Uma das meninas que pedalam no Sai na Noite teve seu pneu traseiro deformado no meio de um passeio. Conseguiu terminar o passeio, pediu dicas sobre onde levar a bicicleta para trocar os pneus já bem usados, e fazer uma revisão. Recomendei uma tradicional bicicletaria bem próxima da casa dela, gente que está no mercado faz uns 40 anos ou mais, gente séria, respeitada, que conheço bem.
Ela levou a bicicleta, pediu um orçamento para revisão completa, recebeu a resposta no dia seguinte: R$ 2.600,00. Ligou para mim, contou, eu quase caí de costas. R$ 2.600,00? Ela contou o que estava descrito no orçamento. A bicicleta, uma 29 meio básica, deveria ser trocada?, perguntou ela. Pelo que me lembrava, não.
Revisão completa:
desmontar
limpar
lubrificar
trocar todos os componentes, esferas de rolamentos, cabos, conduites
remontar
ajustar
(talvez algo mais que não me lembro)
+
troca de pneus: R$ 360,00
troca de guidão R$ 900,00
Troca de pneus: R$ 360,00? Troca de guidão R$ 900,00? Uau?
Enlouqueceram! Um pouco depois pensei com calma. Primeiro, conheço eles desde o começo, nunca ouvi um senão a respeito da seriedade deles. Então, "vamos com calma, deixa eu pensar o que pode ter acontecido".
Pneus por R$ 360,00. Deve estar incluído aí o alinhamento básico das rodas, e conhecendo o estoque deles digo que o pneu deve ser de qualidade melhor que os mais básicos. Os R$ 360,00 fazem sentido.
Guidão por R$ 900,00, de novo, deve ser um guidão de alta qualidade, caro e provavelmente incluiram aí um bike fit.
Mesmo assim... uau!
Esta bicicletaria tem seu foco em bicicletas de ponta, público seleto (?). Aceitam bicicletas mais simples, até porque não dá para não aceitar, e no passado, lá atrás, começaram como uma bicicletaria normal, não dá para descartar velhos clientes.
A outra questão é o público que eles tem, gente que no geral tem dinheiro e ou não está preocupada com quanto, ou gasta para não ficar mal da fita dos amigos, o que é muito mais comum que se possa imaginar, não preciso dizer.
De qualquer forma, o orçamento foi um tanto salgado, um tanto pouco realista.
Vou para o outro lado da questão, os proprietários de bicicleta, ditos ciclistas.
Conheço um monte de gente que faz questão de levar a bicicleta para fazer revisões periódicas em bicicletarias "de confiança". A maioria é de fato de confiança, boas bicicletarias, sérias, respeitáveis, mas estão lá para trabalhar e ganhar o seu. Se o cliente quer..., fazer o que?
Já passei por situações que amigos próximos, que dizem ter plena confiança em mim, trouxeram suas bicicletas para eu dar uma olhada. Estavam perfeitas, não precisavam de absolutamente nada, avisei com todas letras, mesmo assim acabaram as levando (sem eu saber) a bicicletarias 'chiques', por assim dizer. Não há como, ninguém consigue controlar as neuroses e inseguranças de ciclistas. A bem da verdade estamos numa fase que a falta de controle, a falta de sensatez, virou meio que regra. "Eu sei" está em alta. "Não faça" está em baixa.
O final da história da bicicleta que cito aqui: a dona comprou dois pneus pela internet e quando recebeu eu troquei um, aproveitando para ensiná-la como fazer, que trocou o outro. O guidão vamos resolver depois.
Bike fit? Desculpem, mas um macaco velho como eu, se não ajusta a posição com a perfeição de um bom profissional de bike fit, chega perto, bem perto. Ademais, algumas vezes tive que refazer o trabalho de profissionais respeitadíssimos porque estes fizeram o bike fit sem levar em consideração a idade do ciclista, uso que faz da bicicleta, e pricipalmente os problemas ósseos / musculares que a vida traz.
Mais uma vez escrevo: a bicicleta tem que funcionar perfeitamente, o que é diferente, muito diferente de ser neurótico. Repito pela enésima vez: Mike Sinyard, criador e dono da Specialized, disse (e provavelmente continua dizendo): "Eu fabrico bicicletas para serem usadas".
Outro dia soltei numa bicicletaria a deliciosa frase de um cartaz na Holanda: "Nós (holandeses) pedalamos. Americanos usam capacete". O dono não entendeu nada. Então... Bicicleta foi feita para ser usada. O setor de bicicletas brasileiro tem por base o setor de bicicletas americano, ou seja, sobre tudo, negócio. Europeu, no geral, usa a bicicleta até onde for relamente necessário 'dar um tapa nela'. Aqui é relativamente fácil encontrar uma bicicletaria, não tanto quanto farmácias, mas estão por aí. Lá, bicicletarias não são tão faceis de encontrar. Quantas farmácias 24 horas tem Paris? Quando estive lá, faz um pouco mais de 10 anos, uma, sim uma, ponto final. Ou seja, o pensar é diferente. Só lembrando: Holanda fica na Europa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário