seus sistemas próprios, que só funcionavam quando montados com todo o conjunto de peças de suas fabricações. O da Shimano era mais confiável e preciso, e eles dominaram o mercado das básicas e depois o das de competição. Quando SunRace decidiu compatibilizar seus produtos com os da Shimano não só tinha perdido feio a liderança do mercado, como praticamente desapareceu.

E surge a SRAM, que a princípio e dutante um bom tempo foi compatível com os produtos da Shimano. Eles começaram fabricando o Grip Shifit, um passador de marchas muito básico em plástico, simples mesmo, genial, uma prolongação da manópla que trocava as marchas girando a mão. Funcionava maravilhosamente bem. Vendeu muito, a SRAM cresceu, comprou outras empresas, dentre elas a tradicional Sachs Huret européia, e começou a brigar com a Shimano, ou pelo menos tentar. E passou a ser compativel 'pero no mucho' e finalmente entrou no "é melhor não misturar que não vai funcionar bem" ou ainda literalmente "não funciona!, não tem jeito. Não tem mistura". Shimano, Shimano. SRAM, SRAM. E aproveitando o gancho, Campagnolo, Campagnolo, esta praticamente fora do jogo.

A patente da Shimano para algumas de suas peças, principalmente as mais básicas caiu e hoje tem um monte de fabricantes compatíveis com o SIS. O mesmo não acontece para as peças mais sofisiticadas. Aí, cada um cuide de seu pedaço, Faz parte do jogo. E estamos entrando numa era que os grupos de um mesmo fabricante deixam de ser compatíveis entre si. Mais marchas, corrente mais fina...

Como diz este vídeo em sua abertura, "bicicleta era um veículo simples..." Não é mais, pelo menos as mais sofisticadas. As razões são simples de entender, a primeira é a evolução da tecnologia, e a definitiva é "isto vai vender". 

A evolução de tecnologia é um processo que só funciona quando a ideia consegue ser vendida em escala comercial. E de vez em quando o público engole uma besteirada em nome do "é legal", deixando para trás tecnologias muito mais simples, baratas, e funcionais. Muito em parte do que está acontecendo hoje vai por aí.

Me faz lembrar o comentário final numa revista especializada em automóveis sobre o teste drive de uma BMW da série 700, o topo de linha deles. A conclusão do jornalista era que o carro é incrível, um luxo absurdo, do qual ele só tinha conseguido usar uns 15% de todo potencial, e que se continuasse com o carro para sempre provavelmente nunca aprenderia todos seus segredos. Bicicletas são muito mais simples, mesmo assim os fabricantes estão buscando desesperadamente produzir BMWs série 700 sobre duas rodas. Tudo para vender.



quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O que deveria ser um plano cicloviario

Acabei fazendo um vídeo furioso sobre a construção de uma ciclovia de canteiro central na av. dos Semaneiros, Alto de Pinheiros. Nem me lembrava mais do início deste texto sobre o que deveria ser um sistema cicloviário e sobre o temos aqui. O vídeo está no final deste POST. Depois explico.

Entre 2005 e 2012 trabalhei e fui treinado por holandeses e americanos. Mais, coloquei dinheiro do meu próprio bolso para ir in loco ver o que eles estavam falando. Acabei conhecendo muito bem o que foi feito pela bicicleta em Amsterdã, Paris e NYC, e outras, e posso dizer ou repetir o que eu li, vi e me ensinaram: "a bicicleta deve ser uma ferramenta de transformação da vida na cidade". Todo o processo aplicado lá fora extrapola muito o simples "quantos mais km de vias segregadas melhor" que foi a diretriz aqui. 

Agora, aviso, a última vez que estive em Amsterdã já senti na pele o que veio a ser a 'delicia' das elétricas estranhas circulando na ciclovia. E lá já começava um discussão pesada sobre o futuro do sistema cicloviario perante as 'autopropelidas'.

