sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Por que a maioria das rodas de bicicleta são 700C?

Spoiler: a maioria das bicicletas atuais usa aros 700 pela simples razão de redução dos custos de produção. Outras razões são secundárias, mas há.

Você pensa que é fácil entender algumas sutilezas técnicas que a bicicleta teve em sua história? Definitivamente não. A história da engenharia das bicicletas está mais para uma loucura total, uma montanha que soluções que a princípio fazem sentido, muitas foram usadas em motos e automóveis, não em bicicletas. Bom exemplo desta montanha de criações está no tamanho das rodas.

Demorei um bocado para descobrir porque haviam tantas rodagens diferentes. Quando comecei a me interessar pelo assunto descobrindo o que era a bicicleta no Brasil, melhor na cidade de São Paulo, a partir de 1977, que me lembre deveriam ter umas 10 ou mais medidas de aros para adultos. Vamos ver se me lembro: 26, 27, 28, 26 5/8 ou 3/4, 28 5/8, clincher, 700c... Só fui saber corretamente tudo o que existia no mundo quando descobri a bíblia da mecânica de bicicletas, o www.sheldonbrown.com. Aí pensei: desisto!, continuo ignorante. Quando precisar vou procurar no Sheldon Brown.

As rodas das Caloi de minha infância iam crescendo para acompanhar o tamanho do ciclista. Então eram fabricadas bicicletas com rodas 16, 20, 24, 26, 27 e 28. Monark tinha algo parecido, com um detalhe: a primeira Barra Circular, um dos fenômenos mundiais de vendas, tinha rodagem 28, que depois foi mudada para 26 3/4 e pneu balão 2.1 ou 2.2. Todos fabricantes tinham vários tamanhos de rodas para adultos, aqui e principalmente lá fora.

Enlouquecer para achar um pneu? Felizmente não é mais necessário, racionalizaram, é praticamente tudo 700. As 29? Nada mais que pneus largos montados em aros 700. É o básico. A saber, as 26, que ficaram tão populares com as MTB, é padrão americano, criado pelo Schwinn. As 700 é padrão europeu de longa data. Detalhe: se colocar uma roda 700 com pneu 19 ao lado de uma 26 com pneu 2.2 va descobrir que tem praticamente o mesmo diâmetro externo, ou raio. Ou, o comprimento dos tubos do garfo e quadro são praticamente o mesmo, o que se transforma numa redução de custos enorme para a indústria. Ok, os tubos para as 29 são mais compridos, mas em larga escala não é problema; e os aros continuam com o mesmo diâmetro.

Voltando. Os biciclos usavam um tamanho de roda para cada altura e tamanho de perna do ciclista. Quanto mais alto o ciclista, maior o tamanho da roda. Para os fabricantes era um inferno, tanto pela quantidade de tamanho das rodas diferentes que tinhamque ser fabricadas, quanto pelos comprimentos dos tubos a serem usados. Nesta confusão entram também o número de gabaritos diferentes, etc... Bom enfim, produzir sem padronização é complicado, lento e principalmente caro. As bicicletas de speed especiais que o digam.

Para entender o impacto da padronização na fabricação de bicicletas em tudo, basta dizer que para criar a fábrica do Ford T, o primeiro carro a ser fabricado em larga escala, chamaram o diretor industrial da Conventry, inglesa, maior fábrica de bicicletas do mundo na época, para replicar os processos na fabricação do revolucionário carrinho popular que simplesmente mudou a história dos Estados Unidos e do planeta.

No momento que a indústria saiu dos biciclos inseguros e criaram a bicicleta de segurança, isto que temos hoje, mais que aumentar significativamente a segurança de quem pedala, facilitaram imensamente a fabricação da bicicleta, e com isto diminuíram muito o preço final. De um produto de elite, o biciclo, passaram a vender um veículo popular de baixo custo de compra e manutenção.

Se por quase um século, entre 1890 e 1990, havia alguma diferença entre as rodagens, praticamente todas relacionadas a bicicletas urbanas. A partir do MTB a produção mundial se estreitou entre as 26 e as 700, uma redução de custos sensível. Com a introdução das 29, que é um pneu grosso montado num aro 700c, o padrão europeu, a produção industrial simplificou se mais ainda.

A bicicleta a pedal vive uma de suas piores crises da história. As elétricas estão varendo o mercado. Como em todas as crises, uma das saídas é introduzir no mercado novidades. Algumas dão certo, outras não. Agora querem vender as 32 e 36. O problema é que 32 ou 36 implica numa enorme mudança na produção industrial, para vários jornalistas especializadíssimos, um tiro no pé.

Já pedalei uma 32. Pode ser até divertido, mas... Definitivamente não teria uma. Eu pretendo continuar usando minha 26, por diversas razões. Há diferença entre pedalar uma 26 e 29 que é até fácil de adaptar-se. Numa 32 a brincadeira é outra, em todas situações, principalmente nas subidas. Posso imaginar o que deve ser uma 36. O que deixo aqui é: se colar as 32 ou 36, afirmo com todas as letras "O pessoal que saber é de novidade, de ser diferente. Bicicleta e pedalar é uma outra história".

Eu ia fechar o texto e publicar, aí caiu minha ficha que uma 32 trás muitos outros problemas além do simples pedalar diferente. A bicicleta é um trambolho. Vai transportar como, onde? Vai guardar onde? Etc...



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