sábado, 15 de março de 2025

Roubaram a bicicleta e, milagre, devolveram

Roubaram a bicicleta dentro da casa da moça. Um grupo fechado de ciclistas da internet foi acionado e publicou foto da bicicleta. Não demorou muito foi devolvida. Interessante. E curioso. 
Como o sujeito sabia que havia uma bicicleta na casa? Por ocasião? Estava passando na rua e viu a ciclista entrando? Um vizinho contou? Ele era vizinho? Pedalou junto com ela? A conhecia? Amigão? 
Como e porque se sentiu ameaçado se ser pego? Pego por um grupo restrito da internet? Que mais?
Fazia parte do grupo da mídia social?
Mui amigo? Ou um terceiro, também mui amigo que conhece o meliante e resolveu o embrólio para não piorar mais ainda a situação?

Leve em consideração o que falo e pergunto, ao mesmo tempo não leve em consideração. Só pense.

Tudo pode ser verdade. Ou não.
Confie desconfiando.

A possibilidade de um ladrão ser pego ou da bicicleta voltar para o dono original aqui nesta baderna de país deve ser mais ou menos parecida com a de tirar na mega sena. Eu aplaudo em pé o trabalho da polícia que outro dia apreendeu 2.000 celulares roubados, mas bicicleta e seus ladrões não estão na pauta do dia, o que é um erro. Quem diz são as autoridades holandesas, e de várias capitais do mundo, lidando agora com mais um problema que virou gigante. Roubo de bicicleta é coisa séria.
 
Fato é que já tive o desgosto de ter bicicletas roubadas ou ver bicicletas de amigos roubadas, e das que pude descobrir ou pegar de volta, de suas histórias algumas me surpreenderam, muito, mais que o fato do roubo em si.

Um dia um amigo levou um outro amigo para fazer compras no era então a bicicletaria mais completa da cidade de São Paulo. O convidado quase caiu de costas com a absurda variedade de bicicletas nacionais e importadas, mais peças e componentes, tudo que se possa imaginar, incluindo o que não se encontrava em lugar nenhum aqui, só lá fora, USA. A bem da verdade ninguém naquele Brasil de raras importações tinha um estoque tão farto e variado. Pequeno detalhe: tudo produto de roubo. 
A amizade dos dois acabou imediatamente.

Infelizmente com esta história acabaria descobrindo que sempre foi repetição de fato muito mais comum do que, como cidadão brasileiro não queria ter sabido e muito menos ter deixado passar. Como cidadão deveria ter ido atrás, mas não fui. Minha amizade com o cliente da dita "bicicletaria" esfriou, virou formalidade social, e foi só.

Uma bicicletaria fez uma importação de bicicletas de triathlon top de linha, Quintana Roo Kilo, a papel fina da papa fina de então, começo dos anos 90. Uma perua parou na porta da bicicletaria, dela desceu um cara bem apessoado e vestido, que entrou, esperou sair um cliente, avisou o assalto e limpou todo estoque destas bicicletas, muito especiais, de baixa fabricação, numeradas, etc..., teoricamente fáceis de rastrear e recuperar. Sumiram, desapareceram, nenhum rastro, nunca mais se soube. Levaram para outro estado? Tiraram do país? Ninguém viu, ninguém soube?

No bicicletario do Pacaembu estava minha bicicleta estacionada, ao lado uma bicicleta muito simples, mas tratada com muito carinho, limpa, polida, pintura brilhante, e ao lado dela uma Senna, edição especial criada pelo próprio Senna, que é uma maravilha, um sonho, mas suja. As três bem trancadas. Quando sai da piscina o dono da bicicleta simples estava desesperado porque tinha sido roubada. A minha e a maravilhosa Senna continuavam lá. O cara roubou a mais bonita. Ninguém viu. Os seguranças acharam estranho que entraram três com duas bicicletas e saíram três com três bicicletas. 

No estacionamento de bicicletas do Shopping Iguatemi a bicicleta de uma amiga, especial e única no Brasil, foi roubada. Ela trabalhava lá e ia todos dias pedalando aquela bicicleta. Nas câmeras de segurança ninguém conseguia acreditar que o sujeito tivesse conseguido estourar aquele U-lock. Pagaram bicicleta e trava roubadas, que demoram para vir dos Estados Unidos. Voltou a ir pedalando para o trabalho no mesmo shopping, e passado pouco tempo a nova bicicleta também foi roubada. O marido é do meio da bicicleta, mesmo assim foi impossível descobrir onde e com quem foi parar. A única coisa certa é que foi uma encomenda. Carta marcada. E ladrão profissional. Ladrão profissional de bicicletas? Sim, um que ninguém sabe, ninguém viu, mas recebe encomendas.

Todas estas histórias tem um elemento em comum: alguém silenciou, ninguém viu, ninguém sabe.

Comprar produtos roubados é fato trivial aqui no Brasil, em todos níveis sociais que se diga. Procedência indeterminada. O mesmo que comprar pirataria, que também ninguém sabe a procedência.

A principal razão de todas violências, de todos tipos e formas, está principalmente no silêncio de quem sabe sobre algum delito e não denuncia. "Dedo duro não pode" diz a regra. Não pode? Tentar fazer o certo não pode? Denunciar uma violência não pode? Apontar para o canalha que esfaqueia pelas costas não pode?
Upa!

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