Perdemos, aqui no Brasil, a oportunidade de ter usado a introdução da bicicleta como uma ferramenta de transformação profunda no urbanismo errático de nossas cidades. A bicicleta deveria ter invadido e tomado espaços melhorando a vida de mulheres, crianças, idosos e pessoas com necessidades especiais, meio ambiente, ar, verde, paisagem, mobiliário urbano, diminuição da violência, reestruturação da micro economia..., etc..., etc..., etc... Foi para isto que a bicicleta despertou interesse na Europa e Estados Unidos, não foi única e exclusivamente pela mobilidade, pela luta contra os motorizados, pela bicicleta.

Agora é muito difícil que aconteça. A "luta" era uma, agora, com a baderna que instalou, inclusive nas ciclovias e ciclofaixas, é outra. Aliás, o que pretendíamos no passado é completamente irreal frente a realidade das elétricas que infestam tudo. Onde tudo isto vai parar? Ninguém sabe, e creio que mesmo os Europeus também não saibam. O exemplo vindo da Ásia pouco serve pela imensa diferença cultural.

Claro, quantas mais bicicletas elétricas e autopropelidos menos carros nas ruas, mais espaço publico e espaço privado de uso público. 

Por outro lado, a magia da bicicleta está na circulação com velocidade em escala humana, o que aumenta a percepção do meio ambiente onde está passando, o que é elemento integrador. Já a velocidade mais alta das elétricas faz com que seus condutores tenham uma percepção muito reduzida do ambiente, quase a mesma de um motorista ou motociclista, o que é desintegrador.

Elétricas, como tudo indica, é o grito de vitória das motociclistas e Scooters. Bicicleta, mas bicicleta mesmo, aquela do arroz com feijão, é mais uma vez perante a história a grande derrotada, e junto com ela seus sonhos e realizações. 





Aqui carecemos de um mínimo de noção do que é uma cidade para cidadãos, todos.

Quando ainda existia a Rádio Eldorado eu mandei um áudio para eles furioso sobre a marcação que estava sendo feita no canteiro central da Av. dos Semaneiros e que eu tinha certeza que seria uma ciclovia. Um pouco depois começaram a obra, que não foi para a ciclovia que então pensei, mas a troca da tubulação de água pluvial.

Lembrando a marcação que foi feita, é óbvio que era de uma futura ciclovia de canteiro central, a mesma que está sendo implantada agora. É um nojo. Vão extinguir as ciclofaixas para criar vagas de estacionamento para os fiéis da igreja? Vão.


segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Bicicletarias trocam a relação sem precisar

A corrente de um amigo engastalhou para valer entre as coroas do pedivela. Recomendei uma bicicletaria tradicional que conheço o dono de longa data, próxima a casa dele. Eu não podia socorrê-lo naquele momento. E lá foi ele, entregou a bicicleta, no dia seguinte me ligou dizendo que iam trocar o pedivela, a corrente, que disseram estar torta, e a relação que já estava gasta. Pensei lá com meus botões, "Uau! (Meu amigo) meteu força para valer (no pedal)". Não é um simples engastalhar que entorta corrente, muito menos coroa. Aliás, só vi relação torta quando a bicicleta é muito mequetrefe, que não é o caso aqui. Vai lá saber. Relação gasta? Pode ser, mas achei estranho que estivesse gasta porque sei mais ou menos a quilometragem rodada. Que seja. 


Ontem ele me deu de presente um saco plástico com o que foi trocado. E casa, sem fazer alarde, sem ele por perto, abri o saco, coloquei a corrente no chão, inspecionei com cuidado e não está torta. Upa! Prendi na morsa, estiquei, peguei o medidor de corrente e ainda dava para rodar uns muito bons km. Inspecionei a relação e não me parece que esteja no ponto de ser trocada, nem vou fazer mais um cheque para saber como está, o estado da corrente diz tudo: daria para rodar muito, algumas tantas correntes novas até ter que ser trocada.

Eu sei que as bicicletarias estão trabalhando assim. Troca tudo. Acho triste, a bem da verdade acho deprimente. A posição da bicicletaria até entendo, é negócio, eles precisam ganhar dinheiro, não sofrer processos, mais "o cliente tem razão", "o cliente sabe quanto pode gastar". Acho triste, mas... Agora a falta de um mínimo conhecimento técnico do ciclista da sua própria bicicleta, a busca por informação boa, as barbeiragens no pedalar... E o pior, o bolso, está todo mundo cheio da grana, não faz diferença, paga. Aí para mim complica. 

