terça-feira, 11 de agosto de 2026

As MTB do início dos 90, quando tudo mudou

Só quem pedalou as bicicletas que tínhamos antes dos meados da década de 80 sabe o enorme salto de qualidade e a grandeza consequente que a revolução provocada pelas recém chegadas mountain bikes, as importadas, fizeram. Não estou falando do Brasil, mas de um fenômeno mundial, que começou nos Estados Unidos, como todos sabem, e se espalhou pelo mundo. As bicicletas básicas fabricadas na década de 70 e 80, principalmente aqui no Brasil, eram uma bosta, e não há outra palavra para defini-las.

Voltando ao Brasil, a primeira MTB de verdade, Schuwinn, americana, chegou aqui em São Paulo 1984. Por volta de 1987, no Rio de Janeiro, apareceram outras. Em São Paulo, como eu estava no meio do que se dizia mountain bike, mas era só intensão, digo que o número de MTBs, as de verdade, americanas, sonho de todos, começaram a aparecer em número sensível a partir de 1989. O que tínhamos aqui ficava na mais pura vontade de pedalar e falta de noção do perigo que corríamos em cima daquilo. A falta qualidade, de precisão, de resistência das bicicletas brasileiras, tinha nicas a ver com uma montain bike de verdade, mesmo as mais básicas, as vendidas em supermercado americano. Aliás, quando olho para trás e penso na maluquice que fazíamos, no perigo que passamos pedalando as 'lixocletas', como dizia Renata Falzoni, me dá arrepios.

A primeira vez que pedalei uma mountain bike de verdade simplesmente não acreditei. Funcionava, que maravilha, funcionava! Funcionava tudo. Freava, mudava as marchas com precisão, não furava o pneu toda hora e se furasse era facílimo trocar a câmera. Rodava suave, tinha marchas que faziam as subidas fáceis. Tinha aderência, fazia curvas incríveis. Não quebrava, cara, não quebrava, nem mesmo depois de um violento capote. Batia a poeira e voltava a pedalar como se nada tivesse acontecido. OK, para quem não viveu aqueles momentos essas minhas afirmações parecem coisa de maluco, mas não é. Nas nacionais, era obrigatório rezar nas descidas um pouco mais irregulares para o garfo não partir em dois. Exagero? Não,  mas não mesmo!

O surgimento do Mountain Bike beira um santo milagre, e também não é exagero. Repito, quem pedalou as bicicletas existentes até então sabe o que digo não tem qualquer exagero.

Das bicicletas que estão neste YouTube eu pedalei naqueles anos, 1988, 1989, 1990, 1991 e 1992 com as Specialized Stumpjumper e a incrível M2, as GT, Trek, Klein, e algumas outras não citadas. Lembro a emoção quando estive lado a lado com uma Yeti. Por incrível que pareça a primeira full suspention que vi foi projeto e execução do Nelson Motta, o 'N' da JNA, nacional.

O mercado mundial de bicicletas passou por sua pior fase na década de 70. Aqui pior ainda porque tivemos um oligopólio com Monark e Caloi dominando 95% do mercado. Eles faziam o que bem entendiam. Qualidade? Vários setores do Brasil daquele tempo tinham problemas de qualidade, mas posso afirmar sem erro, que o setor da bicicleta era pior. Uma bicicleta americana ou europeia dos anos 70 e inicio dos 80 tinha lá seus problemas, mas funcionava direito, era segura, rspeitavam controle de qualidade que aqui... Ora, aqui...

'A' bicicleta mais vendida, 'a' preferida do povão naquela época, era a Monark Barra Circular, um fenômeno industrial e social. O povão dizia que aguentava qualquer coisa, que não quebrava... Olhavam para as MTB com desconfiança e demoraram a entender a brutal diferença. E um dia caiu a ficha. E todo o oligopólio Monark Caloi acabou rapidinho, sumiu, faliu, foi-se, Graças a Deus!

