segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Troca todo sistema de marchas?

Estou bem espantado com as conversas que tenho ouvido sobre como as bicicletarias estão propondo manutenção para seus clientes. O discurso "a corrente está gasta. Precisa trocar tudo (corrente, toda a relação de marchas, cabos e conduites, quando não os trocadores também)" Esta conversa fiada vem de muito, mas parece que agora emplacou de vez. Pior, o pessoal aceita sem pensar nem piscar.
Mais pasmo ainda com o relato de proprietários de bicicletas sobre a naturalidade com que os proprietários das bicicletas sorrindo gastaram fortunas "para manter a bicicleta em ordem". 
Pior, tenho ouvido relatos de ciclistas que entre amigos ciclistas se gabam de ter gasto fortunas em manutenção "preventiva" e limpeza da bicicleta. Uau! Que chique! Nunca pensei.

Manutenção preventiva? 

É claro que a Shimano, ou outro fabricante qualquer, recomenda a troca completa quando é constatado o desgaste ou defeito de alguma peça ou componente além do que é definido por eles próprios. Sacanagem? Sim e não. Sob os olhos da lei, não, não é sacanagem, mas precaução para evitar processos judiciais. Se aqui no Brasil é difícil dar problema, nos Estados Unidos qualquer coisinha pode resultar numa brincadeira muito muito cara para o fabricante. 

A forma como as bicicletarias estão trabalhando têm a ver, em parte, com medo de processo, e muito em parte com esta nova geração de ciclistas pensarem no pedalar como status social. Um dos proprietários de bicicletaria com quem conversei contou que um ciclista queria porque queria que se trocasse as pastilhas de freio que ainda tinham mais de meia vida, ou, muitos, mas muitos km mesmo de pedal pela frente. Foi duro convencê-lo que não era necessário. "... mas na outra bicicletaria me disseram que precisava..."  

Corrente gasta é o que mais pega. Existem ferramentas para medir corrente, medida de desgate máximo que é definido pelo fabricante da corrente. Concordo, o ideal é trocar quando se passou do limite. Sim, mas trocar a corrente, não todo o sistema como estão empurrando as bicicletarias. Tenho boas razões para acreditar que as peças velhas não acabem no lixo, mas isto é outra história, e afirmo com todas as letras que não há má fé ai. Um bom mecânico vai colocar para rodar por um bom tempo ainda, e aqui estou falando de mim mesmo que tem várias peças de bicicletas recolhidas do lixo, literalmente. 

Um sistema de troca de marchas é composto basicamente por corrente, relação de marchas dianteira e traseira, cabos e conduites, trocadores. A pergunta a ser respondida é "por que não está funcionando bem" - se for o caso. E a resposta virá - se for o caso - da inspeção de cada uma das partes do sistema. O que está acontecendo, e repito, faz muito, é mais ou menos "furou o pneu, Eu recomendo trocar toda a suspensão e freios".

Para finalizar, já li, vi e ouvi de vários especialistas daqui, dos Estados Unidos e Europa, que não é recomendável desmontar e montar a bicicleta para mantê-la em perfeita condição de uso, pela simples razão que aumenta a possibilidade de surgirem problemas que até então eram inexistentes na bicicleta. Ciclistas normais precisam entender que há uma diferença enorme entre as necessídades de um ciclista profissional e um amador, o que se reflete na condição de uso da bicicleta. Lembrei agora de um pequeno detalhe: mesmo em equipes profissionais de ponta, mesmo em condições não ideias, como pegar trechos molhados ou com um pouco de poeira, a bicicleta é limpa, e pronto. Limpeza, a seco, com escovinha e paninho, eventualmente uma lubrificação de corrente, quando realmente necessária. Esta neurose desmedida de "cuidar da bicicleta", "bicicleta perfeita", e outros discursos mais, são ótimos para qualquer coisa, menos para a qualidade do pedalar, para um ciclismo de verdade. 

Eu fui o responsável por receber e cuidar de Stive Tilford e Ted Turner, do Team Specialized MTB que veio para cá em 1992, São Paulo, para participar de provas. Eles tinham a sua disposição uma oficina de ponta, reconhecida aqui e nos EUA, para fazer qualquer manutenção, mesmo que fosse a noite. No sábado eles treinaram debaixo de um temporal horroroso. Levaram suas bicicletas para o hotel, eles próprios limparam, e no dia seguinte foram para competição. O único problema que deu foi o hotel mandar a conta das toalhas utilizada, que ficaram imprestáveis até para pano de chão. 

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