Tenho dito, uma bicicleta normal, bem regulada e ajustada, roda uns bons anos antes de ter que trocar toda a relação. Mesmo a maioria das correntes, quando dizem que devem ser trocadas normalmente ainda tem vida para rodar. O conceito de se fazer revisões, muitas revisões, está incrustado como dogma na cabeça de muito ciclista. Para mim é gastar dinheiro a toa e gerar lixo aos montes. 

Antes do passeio reuni o meu pessoal e falei, mais uma vez, para irem com calma, que a loucura de revisão frequente e troca de peça é coisa de ciclista profissional que tem mecânicos profissionais xde primeira e patrocínio, e que mesmo estes não ficam trocando peças sem necessidade. Pedi para dois ciclistas que não estavam no grupo ouvirem a orientação, ou conselho. Depois que terminei minha fala, um deles virou para mim e disse que uma vez por ano mandava a bicicleta para fazer uma geral e que trocava todo sistema de transmissão. Triste. 

Já ouvi de Teresa mil vezes que eu devo parar de dar orientações, dicas e ajudar os outros. Não consigo, não aguento. Eu tenho um sonho: que um dia nos tenhamos bom senso. Ajudei, ajudo e ajudarei, agora com um pouco mais de cuidado comigo mesmo. 

terça-feira, 11 de agosto de 2026

As MTB do início dos 90, quando tudo mudou

Só quem pedalou as bicicletas que tínhamos antes dos meados da década de 80 sabe o enorme salto de qualidade e a grandeza consequente que a revolução provocada pelas recém chegadas mountain bikes, as importadas, fizeram. Não estou falando do Brasil, mas de um fenômeno mundial, que começou nos Estados Unidos, como todos sabem, e se espalhou pelo mundo. As bicicletas básicas fabricadas na década de 70 e 80, principalmente aqui no Brasil, eram uma bosta, e não há outra palavra para defini-las.

Voltando ao Brasil, a primeira MTB de verdade, Schuwinn, americana, chegou aqui em São Paulo 1984. Por volta de 1987, no Rio de Janeiro, apareceram outras. Em São Paulo, como eu estava no meio do que se dizia mountain bike, mas era só intensão, digo que o número de MTBs, as de verdade, americanas, sonho de todos, começaram a aparecer em número sensível a partir de 1989. O que tínhamos aqui ficava na mais pura vontade de pedalar e falta de noção do perigo que corríamos em cima daquilo. A falta qualidade, de precisão, de resistência das bicicletas brasileiras, tinha nicas a ver com uma montain bike de verdade, mesmo as mais básicas, as vendidas em supermercado americano. Aliás, quando olho para trás e penso na maluquice que fazíamos, no perigo que passamos pedalando as 'lixocletas', como dizia Renata Falzoni, me dá arrepios.

A primeira vez que pedalei uma mountain bike de verdade simplesmente não acreditei. Funcionava, que maravilha, funcionava! Funcionava tudo. Freava, mudava as marchas com precisão, não furava o pneu toda hora e se furasse era facílimo trocar a câmera. Rodava suave, tinha marchas que faziam as subidas fáceis. Tinha aderência, fazia curvas incríveis. Não quebrava, cara, não quebrava, nem mesmo depois de um violento capote. Batia a poeira e voltava a pedalar como se nada tivesse acontecido. OK, para quem não viveu aqueles momentos essas minhas afirmações parecem coisa de maluco, mas não é. Nas nacionais, era obrigatório rezar nas descidas um pouco mais irregulares para o garfo não partir em dois. Exagero? Não,  mas não mesmo!

O surgimento do Mountain Bike beira um santo milagre, e também não é exagero. Repito, quem pedalou as bicicletas existentes até então sabe o que digo não tem qualquer exagero.