Num encontro de Luiz Dränger com Micke Sinyard, criador e dono da Specialized, Micke foi muito claro para Luiz: "Nunca se desfaça destas bicicletas (mountain bikes do fim da década de 80 e início dos 90). Nunca mais se vai fabricar (com qualidade) igual". Pedale com uma que esteja inteira e entenderá rapidinho. Mesmo hoje, são incríveis. Mais, duram, duram, duram, duram...


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ouvir a saúda da bicicleta com estetoscópio

Bicicletas com quadro de alumínio costumam enganar até bons mecânicos. Tem um barulhinho chato, parece que é num ponto e é noutro. Já apanhei muito e já vi mecânico dos bons também apanhar até descobrir onde está o problema.

Eu já estou bem rodado, entrei numa fase da vida que quero simplesmente pedalar, não quero ficar ajustando, fazendo mecânica, sujando as mãos. Mas tudo tem limites, e o barulho misterioso me tirou do sério. É no canote de selim... Não é. É no selim... Não é. É no movimento central... Em cada ponto um ajuste e uma saída para pedalar. Sem dúvida, o barulho vem do tubo de selim. Não é... Coisa de quadro de alumínio. Que inferno! E aí me lembrei de minha época de pseudo mecânico de automóveis, quando eu xeretava para identificar o que estava acontecendo para ou consertar ou ir para a oficina.

E aí fiz o que deveria ter feito de cara: usar uma chave de fenda longa como estetoscópio para identificar de onde vinha o maldito problema. Bingo! Catraca, ou talvez eixo traseiro, com certeza. Amanhã pego de novo a investigação e descubro definitivamente. Retiro a catraca e com ela separada do eixo vou saber exatamente o que está ruim.

Se ouvir ou sentir alguma coisa anormal pedalando na sua bicicleta, pegue uma chave de fenda, fina e longa se possível, ou uma haste de ferro, use da mesma forma que um médico usando um estetoscópio, cabo encostado na orelha, a ponta encostada no quadro ou peças. Gire as rodas, o movimento central, pedais, etc..., até achar o ponto exato de emissão do barulho. Fácil e rápido, e preciso.

Com um estetoscópio é possível até identificar futuros problemas muito antes que você possa ouvi-los ou senti-los pedalando. Eu deveria ter começado por aí. Besteira de quem perdeu a prática, não está no dia a dia da oficina.

Estetoscópio é um santo instrumento para a tua saúde e de tua bicicleta. Faça como qualquer bom médico, comece por ele. Facilita muito. Mostra o caminho a seguir.


E a minha história aqui merece um final. Sim, a chave de fenda mostrou que minha catraca estava em petição de miséria, mas também não era ela. Sai para pedalar e o barulho continuava. Parei desolado no sol (fazia frio) e fiquei procurando o que poderia ser, inclusive uma rachadura no quadro. Nada. E toquei num raio, que não estava solto, mas menos tensionado do que deveria. O estranho é que raio solto ou com tensão baixa costuma fazer barulho a cada volta da roda, pedalando ou não, o que não era o caso. O barulho só aparecia pedalando. Bom, enfim, voltei para casa e aumentei bem a tensão nos raios... e o barulho parou. 
Mantenho tudo que escrevi acima. Quadro de alumínio faz com que defeitos ali soem aqui. Ouvir a bicicleta limpou alguns problemas que apareceriam com o tempo. Agora, mesmo com mais de 40 anos de mão na graxa nunca tive um problema tão estranho como este. A inadequada tensão dos raios causou durante meses um barulho fora do padrão de baixa tensão de raios. Nunca antes tinha apanhado tanto. Agora a bicicleta está uma delícia, só ouço o leve barulho do pneu rodando no asfalto.   

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Vou comprar. É legal! (Besteirada)

Começar por onde? Rindo, eu penso em começar pelos Porsche, símbolo de status, que tristemente acabam estraçalhados pelos seus ricos proprietários. Ou serão os "próprio otários", como dizia a velha gozação? 

