terça-feira, 8 de setembro de 2026

Sistemas de marchas únicos do fabricante, e o comprador que se dane

7, 8, 9, 10, 12 marchas, quanto você realmente precisa? Creio que a pergunta não deva ser esta, mas quantas marchas você realmente usa? E para que você as usa? Como a maioria nunca se perguntou, os fabricantes tiraram proveito, criaram sistemas que respondem exatamente o que a maioria do mercado quer, mesmo sem saber exatamente porque e para que serve.

E a pergunta mais importante para os fabricantes: quantas marchas a maioria dos usuários de bicicleta imagina que usa? Quantas marchas é melhor para vender o produto? Então mais e mais marchas.

Quantos são os que conseguem usar um câmbio dianteiro? Escrevi 'conseguem usar um câmbio dianteiro', porque muitos, muitos mesmo, não sabem usá-lo, e estou consciente do que estou falando. Sim, câmbio dianteiro para a imensa maioria dos ciclistas, incluindo competidores, mas principalmente os que pedalam bicicletas urbanas e mountain bikes, sempre foi um problema. Se o câmbio dianteiro ou não é usado ou é chato de usar, por que manter o câmbio dianteiro? Um conjunto de peças a menos para os fabricantes, um custo a menos, um ponto de atração para vendas. Todos felizes para sempre. Happy end.

Quando a Shimano criou o SIS, Shifting Integrated Sistem, a SunRace e a Campagnolo mantiveram seus sistemas próprios, que só funcionavam quando montados com todo o conjunto de peças de suas fabricações. O da Shimano era mais confiável e preciso, e eles dominaram o mercado das básicas e depois o das de competição. Quando SunRace decidiu compatibilizar seus produtos com os da Shimano não só tinha perdido feio a liderança do mercado, como praticamente desapareceu.

E surge a SRAM, que a princípio e dutante um bom tempo foi compatível com os produtos da Shimano. Eles começaram fabricando o Grip Shifit, um passador de marchas muito básico em plástico, simples mesmo, genial, uma prolongação da manópla que trocava as marchas girando a mão. Funcionava maravilhosamente bem. Vendeu muito, a SRAM cresceu, comprou outras empresas, dentre elas a tradicional Sachs Huret européia, e começou a brigar com a Shimano, ou pelo menos tentar. E passou a ser compativel 'pero no mucho' e finalmente entrou no "é melhor não misturar que não vai funcionar bem" ou ainda literalmente "não funciona!, não tem jeito. Não tem mistura". Shimano, Shimano. SRAM, SRAM. E aproveitando o gancho, Campagnolo, Campagnolo, esta praticamente fora do jogo.

A patente da Shimano para algumas de suas peças, principalmente as mais básicas caiu e hoje tem um monte de fabricantes compatíveis com o SIS. O mesmo não acontece para as peças mais sofisiticadas. Aí, cada um cuide de seu pedaço, Faz parte do jogo. E estamos entrando numa era que os grupos de um mesmo fabricante deixam de ser compatíveis entre si. Mais marchas, corrente mais fina...

Como diz este vídeo em sua abertura, "bicicleta era um veículo simples..." Não é mais, pelo menos as mais sofisticadas. As razões são simples de entender, a primeira é a evolução da tecnologia, e a definitiva é "isto vai vender". 

A evolução de tecnologia é um processo que só funciona quando a ideia consegue ser vendida em escala comercial. E de vez em quando o público engole uma besteirada em nome do "é legal", deixando para trás tecnologias muito mais simples, baratas, e funcionais. Muito em parte do que está acontecendo hoje vai por aí.

Me faz lembrar o comentário final numa revista especializada em automóveis sobre o teste drive de uma BMW da série 700, o topo de linha deles. A conclusão do jornalista era que o carro é incrível, um luxo absurdo, do qual ele só tinha conseguido usar uns 15% de todo potencial, e que se continuasse com o carro para sempre provavelmente nunca aprenderia todos seus segredos. Bicicletas são muito mais simples, mesmo assim os fabricantes estão buscando desesperadamente produzir BMWs série 700 sobre duas rodas. Tudo para vender.



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