Das bicicletas que estão neste YouTube eu pedalei naqueles anos, 1988, 1989, 1990, 1991 e 1992 com as Specialized Stumpjumper e a incrível M2, as GT, Trek, Klein, e algumas outras não citadas. Lembro a emoção quando estive lado a lado com uma Yeti. Por incrível que pareça a primeira full suspention que vi foi projeto e execução do Nelson Motta, o 'N' da JNA, nacional.

O mercado mundial de bicicletas passou por sua pior fase na década de 70. Aqui pior ainda porque tivemos um oligopólio com Monark e Caloi dominando 95% do mercado. Eles faziam o que bem entendiam. Qualidade? Vários setores do Brasil daquele tempo tinham problemas de qualidade, mas posso afirmar sem erro, que o setor da bicicleta era pior. Uma bicicleta americana ou europeia dos anos 70 e inicio dos 80 tinha lá seus problemas, mas funcionava direito, era segura, rspeitavam controle de qualidade que aqui... Ora, aqui...

'A' bicicleta mais vendida, 'a' preferida do povão naquela época, era a Monark Barra Circular, um fenômeno industrial e social. O povão dizia que aguentava qualquer coisa, que não quebrava... Olhavam para as MTB com desconfiança e demoraram a entender a brutal diferença. E um dia caiu a ficha. E todo o oligopólio Monark Caloi acabou rapidinho, sumiu, faliu, foi-se, Graças a Deus!

Num encontro de Luiz Dränger com Micke Sinyard, criador e dono da Specialized, Micke foi muito claro para Luiz: "Nunca se desfaça destas bicicletas (mountain bikes do fim da década de 80 e início dos 90). Nunca mais se vai fabricar (com qualidade) igual". Pedale com uma que esteja inteira e entenderá rapidinho. Mesmo hoje, são incríveis. Mais, duram, duram, duram, duram...


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ouvir a saúda da bicicleta com estetoscópio

Bicicletas com quadro de alumínio costumam enganar até bons mecânicos. Tem um barulhinho chato, parece que é num ponto e é noutro. Já apanhei muito e já vi mecânico dos bons também apanhar até descobrir onde está o problema.

Eu já estou bem rodado, entrei numa fase da vida que quero simplesmente pedalar, não quero ficar ajustando, fazendo mecânica, sujando as mãos. Mas tudo tem limites, e o barulho misterioso me tirou do sério. É no canote de selim... Não é. É no selim... Não é. É no movimento central... Em cada ponto um ajuste e uma saída para pedalar. Sem dúvida, o barulho vem do tubo de selim. Não é... Coisa de quadro de alumínio. Que inferno! E aí me lembrei de minha época de pseudo mecânico de automóveis, quando eu xeretava para identificar o que estava acontecendo para ou consertar ou ir para a oficina.

E aí fiz o que deveria ter feito de cara: usar uma chave de fenda longa como estetoscópio para identificar de onde vinha o maldito problema. Bingo! Catraca, ou talvez eixo traseiro, com certeza. Amanhã pego de novo a investigação e descubro definitivamente. Retiro a catraca e com ela separada do eixo vou saber exatamente o que está ruim.

Se ouvir ou sentir alguma coisa anormal pedalando na sua bicicleta, pegue uma chave de fenda, fina e longa se possível, ou uma haste de ferro, use da mesma forma que um médico usando um estetoscópio, cabo encostado na orelha, a ponta encostada no quadro ou peças. Gire as rodas, o movimento central, pedais, etc..., até achar o ponto exato de emissão do barulho. Fácil e rápido, e preciso.

Com um estetoscópio é possível até identificar futuros problemas muito antes que você possa ouvi-los ou senti-los pedalando. Eu deveria ter começado por aí. Besteira de quem perdeu a prática, não está no dia a dia da oficina.

Estetoscópio é um santo instrumento para a tua saúde e de tua bicicleta. Faça como qualquer bom médico, comece por ele. Facilita muito. Mostra o caminho a seguir.