Vamos aos próprios otários, que pensando bem somos quase todos. Não? Você não é? Vai me dizer que não arregala os olhos e baba quando vê aquele objeto de desejo a frente? Confesso, eu babo. Foi uma tortura não comprar a última MTB vermelha, entre um alaranjado e um pink, meu tamanho, que estava em liquidação. Confesso que fui umas três vezes até lá me contorcendo de raiva por deixar aquela oportunidade passar. A verdade? Eu não preciso de mais uma bicicleta. 

Uma das meninas que pedala comigo tinha uma bicicleta alemã, uma MTB urbana, que era ótima. Segundo ela, pesada, subia mal. O pessoal que pedalava junto tinha marca de marca, traduzindo, as famosas e chiques. Óbvio que a bicicleta alemã foi trocada por uma marca famosa e a dona chegou toda feliz dizendo que era muito melhor porque pesava 10kg. UAU! 10kg? Me deram um puxão e mandaram eu ficar quieto e parar de rir. "Luiz Vitão?" e tomei uma canelada para calar a boca de vez.

Acho que vou procurar um YouTube onde um especialista compra bolsas de marcas famosas e retalha toda ela para mostrar quanto custam de verdade para produzir, o preço de fábrica. A saber, numa loja destas exclusivas, o que quer que isto signifique, foi vendida uma destas bolsas por R$ 230.000,00, sim, duzentos e trinta mil reais por uma bolsa feminina. E aqui eu paro por uns minutos para ir até a Ciclovia Capivara olhar as bicicleta chique que custa, custa, custa, custa.... Felizmente não vou ter ninguém para me dar beliscões ou caneladas, principalmente quando estiver vendo a técnica de pedalar de seu proprietário. A bem da verdade aí tenho vontade de chorar. É tão parecido com o deprimente fim que os Porsche estão tendo, com mulher que se acha mais mulher por estar usando a bolsa mais cara do Brasil..., e até a desavisada que realmente acredita que sua bicicleta pesa 10kg. 

"Eu acredito em milagres, eu acredito em milagres..." Vai firme. A indústria do consumo agradece. 

Nada contra os Porsche, Ferrari, Lamborghini ou o que seja, mas por favor, aprende a dirigir para não destruir o carro. Não estou falando sobre pilotar, estou falando sobre dirigir. Não faça ridículo.

O mesmo para qualquer bicicleta. Leia, pesquise, aprenda as técnicas de pedal, aprenda o que é uma bicicleta, qual a correta para quem você é. Deixe seu bolso e sua insegurança em segundo, terceiro ou quarto plano. Pedalei correto. Técnica. 

A marca alemã é tão respeitada quanto a marca americana da MTB, só é desconhecida por aqui. As duas pesam praticamente a mesma coisa, em torno de 15kg, a faixa de preço das duas confirma. Algumas questões técnicas ou de ajustes podem justificar uma ou outra ser um pouco mais leve ao pedalar. O que faz uma enorme diferença é o emocional: "Nossa! Esta bicicleta (de marca famosa) é muito muito leve..."

Este vídeo mostra quanto custa na fábrica, quanto o produto realmente vale, e quanto a percepção do ciclista acha que vale. Quanto mais anos eu tenho pedalando, mais eu tenho certeza que a diferença é muito grande. Nada como ser um 'próprio otário'. Aí somos todos, uns mais, outros menos, eu incluído. É o tempo que vivemos.



quarta-feira, 22 de julho de 2026

Não ser vítima de um pequeno acidente de trânsito

Tereza, que já é uma senhora, parou seu carro atrás de um Civic. Semáforo fechado, rua com uma suave inclinação, neto no carro, ela se destraiu, o carro correu lentamente para a frente e bateu na traseira do Civic. Desceu o dono do carro, olhou, olhou, apontou para uma pequena deformação numa das protuberâncias do para-choque, virou-se para Tereza e disse que teria que trocar o para-choque inteiro. Trocaram cartões, Tereza deixou o neto em casa, telefonou para a seguradora, recebeu orientações. Eu soube da história enquanto ela falava com a seguradora. Ela desligou, pedi detalhes da história e fiquei a pensar (como dizem os portugueses).

