quarta-feira, 22 de julho de 2026

Não ser vítima de um pequeno acidente de trânsito

Tereza, que já é uma senhora, parou seu carro atrás de um Civic. Semáforo fechado, rua com uma suave inclinação, neto no carro, ela se destraiu, o carro correu lentamente para a frente e bateu na traseira do Civic. Desceu o dono do carro, olhou, olhou, apontou para uma pequena deformação numa das protuberâncias do para-choque, virou-se para Tereza e disse que teria que trocar o para-choque inteiro. Trocaram cartões, Tereza deixou o neto em casa, telefonou para a seguradora, recebeu orientações. Eu soube da história enquanto ela falava com a seguradora. Ela desligou, pedi detalhes da história e fiquei a pensar (como dizem os portugueses).

No dia seguinte Tereza telefonou para o corretor de seguros, o mesmo que sempre faz tudo para ela há décadas. Ele pediu as fotos, ela mandou, ele deu uma olhada nas imagens e pediu que deixasse tudo com ele, que resolveria. De cara ele, que está no negócio faz muito, viu um pequeno amassado na tampa do porta-malas, o que segundo ele o carro de Tereza não poderia ter causado. Eu lembrei que a frente é baixa, o para-choque é arredondado, portanto nem o pequeno amassado na tampa do porta-malas, nem a pequena deformação na ponta do para-choque do Civic seriam possíveis.

Indo um pouco mais a fundo. Os automóveis atuais têm para-choques de material plástico para diminuir as lesões em pedestres atropelados. A resistência e a plasticidade de qualquer para-choque é estabelecida por normas claríssimas que são seguidas a risca pelos fabricantes. Se procurar vai encontrar tabela com a curva de deformação e plasticidade. Mais, estes para-choques novos são presos à carroceria do automóvel por antes e peças de metal e plástico que são projetadas para quebrar ou deformar de forma a deixar marcas que identifiquem a intensidade do impacto. Ou seja, é possível saber com boa precisão o que aconteceu de fato, uma espécie de caixa preta do automóvel. 

Neste caso em particular, o local onde ocorreu o incidente tem câmeras que provam o que aconteceu de fato, incluindo a velocidade do impacto. Não vai ser necessário. O corretor de seguros colocou o motorista no seu lugar. Provavelmente ele sofreu uma outra colisão na traseira, bem mais forte, não recebeu o que direito, então tentou dar um aplique na desavisada. Clássico.

O que quero dizer aqui é que só aceita a versão de um dos envolvidos numa ocorrência quem quer. Ela pode até estar correta, mas se tiver alguma dúvida, algum detalhe, há caminhos para esclarecer os fatos, e não será difícil descobrir que nem tudo estava esclarecido. Tem muita gente que conta a versão que lhe interessa, o que pode ser bom para os interesses particulares dele, mas é péssimo para a construção da segurança no trânsito, que é o que mais interessa a todos. 

Em qualquer acidente há uma verdade. Conto aqui esta história porque o que mais ouço é versão criada, óbvio que atendendo aos interesses próprios ou do grupo. Sim, falo de ciclistas, como poderia estar falando de motociclistas. O Brasil é uma carnificina exatamente por isto, a versão curta e grossa, e com interesses outros. Repito mais uma vez: aviação é o meio de transporte mais seguro por que trabalha com fatos, não com versões ou culpados. Tem que entender os fatos para chegar à realidade para que ela não se repita.

 

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