E a minha história aqui merece um final. Sim, a chave de fenda mostrou que minha catraca estava em petição de miséria, mas também não era ela. Sai para pedalar e o barulho continuava. Parei desolado no sol (fazia frio) e fiquei procurando o que poderia ser, inclusive uma rachadura no quadro. Nada. E toquei num raio, que não estava solto, mas menos tensionado do que deveria. O estranho é que raio solto ou com tensão baixa costuma fazer barulho a cada volta da roda, pedalando ou não, o que não era o caso. O barulho só aparecia pedalando. Bom, enfim, voltei para casa e aumentei bem a tensão nos raios... e o barulho parou. 
Mantenho tudo que escrevi acima. Quadro de alumínio faz com que defeitos ali soem aqui. Ouvir a bicicleta limpou alguns problemas que apareceriam com o tempo. Agora, mesmo com mais de 40 anos de mão na graxa nunca tive um problema tão estranho como este. A inadequada tensão dos raios causou durante meses um barulho fora do padrão de baixa tensão de raios. Nunca antes tinha apanhado tanto. Agora a bicicleta está uma delícia, só ouço o leve barulho do pneu rodando no asfalto.   

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vou comprar. É legal! (Besteirada)

Começar por onde? Rindo, eu penso em começar pelos Porsche, símbolo de status, que tristemente acabam estraçalhados pelos seus ricos proprietários. Ou serão os "próprio otários", como dizia a velha gozação? 

Vamos aos próprios otários, que pensando bem somos quase todos. Não? Você não é? Vai me dizer que não arregala os olhos e baba quando vê aquele objeto de desejo a frente? Confesso, eu babo. Foi uma tortura não comprar a última MTB vermelha, entre um alaranjado e um pink, meu tamanho, que estava em liquidação. Confesso que fui umas três vezes até lá me contorcendo de raiva por deixar aquela oportunidade passar. A verdade? Eu não preciso de mais uma bicicleta. 

Uma das meninas que pedala comigo tinha uma bicicleta alemã, uma MTB urbana, que era ótima. Segundo ela, pesada, subia mal. O pessoal que pedalava junto tinha marca de marca, traduzindo, as famosas e chiques. Óbvio que a bicicleta alemã foi trocada por uma marca famosa e a dona chegou toda feliz dizendo que era muito melhor porque pesava 10kg. UAU! 10kg? Me deram um puxão e mandaram eu ficar quieto e parar de rir. "Luiz Vitão?" e tomei uma canelada para calar a boca de vez.

Acho que vou procurar um YouTube onde um especialista compra bolsas de marcas famosas e retalha toda ela para mostrar quanto custam de verdade para produzir, o preço de fábrica. A saber, numa loja destas exclusivas, o que quer que isto signifique, foi vendida uma destas bolsas por R$ 230.000,00, sim, duzentos e trinta mil reais por uma bolsa feminina. E aqui eu paro por uns minutos para ir até a Ciclovia Capivara olhar as bicicleta chique que custa, custa, custa, custa.... Felizmente não vou ter ninguém para me dar beliscões ou caneladas, principalmente quando estiver vendo a técnica de pedalar de seu proprietário. A bem da verdade aí tenho vontade de chorar. É tão parecido com o deprimente fim que os Porsche estão tendo, com mulher que se acha mais mulher por estar usando a bolsa mais cara do Brasil..., e até a desavisada que realmente acredita que sua bicicleta pesa 10kg. 

"Eu acredito em milagres, eu acredito em milagres..." Vai firme. A indústria do consumo agradece. 

Nada contra os Porsche, Ferrari, Lamborghini ou o que seja, mas por favor, aprende a dirigir para não destruir o carro. Não estou falando sobre pilotar, estou falando sobre dirigir. Não faça ridículo.

O mesmo para qualquer bicicleta. Leia, pesquise, aprenda as técnicas de pedal, aprenda o que é uma bicicleta, qual a correta para quem você é. Deixe seu bolso e sua insegurança em segundo, terceiro ou quarto plano. Pedalei correto. Técnica. 