No dia seguinte Tereza telefonou para o corretor de seguros, o mesmo que sempre faz tudo para ela há décadas. Ele pediu as fotos, ela mandou, ele deu uma olhada nas imagens e pediu que deixasse tudo com ele, que resolveria. De cara ele, que está no negócio faz muito, viu um pequeno amassado na tampa do porta-malas, o que segundo ele o carro de Tereza não poderia ter causado. Eu lembrei que a frente é baixa, o para-choque é arredondado, portanto nem o pequeno amassado na tampa do porta-malas, nem a pequena deformação na ponta do para-choque do Civic seriam possíveis.

Indo um pouco mais a fundo. Os automóveis atuais têm para-choques de material plástico para diminuir as lesões em pedestres atropelados. A resistência e a plasticidade de qualquer para-choque é estabelecida por normas claríssimas que são seguidas a risca pelos fabricantes. Se procurar vai encontrar tabela com a curva de deformação e plasticidade. Mais, estes para-choques novos são presos à carroceria do automóvel por antes e peças de metal e plástico que são projetadas para quebrar ou deformar de forma a deixar marcas que identifiquem a intensidade do impacto. Ou seja, é possível saber com boa precisão o que aconteceu de fato, uma espécie de caixa preta do automóvel. 

Neste caso em particular, o local onde ocorreu o incidente tem câmeras que provam o que aconteceu de fato, incluindo a velocidade do impacto. Não vai ser necessário. O corretor de seguros colocou o motorista no seu lugar. Provavelmente ele sofreu uma outra colisão na traseira, bem mais forte, não recebeu o que direito, então tentou dar um aplique na desavisada. Clássico.

O que quero dizer aqui é que só aceita a versão de um dos envolvidos numa ocorrência quem quer. Ela pode até estar correta, mas se tiver alguma dúvida, algum detalhe, há caminhos para esclarecer os fatos, e não será difícil descobrir que nem tudo estava esclarecido. Tem muita gente que conta a versão que lhe interessa, o que pode ser bom para os interesses particulares dele, mas é péssimo para a construção da segurança no trânsito, que é o que mais interessa a todos. 

Em qualquer acidente há uma verdade. Conto aqui esta história porque o que mais ouço é versão criada, óbvio que atendendo aos interesses próprios ou do grupo. Sim, falo de ciclistas, como poderia estar falando de motociclistas. O Brasil é uma carnificina exatamente por isto, a versão curta e grossa, e com interesses outros. Repito mais uma vez: aviação é o meio de transporte mais seguro por que trabalha com fatos, não com versões ou culpados. Tem que entender os fatos para chegar à realidade para que ela não se repita.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Sua bicicleta: cuidar, usar, e de preferência não abusar

Depois de um ano como responsável técnico nos seus primeiros anos da Specialized no Brasil, me deram como prêmio a escolha de uma mountain bike. Escolhi uma Rock Hopper Sport vermelha com todas as peças pretas, uma das bicicletas mais lindas que já vi. Montei e ajustei a bicicleta e a deixei parada no escritório para ficar babando na sua beleza. Depois de dois dias Beto, um dos irmãos responsáveis pela Specialized aqui, entrou na sala e teve um ataque: "Você ganhou a bicicleta para usar e não para ficar olhando para ela. Ou devolve ou vai pedalar ela já." Fazer o que, saí para pedalar. 

Esta história conta muito, não só de minhas neuroses, mas de muitos ciclistas, e não só ciclistas, que não aproveitam o que tem. Cuidar é uma coisa, cuidados neuróticos é outra, completamente diferente. 

Aliás, não saber aproveitar o que tem é muito mais comum e frequente do que se possa imaginar, coisa de nossos tempos de 'compra tudo'. Estamos um tanto bipolares entre o "eu tenho" e o "é meu"; e pode-se incluir o "eu tenho, eu comprei, você não tem, morra de inveja", para mim o pior de tudo.

