segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Pico do Jaraguá, de novo (e até quando der)

- Velho não se mete a besta! - frase dita e repetida em minha família.
Opa! Não se aplica a mim, pelo menos enquanto der. Velho sim e metido a besta também também. Besta, mas não estúpido.

- Morro, mas não paro de fumar e beber - repetia meu irmão sobre o pedido do médico, nosso querido amigo, que aliás quando bebe, bebe para valer, dupla perfeita para seu paciente, meu irmão.
Tratando de minha mãe, que então estava internada em ótimo hospital, autorizou um happy hour no quarto. Lógico que na companhia dos familiares e dele. Num destes happy hour, que já estavamos as gargalhadas desenfreadas, entrou a enfermeira chefe e sem meias palavras ameaçou em bom tom expulsar todos do hospital, minha mãe e seu médico inclusive e juntos. Fechou a porta estouramos numa gargalhada geral, mas respeituosa, baixa. 

Carpe dizem - curta o momento.

Velho não se mete a besta - como traduzir para os jovens e adultos, ou qualquer vivo? A tradução vai mais ou menos pelo "não pula cercas que podem lhe fazer mal, ou dar problema que não consiga resolver". 
E - para não me sentir morto-vivo - parafraseando a repetida frase de meu irmão, vou à vida. Não bebo e nunca fumei, sou velho e até onde puder vou me meter ao limite possível, ou a besta.


Hoje subi o Pico do Jaraguá, mais uma vez. Obrigação com minha bicicleta do dia a dia, minha Trek 2008 ou 2009 pintada de laranja que virou minha amada bicicleta de poste. Está tão feiazinha, para os outros, que até ladrão passa batido. Bingo! Pedalo livre e tranquilo. 
Está montada com um câmbio 21 marchas, 7 X 3, sendo que modifiquei a relação dianteira e agora tenho a coroinha com 22 dentes. Ou seja, 22 na frente e 28 atrás, bem mais reduzida que o 28 X 28 original. E lá fui eu. "Será que subo?". 

Toda vez que saio de casa para subir o Pico do Jaraguá tenho lá uns chiliques. Ansiedade pura. Desta vez foi meio diferente. Na manhã do dia anterior tinha fritado as pernas entrando no vácuo de um pequeno pelotão com esta mesma bicicleta, e com mais um pequeno detalhe que só percebi depois: o pneu traseiro estava com 20 libras. Fiquei orgulhoso, conseguir entrar no vácuo de uma bicicleta de estrada com um pneu meio vazio. O velhinho está legal. 

Quase chegando no Pico coloquei na cabeça que deu, deu; não deu, não deu. As pernocas estão de fato cansadas, Velho não se mete a besta, nenhuma vergonha em dar meia volta.

Início da subida, tudo bem. Meio da subida, vamo que vamo. Quilômetros finais, upa! Velho se mete ou não a besta?
Só terminei porque aprendi a não ser besta. Em outras palavras, controlar a respiração e o batimento cardíaco,  tecnica quetodos deveriamsaber de cór e salteado
A bem da verdade só conseguir chegar lá em cima porque boa parte da subida fui conversando com um garoto que subia correndo a pé. Nos km finais, subida íngreme, ele subiu mais rápido e aí tive que me concentrar para controlar meus parâmetros e não parar.

Final de dia. Escrevo este texto. Tenho que dormir para acordar cedo, mas o fogo no rabo não deixa. Fico repassando cada metro da pedalada. Delicia! Quando vou de novo? Qual a próxima besteira (para os outros) vou fazer?

Vivam, é o recado aqui. 
O Pico do Jaraguá está ali. Eu deveria ter aproveitado muito mais.
O Parque do Ibirapuera só fui curtir muito depois do que poderia.
Comecei a correr a pé muito tarde. Poderia ter feito várias São Silvestre. 

Quanto perdi nesta vida por besteira. Deveria ter entendido de outra forma o "Velho não se mete a besta". Não se mete a besta deixando a vida passar.

Vai viver, se meta a besta. Faça, mas faça corretamente. 




sábado, 22 de novembro de 2025

Velhinho caquético no pelotão

Ou você ri da vida, ou a vida vai rir de você 

O pelotão que passa tem regras, algumas regras de como pedalar, técnicas obrigatórias para não cair e levar para o chão todos, e regras informais, sociais por assim dizer aquela coisa de como se vestir, como e o que conversar, comportar-se como manda o figurino do ciclismo de estrada.

Nada mais divertido que entrar no vácuo do pelotão, principalmente se você for um intruso inesperado. Em algumas situações não bem vindo, mas quem disse que o pelotão é dono da ciclovia? 

Eu deveria ter ido para a primeira comunhão do neto pedalando devagar. É de se esperar que o avô chegue dignamente bem vestido, o que eu estava, e de preferência seco. E assim sai de casa e entrei na ciclovia, consciente de minhas obrigações sócias, pedalando civilizadamente. Até passar um pelotão que com a minha MTB 26, pneus 1.95 pressão baixa, paralaminhas, 14 kg, eu senti que dava para pegar o vácuo. Aí danou se. Segura o velhinho. E lá fui eu. 

A primeira coisa numa situação destas é acalmar o pelotão. "Vamos embora que sei o que faço", e param de olhar para trás, uns com cara de espanto, outros rindo, e a maioria continuando como estão para não dar trela, ou ofendidos com a intromissão. Passados uns bons metros se acalmam. A bem da verdade eu também, porque o que tem de gente pedalando bicicleta cara sem saber o que faz...

Infelizmente estou velhinho. Queria muito ainda ter pernas para puxar o pelotão. Pelo menos me resta ainda forças para colar no vácuo e lá ficar por uns 2 km, o que me orgulho por estar pedalando a bicicleta que estou, vestido socialmente, e com meus cabelos platinados ao vento.

Pouco antes da rampa de saída agradeço a carona e desta vez recebo um sorriso educado do último ciclista. "Você foi profissional?", perguntou. Meu ego está feito. 

E chego na igreja. Acabou a brincadeira. Sorrio para a família, feliz. Me olham com certo espanto. "Fez de novo! Olha o estado que você está. Volta para casa e vai tomar um banho!"

Fazer o que? Estou acostumado com estas broncas.