terça-feira, 17 de março de 2026

Passeios, guias, um grupo de ciclistas rodando, e a lei


O problema de ser guia de passeios é a paciência que você tem que ter. Você pede para fazer tal coisa, como não pedalar fora de um determinado espaço ou na contra-mão, e para alguns entra por um ouvido e sai correndo pelo outro. Você pede para não usar celular no meio do pedal e na primeira oportunidade alguém está de cabeça baixa completamente distraído. Parece que é um saco, um horror, mas não, não é, é divertido, tem um viez de inconsequência, de vamo que vamo, tudo se ajeita, exatamente como um reflexo da baderna deste país.

Num pelotão de ciclismo esportivo, assim como na ciclovia Capivara, a do rio Pinheiros, em horário de treino onde a maioria dos ciclistas são o topo social, portanto decisórios, a coisa é mais pesada. Alí não há inconsequência divertida, mas uma competição "sabe com quem está falando" muito mais generalizada que o desejado ou o que números apontam. As reclamações vem seguidas e de todas os lados, inclusive entre eles próprios. Do "salve-se quem puder" pula-se para o "quem manda aqui sou eu". Não sei porque, mas lembra algo deste Brasil.

No meio de todos estes tem a maioria que só quer pedalar ou usar a bicicleta. Mas dentro de um corporativismo silencioso e perverso geral,  dá diversão ou do mundo decisório, há um silêncio descabido que não permite apontar os pouquíssimos responsáveis pelo mal estar geral. Não lembra um certo país?     

Eu tenho escrito com frequência criticando situações nossas, deste Brasil, onde a maioria, a que está insanduichada entre os exaltados, cala. Minha última publicação, um comentário sobre um texto realisticamente pesado sobre nosso momento e nosso futuro, não foi aceita pelo Estadão, e confesso não saber se fiz um erro no aplicativo ou o IA do Estadão determinou que eu tinha passado dos limites. Passei dos limites mais vezes que deveria nesta vida e me sinto profundamente envergonhado. Fazendo aqui uma ligação entre o micro e macro, que sempre existe, é inexorável, lembro de situações minhas como guia que se encaixam perfeitamente como exemplos do que não fazer no macro. Vale para o que não é recomendável no pedal, na vida coletiva ou para o Brasil.

Meu ponto negativo foi ter tido um chilique e largado todo o grupo no meio do passeio. A organizadora entrou num estado de ansiedade além da conta e eu estourei, fugi em disparada de todos. Não sei se hoje me sentiria tão culpado. Naqueles tempos a sociedade era muito, mas muito mais flexível do que hoje. Ter um chilique tinha outro peso para a sociedade. Hoje chiliques se transformaram em algo mais que trivial, mais que justificável, até desejável, quando não rentável. Vide as redes sociais. E quando encaixa na fúria coletiva, como é rentável! I wana be a millionare!

Durante uns anos de trabalho convivi com uma especialista de área, mas não da minha área, a bicicleta. Convívio civilizado. Eu, um entrão no mundo dos projetos urbanos, ela dona do seu pedaço. Com o tempo fui ganhando respeito e ela, invasora em minha área de ação, perdendo espaço. E fui chamado para uma conversa onde me pediam para não criar problemas para ela. A bem da verdade, os números da área dela eram assustadores, para não dizer pavorosos, mas ela era tida como a banbanbam do pedaço. Qual? Todos. Fiquei na minha, não criei problemas, aceitei o corporatisvo vindo do pedido a mim feito. Acabei eu, que sabia o que estava falando, sendo colocado para fora do jogo, e ela se transformando na sabichona das bicicletas, que aliás mal sabia pedalar. 
Um dia a encontrei no meio da rua. Conversamos com uma sinceridade que no grupo de trabalho passado não era possível, pelo menos para ela. E sem constrangimentos ela confessou "... eu tinha que pagar a educação de meu filho...". Entende-se, mas a questão é que em nome de seu interesse pessoal o coletivo teve um enorme prejuízo, com a assinatura coletiva. Olhando bem, nada fora da regra: você segura meu salário que eu seguro o seu. Lembra algo?

A pergunta é, você acha legal que alguém sacaneie todo um grupo? Você acha bacana que um ou alguns acabem com um grupo sadio que se diverte? 

Você está feliz com esta baderna no Brasil que vem sendo causada por minorias?

Em times vencedores, do esporte, trabalho ou família, há respeito coletivo? 



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