O outro lado desta história, do neurótico com os cuidados, vem de uma geração que não tem nenhum vínculo emocional com o objeto em si, só com seu uso. Aí se encaixam todos que nasceram a partir das facilidades quase infinitas para comprar, usar e descartar tudo sem se preocupar com nada. O que tem por ai de ciclista que judia para valer de sua bicicleta é uma tristeza. Pedalam sem a mais remota piedade com as coitadas. Não está funcionando direito, quebrou, troca, simples assim. "Foda-se!" Triste.

Por experiência própria, não faça nem uma nem outra coisa. Aproveite o que tem com respeito, primeiro ao seu dinheiro, depois ao que o que você tem pode oferecer, e por último, em respeito a sua prórpia dignidade. Opa! Este último ponto tenho que explicar.

Na minha época, e a bem da verdade até pouco, se quebrasse era uma dificuldade para consertar. Se quebrasse de vez era uma dificuldade maior ainda para repor, comprar uma nova. Dificuldade pelo custo, para encontrar, e talvez o pior, pelo social que tinha você ter estragado o que estava funcionando. A cobrança na família e amigos era grande: "preserve o que tem".

Preservar o que tem não é simplesmente não usar, não aproveitar, não buscar limites. Se tiver conhecimento do que está fazendo, dá para esticar a corda sem arrebentá-la. Conhecer a técnica e respeitá-la. Quanto mais técnica, mas se estica a corda sem grandes riscos. Claro que de repente a corda estoura, mas com técnica você terá consciência do que deu errado e não repetirá a besteira. 

Triste mesmo são aqueles não estão nem aí para nada. Foda-se geral! Papai paga, o outro paga, alguém paga, e se não pagar acabou a brincadeira, que se foda! Triste, triste mesmo. Antes de mais nada é uma falta de auto-respeito sem tamanho. "Eu faço o que quero" é sinônimo de um desprezo profundo por tudo, incluindo o bem comum, a segurança de todos. 

Aproveitem o que tem. Curtam a bicicleta, o pedalar, o ser livre. Lembrem se sempre: "A liberdade só se constrói e existe com disciplina". É uma destas verdades incontestáveis. Liberdade não tem nada a ver com libertinagem. Libertinagem destrói. Liberdade constrói.

Este texto saiu da leitura deste ótimo texto do Karnal.



domingo, 12 de julho de 2026

Comentário feminino sobre ciclistas: "Homem é chato"

É voz comum entre as mulheres que homens são difíceis companheiros no pedalar. Tenho anos pedalando com todo público, principalmente mulheres, e assino em baixo a reclamação - pertinente - delas. Como Teresa D'Aprile disse na entrevista que ela e mais quatro meninas (senhoras - fala baixo se não me matam) deram para o canal Central do Pedal, homem é mandão, "...acelera, freia, vai!, faz a curva...". Eu próprio cansei de ver e ouvir os caras enchendo o saco de suas mulheres, namoradas ou amigas no pedal. Eu entendo, eu sei. O que Teresa sempre diz, nesta e em todas as entrevistas, está absolutamente certo, os caras são são chatos, um saco! Começando por mim - com a própria Teresa.

Se viram a divertida entrevista para a Central do Pedal das meninas (senhoras) do Saia na Noite, ouviram de Teresa sobre sua participação, aos 50 anos, na prova de Nove de Julho, uma merecida cortesia da organização. Teresa largou no fundão, queria só dar uma volta no circuito, em volta do Campo de Marte, Santana, pedalando atrás do pelotão feminino. Largaram as meninas, vi Teresa sair atrás, mas junto. O pelotão fez a avenida do Anhambi e dobrou para a av Braz Leme, com Teresa atrás, junto com as últimas. E, senta, que lá vem história. Neste acesso para a Braz Leme Teresa pegou uma tacha de sinalização (confessou que coçavao nariz) e foi pro chão. Logo chegou a ambulância. "A senhora está bem". "Estou. Tira mão de mim", se levantou, pegou a bicicleta, saiu atrás do pelotão e alcansou o fundão. Detalhe, todas as meninas de bicicleta de estrada e Teresa com uma Specialized Rock Hopper Comp com pneus 1.5, todo resto original. E uma diferença de idade de uns 20 anos ou mais velha. Só quem pedala para valer sabe o absurdo que Teresa fez. Para mim foi só mais uma das histórias - reais - que dona Teresa D'Aprile fez pedalando. Eu estava esperando ela chegar um pouco mais atrás das meninas do fundão, que para minha surpreza chegaram quase juntas com as do pelotão da frente e as vencedoras, e Teresa na cola, jána frente de algumas. Sorrindo, sangrando, arranhada, olhou para mim e bufando disse "Foi um tesão".

