Tive um vazamento em casa e chamei o (santo) Antônio, um faz tudo das antigas, aqueles que resolvem de vez, trabalham sem alarde e quando saem deixam tudo em ordem, não dá nem para perceber que passou por aqui. Antônio já veio várias vezes e sabe que quando eu o chamo deixo o portão aberto para ele entrar. Hoje é dia de feira, e como sempre faço quando saio para fazer as compras, deixo o portão destrancado certo que ninguém vai entrar. Pois bem, Antônio chegou de moto, passou por traz de mim sem me ver, estacionou a moto, entrou no corredor, tocou o celular para avisar que estava lá. Ouviu o celular tocar e concluiu que eu estava na feira. Verificou e consertou o vazamento e quando terminou saiu para a feira, que é na porta de casa, me avisar que o problema estava resolvido. Tomei um susto. Não vi nada, nem ele chegando, entrando ou saindo de casa.
No começo do MTB, lá pelo começo dos anos 90, um de meus amigos foi fazer uma prova no Rio de Janeiro. Na segunda-feira marcou um chope no calçadão de Copacabana com seus amigos cariocas. Passou uma boa trava na bicicleta e num poste que estava a uns 10 metros de onde eles estavam sentados, inclusive uns de frente para a bicicleta. Quando terminaram o chope olharam e a bicicleta não estava mais no poste. Por incrível que possa parecer, o ladrão soltou as placas com nomes de ruas e tirou a bicicleta com trava e tudo por cima do poste. Ninguém viu.
Um dos feirantes contou que tem uma bicicleta boa, mas que não pedala mais porque um amigo pedalando uma bicicleta igual a dele sofreu um assalto, com espancamento, perto da casa dos dois, numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo. O assaltante surgiu do nada. Ouvindo a conversa estava o manobrista do estacionamento, a quem eu ajudo, que tem uma bicicleta muito simples, das imunes a roubo. Sempre repeto para ele não trocar a bicicleta porque mais que os assaltos, roubam bicicletas com facilidade. Por isto holandes costuma ter uma tranqueira para o dia a dia.
Sobre assaltos, sempre repito o que aprendi com um investigador que conheci faz muito: "Assaltante e ladrão vão onde tem muita mercadoria disponível. Ele não vai ficar numa rua deserta esperando alguém passar. Ele vai onde tem um monte de ciclista ou bicicletas estacionadas".
Ladrão que é ladrão é invisível. Tua propriedade some, você não sabe como, quando e por que. Some. Para ladrão de verdade, os profissas, o sujeito estar por perto não importa, porque ele sabe quando o cara está em outro planeta. Com a loucura do celular virou brincadeira.
Há uma regra antiga para dificultar roubos: estacionar a bicicleta em lugar onde o ladrão não consiga identificar o dono ou se alguém está vendo. Num vidro ou espaço aberto de uma loja ou bar, por exemplo, de preferência perto. Ladrão precisa ter alguma certeza que não será visto e identificado, ou ele não vai para cima. E precisa saber também em quanto tempo ele leva para soltar e desaparece com a bicicleta.
A verdade é que a única garantia, se é que é há qualquer garantia, é ter uma bicicleta que não seja interessante para o ladrão, ou assaltante. De resto, tem ladrão e assaltante que é profissa, que dificilmente será pego. No caso dos assaltantes, quanto mais tranquilo for, menor a possibilidade de acabar mal.
E aqui entramos num ponto crucial para todos, não só os ciclistas: vivemos um momento no qual todos perdemos a noção de limite, da linha que não se deve ultrapassar. Até na bandidagem havia um "código de honra", ou código de conduta, um limite da asneira que o sujeito podia fazer. Não existe mais. A barbárie corre solta, muito em parte porque a polícia não consegue mais investigar tudo o que ocorre, muito menos chegar nos responsáveis, e menos ainda prende-los.
Nunca mais saio de casa e deixo o portão aberto, mesmo que seja para comprar verduras na barraca que fica na porta de casa. Antônio provou mais uma vez que minha atenção numa coisa transforma o essencial em invisível.
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