A marca alemã é tão respeitada quanto a marca americana da MTB, só é desconhecida por aqui. As duas pesam praticamente a mesma coisa, em torno de 15kg, a faixa de preço das duas confirma. Algumas questões técnicas ou de ajustes podem justificar uma ou outra ser um pouco mais leve ao pedalar. O que faz uma enorme diferença é o emocional: "Nossa! Esta bicicleta (de marca famosa) é muito muito leve..."

Este vídeo mostra quanto custa na fábrica, quanto o produto realmente vale, e quanto a percepção do ciclista acha que vale. Quanto mais anos eu tenho pedalando, mais eu tenho certeza que a diferença é muito grande. Nada como ser um 'próprio otário'. Aí somos todos, uns mais, outros menos, eu incluído. É o tempo que vivemos.



quarta-feira, 22 de julho de 2026

Não ser vítima de um pequeno acidente de trânsito

Tereza, que já é uma senhora, parou seu carro atrás de um Civic. Semáforo fechado, rua com uma suave inclinação, neto no carro, ela se destraiu, o carro correu lentamente para a frente e bateu na traseira do Civic. Desceu o dono do carro, olhou, olhou, apontou para uma pequena deformação numa das protuberâncias do para-choque, virou-se para Tereza e disse que teria que trocar o para-choque inteiro. Trocaram cartões, Tereza deixou o neto em casa, telefonou para a seguradora, recebeu orientações. Eu soube da história enquanto ela falava com a seguradora. Ela desligou, pedi detalhes da história e fiquei a pensar (como dizem os portugueses).

No dia seguinte Tereza telefonou para o corretor de seguros, o mesmo que sempre faz tudo para ela há décadas. Ele pediu as fotos, ela mandou, ele deu uma olhada nas imagens e pediu que deixasse tudo com ele, que resolveria. De cara ele, que está no negócio faz muito, viu um pequeno amassado na tampa do porta-malas, o que segundo ele o carro de Tereza não poderia ter causado. Eu lembrei que a frente é baixa, o para-choque é arredondado, portanto nem o pequeno amassado na tampa do porta-malas, nem a pequena deformação na ponta do para-choque do Civic seriam possíveis.

Indo um pouco mais a fundo. Os automóveis atuais têm para-choques de material plástico para diminuir as lesões em pedestres atropelados. A resistência e a plasticidade de qualquer para-choque é estabelecida por normas claríssimas que são seguidas a risca pelos fabricantes. Se procurar vai encontrar tabela com a curva de deformação e plasticidade. Mais, estes para-choques novos são presos à carroceria do automóvel por antes e peças de metal e plástico que são projetadas para quebrar ou deformar de forma a deixar marcas que identifiquem a intensidade do impacto. Ou seja, é possível saber com boa precisão o que aconteceu de fato, uma espécie de caixa preta do automóvel. 

Neste caso em particular, o local onde ocorreu o incidente tem câmeras que provam o que aconteceu de fato, incluindo a velocidade do impacto. Não vai ser necessário. O corretor de seguros colocou o motorista no seu lugar. Provavelmente ele sofreu uma outra colisão na traseira, bem mais forte, não recebeu o que direito, então tentou dar um aplique na desavisada. Clássico.

O que quero dizer aqui é que só aceita a versão de um dos envolvidos numa ocorrência quem quer. Ela pode até estar correta, mas se tiver alguma dúvida, algum detalhe, há caminhos para esclarecer os fatos, e não será difícil descobrir que nem tudo estava esclarecido. Tem muita gente que conta a versão que lhe interessa, o que pode ser bom para os interesses particulares dele, mas é péssimo para a construção da segurança no trânsito, que é o que mais interessa a todos. 

Em qualquer acidente há uma verdade. Conto aqui esta história porque o que mais ouço é versão criada, óbvio que atendendo aos interesses próprios ou do grupo. Sim, falo de ciclistas, como poderia estar falando de motociclistas. O Brasil é uma carnificina exatamente por isto, a versão curta e grossa, e com interesses outros. Repito mais uma vez: aviação é o meio de transporte mais seguro por que trabalha com fatos, não com versões ou culpados. Tem que entender os fatos para chegar à realidade para que ela não se repita.