Sim, fui um chato, um saco para Teresa. Santo de casa não faz milagres. Pelo menos ensinei a mudar as marchas com precisão e manter a cadência correta para cada situação, aí ela beira a perfeição, mais, com uma força e capacidade física fora do normal. Pena que começou muito tarde, aos 42 anos. E pena que não se aprofundou. A culpa não é só minha.

De minha parte fico triste porque fui um saco. Ela nega, mas eu reconheço, sei meus erros e minhas irritações improdutivas com ela, a ineficiência das minhas dicas mal faladas, mal dadas, mal ensinadas. Funcionou com muitos, mas santo de casa... Teresa foi uma égua puro sangue que não aceitou derrota - ao seu jeito. Os inúmeros homens que ela fritou pedalando - literalmente - que o digam. 

Solto este texto como um educador, e como educador coloco com todas letras: não é o outro que não aprende e faz certo; é você que não sabe ensinar. Isto vale não só para mulheres, mas todo e qualquer companheiro de pedal iniciante ou não. Mulheres, por diversas razões, costumam sofrer mais. 

Tenha paciência. Saiba olhar, ver, entender, e estabelecer um passo a passo. Aliás, para começar se pergunte: onde é o que faço errado? Todos nós fazemos, todos erramos, e a maioria não reconhece seus próprios erros. Por que o outro não pode errar, ter seus limites?

domingo, 28 de junho de 2026

Flying Pigeon, ou, a velha holandesa da China

Mao Tse impôs a bicicleta na China. Sim, a bicicleta foi imposta aos chineses. Livros de história deixam claro que com o surgimento e a febre mundial do biciclo, aquela bicicleta de roda grande na frente e pequenina atrás, o único país que não aderiu foi a China. Um pouco depois de ter assumido o poder, Mao percebeu que precisava fazer a população se transportar com mais rapidez e com baixo custo, é a bicicleta foi imposta pela revolução cultural comunista. E aí entra a história da bicicleta que pedalou a China, ou o contrário, não faz diferença. 

Até hoje se pode comprar exatamente a mesma bicicleta que transformou a cultura chinesa. É cópia de uma Raleigh, o que confesso eu não sabia. É exatamente uma "old dutch", uma 'velha holandesa', um clássico mundial da bicicleta feminina de transporte.

O que me parece uma loucura é que obrigaram os chineses pedalar bicicletas próprias para o tamanho e altura de um europeu, pelo menos mais de 10 cm mais alto. Mas este absurdo foi comum em todo planeta, incluindo Brasil, e só mudou depois da chegada das mountain bikes.

No final do vídeo o narrador sai para dar uma volta com a Flying Pigeon pela cidade, e fica surpreso com a qualidade do rodar. Mas erra na forma de pedalar. Numa bicicleta destas, sem marcha e todas grandes, a saída do zero, do parado, deve ser feita muito aos poucos, quase não pondo força no pedal. É uma técnica de pedalar diferente da que estamos acostumados com estas bicicletas atuais, cheias de marchas e com rodas bem mais leves. Aprender a pedalar correto uma bicicleta destas é uma aula de preservação de energia. Sei porque já pedalei várias 'velhas holandesas' idênticas a estas e vou dizer com todas letras: é um tesão, puro orgasmo.

Abrindo as configurações do vídeo é possível ter a versão em português.

O detalhe do título está corretíssimo: "Comprei o veículo mais vendido da história". Não tenham a mais remota dúvida que é.